Em missa celebrada na praia de Rimini, Leão XIV refletiu sobre o sentido do descanso e convidou os fiéis a encontrarem em Deus a verdadeira fonte de paz
Da Redação, com Vatican News

Papa durante Santa Missa em Rimini /Foto: Reprodução Vatican News
Em missa celebrada na praia de Porto di Rimini, na tarde do último sábado, 22, o Papa Leão XIV refletiu sobre o verdadeiro sentido do descanso e da vida em comunidade. Diante de moradores e turistas da região italiana da Romagna, o Pontífice afirmou que o descanso não deve significar uma fuga da realidade, mas uma oportunidade de “voltar a si mesmo”, reencontrando Deus e os outros no profundo do coração. A celebração encerrou um dia marcado pela visita pastoral à República de San Marino e pela participação no “Encontro pela Amizade entre os Povos”, em Rimini.
Entre os concelebrantes estava o Padre Mirco Bianchi, pároco desde 2013 das comunidades de Villamarina e Gatteo Mare, na região de Cesenatico. Em agosto de 2025, o sacerdote revelou ter sido diagnosticado com um tumor e, desde então, compartilha pelas redes sociais sua experiência de vida com a doença, mantendo o diálogo com fiéis e jovens. Além do ministério paroquial, ele leciona religião para adolescentes em Cesenatico e San Giorgio.
Caminho que conduz à vida
A reflexão do Papa partiu da profissão de fé de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Segundo Leão XIV, essa afirmação, feita há dois mil anos, continua convidando os cristãos a reconhecer em Jesus “o caminho que conduz à vida”.
O Pontífice destacou que o caminho de Deus é marcado pelo serviço: é o Mestre que se inclina para lavar os pés dos discípulos e o Pastor que entrega a própria vida pelo rebanho. Nesse contexto, explicou o significado do gesto de Jesus ao confiar as chaves a Pedro. Para Leão XIV, as chaves representam não apenas a responsabilidade daqueles que exercem autoridade na Igreja, mas também um estilo de vida marcado pelo acolhimento, pela união, pelo perdão, pela libertação e pela capacidade de abraçar a todos.
Essa dimensão do serviço, recordou o Papa, foi testemunhada de modo particular pelo Servo de Deus padre Oreste Benzi, ligado à história da região. O sacerdote ensinava que a vocação cristã consiste em deixar-se conformar a Cristo pobre e servo, vivendo uma partilha concreta com os mais necessitados.
Economia e poder a serviço do bem comum
Na sequência, o Pontífice relacionou o Evangelho à primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaías, que apresenta a história de Sebna. O funcionário havia recebido uma importante responsabilidade no projeto de renovação de Jerusalém, mas acabou utilizando sua posição para abusar da autoridade e acumular riquezas.
Segundo Leão XIV, Sebna perdeu de vista que o mais importante não eram os recursos econômicos ou o poder que lhe haviam sido confiados, mas a possibilidade de colocá-los a serviço do renascimento e do bem de toda a comunidade.
A partir desse episódio, o Papa ressaltou que tudo o que a pessoa é e possui constitui um dom de Deus. Esses dons, explicou, são confiados aos seres humanos para que possam se tornar instrumentos de salvação e justiça nos lugares onde vivem e trabalham, com um coração aberto às necessidades do mundo.
Valores da Romagna
Ao comentar a segunda leitura, na qual São Paulo fala dos desígnios “insondáveis” de Deus, Leão XIV explicou que o termo não se refere à complexidade dos planos divinos, mas à “imensidão desarmante do seu amor”, movido pela caridade.
O Pontífice relacionou essa característica ao povo da Romagna, destacando valores como honestidade, gratuidade, benevolência, solidariedade e alegria. Também recordou santos e beatos nascidos na região e o compromisso de muitas pessoas nas diferentes realidades eclesiais locais.
Para Leão XIV, essa riqueza humana e espiritual se soma às belezas naturais e artísticas da costa do Adriático e do interior, atraindo todos os anos visitantes de diversas partes da Itália e do mundo.
Acolher a todos, sem distinção
Foi justamente a realidade turística da região que levou o Papa a refletir sobre o sentido do descanso. Leão XIV recordou uma visita de São João Paulo II a Rimini, em 1982, quando o Pontífice ensinou que descansar não significa afastar-se de si mesmo, mas encontrar-se consigo e reconciliar-se com o próprio interior.
O mundo contemporâneo, observou Leão XIV, oferece inúmeras formas de lazer, algumas delas capazes de conduzir mais à dispersão e ao vazio do que a um verdadeiro descanso. Por isso, recordou a ideia de “fuga”, como se a vida cotidiana fosse uma prisão da qual fosse necessário escapar.
Para o Papa, porém, o lugar mais profundo do descanso e do encontro com Deus não está “fora, no caos”, mas dentro de cada pessoa, no mais profundo da alma. É desse encontro interior que pode nascer também uma relação verdadeira com os outros.
Nesse sentido, o Pontífice afirmou que cada cristão é chamado a cultivar e transmitir essa experiência por meio do acolhimento. A comunidade cristã deve receber tanto aqueles que procuram um tempo de descanso depois de um ano de trabalho quanto aqueles que chegam feridos no corpo ou no espírito, necessitando de refúgio, alimento e assistência longe de sua terra.
Os “dons” de Rimini
Ao final da homilia, Leão XIV citou uma carta enviada pelo bispo de Rimini, dom Nicolò Anselmi, à diocese. No texto, o bispo destacou “a oração, a unidade, a escuta, a coragem, a simplicidade, a gratidão e a beleza” como atitudes capazes de marcar cada dimensão da vida.
Após a celebração, o próprio dom Nicolò tomou a palavra e ressaltou a alegria vivida pela comunidade durante a preparação da visita do Papa.
O bispo também anunciou três compromissos assumidos pela Igreja local. O primeiro é o financiamento da instalação de grama sintética no campo de futebol destinado aos detentos da prisão de Rimini. O segundo é a participação em um projeto da Conferência Episcopal Italiana para a construção de um hospital ou de um importante centro médico em Gaza. O terceiro está relacionado ao acolhimento de estrangeiros que vivem e trabalham na região, contribuindo para diferentes setores da sociedade da Romagna.
A visita de Leão XIV a Rimini, portanto, terminou com um apelo à comunidade para que seus recursos, sua hospitalidade e sua riqueza humana sejam colocados a serviço de todos, especialmente dos que mais precisam.
