Especialista analisa indicações, perda de massa muscular e por que os dois métodos podem se complementar no controle da obesidade
Thiago Coutinho
Da redação

Pesquisa aponta que 62% dos brasileiros conhecem alguém que faz, ou ainda utiliza, as famosas canetas emagrecedoras / Foto: Sweet Life por Unsplash
Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva mostra que 62% dos brasileiros conhecem alguém que fez uso, ou ainda utiliza, as famosas canetas emagrecedoras — aqueles medicamentos injetáveis destinados ao tratamento de diabetes e obesidade. Médicos e pacientes acabam se vendo diante de uma escolha que envolve os análogos de GLP-1 (as canetas) e a intervenção cirúrgica. Do ponto de vista clínico, quais são os parâmetros decisivos que determinam quando o uso das canetas é a conduta ideal e em quais casos a cirurgia bariátrica se torna a melhor opção?
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“Tanto o tratamento farmacológico quanto o cirúrgico levam à perda de peso”, afirma o médico Alvaro Faria, gastrocirurgião da Clínica Gastro ABC. “No entanto, a porcentagem da perda de peso com a cirurgia é superior ao uso do medicamento. De acordo com alguns estudos, a perda de peso provocada pelas alterações anatômicas e metabólicas da cirurgia pode chegar a até 35% do peso inicial, contra 15-20% do tratamento medicamentoso no melhor dos cenários.”
O grande diferencial, de acordo com o especialista, é que, com as alterações definitivas proporcionadas pela cirurgia, os resultados tendem a ser mais duradouros. “Devido às alterações definitivas que a cirurgia traz, os pacientes tendem a manter a perda de peso sustentada a longo prazo, contra o reganho de peso que se observa nos pacientes que usam os análogos de GLP-1. Mas é interessante notar que, apesar das medicações modernas que temos no mercado, as indicações de cirurgia ainda são bem estabelecidas e não substituem, na maioria dos casos, o tratamento com medicamentos”, acrescenta.
A indicação, porém, sobre se o paciente é candidato à cirurgia ou à caneta emagrecedora é totalmente individualizada. Levam-se em conta diversos outros fatores até a decisão de qual método será o mais indicado. “Leva-se em conta não só o peso do paciente, mas também comorbidades associadas. Por exemplo, um paciente com uma relação de peso/altura ao quadrado (IMC) de 40, com um diabetes de difícil controle, tem indicação de cirurgia, e não exclusivamente o uso de medicamentos”, explica Faria.
O risco de reganho de peso
A cirurgia bariátrica altera permanentemente a anatomia digestiva, enquanto as medicações injetáveis exigem continuidade para manter o efeito metabólico. Mas o reganho de peso pode ocorrer em ambas as situações. Como, então, a medicina lida com esses dois cenários?
“O reganho de peso pode ocorrer tanto em pacientes submetidos à cirurgia quanto nos pacientes que usaram medicamentos, sendo que, no caso do uso das canetas emagrecedoras, observa-se um reganho de peso maior e de maneira mais rápida do que nos pacientes submetidos à cirurgia”, detalha o gastrocirurgião. “Isso ocorre por uma série de fatores, mas o principal é entendermos que a obesidade é uma doença crônica, portanto sem cura, mas passível de controle. A perda de peso a longo prazo, de maneira sustentada, só ocorre quando o paciente, independentemente da técnica, mantém no seu dia a dia as alterações no estilo de vida necessárias para manter o equilíbrio, como a vigilância na dieta e a atividade física constante.”
Sendo assim, sem mudança de estilo de vida, a volta do sobrepeso é certa. “No entanto, como as alterações que a cirurgia faz são definitivas, observa-se um aumento de peso menor a longo prazo do que nos pacientes que fizeram tratamento com medicamentos e encerraram o uso”, detalha.
Perda muscular
Tanto a perda rápida de peso induzida pelas canetas quanto o pós-operatório da bariátrica podem provocar perda expressiva de massa muscular, além de impactos gastrointestinais (como náuseas nas medicações ou a síndrome de Dumping — esvaziamento rápido do estômago, em que os alimentos passam rápido demais para o intestino delgado — após a cirurgia bariátrica). Nesses casos, o acompanhamento multidisciplinar é fundamental.
“A perda de peso após qualquer tipo de tratamento, quer seja com medicamentos ou cirurgia, leva à perda de gordura, mas também à perda de massa muscular, o que pode levar à sarcopenia, que é a perda excessiva da musculatura”, detalha Faria. “Por isso, o acompanhamento multidisciplinar é fundamental, pois precisamos garantir que o paciente ingira alimentos na quantidade e qualidade adequadas e também realize atividade física, como musculação, de maneira rotineira, o que é fundamental para a manutenção da massa magra.”
Abordagem conjunta
Muitos especialistas apontam que medicações e cirurgia não são métodos concorrentes, mas sim complementares. O uso das canetas no pré-operatório para reduzir riscos cirúrgicos ou no pós-operatório para conter eventuais recidivas já é uma realidade na prática clínica.
“A cirurgia e o tratamento medicamentoso não são concorrentes, mas se complementam, sendo que a terapia com remédios pode ser indicada para aquele paciente com um grau de obesidade que não tem indicação de cirurgia, além de ser útil nos pacientes com uma obesidade gravíssima em que o peso pode levar a uma descompensação por conta da cirurgia”, afirma o gastrocirurgião.
A esperança, segundo o médico, é de que os medicamentos futuros permitam um emagrecimento mais saudável, sem perda excessiva de massa magra. “Tanto a cirurgia quanto os medicamentos modernos estarão sempre evoluindo para oferecer o melhor tratamento, de maneira adequada e individualizada para esta doença tão grave que é a obesidade”, finaliza.