Em mensagem ao Cardeal Simoni, o Papa Leão XIV homenageou os perseguidos pelo antigo regime albanês durante missa no ex-campo de prisioneiros de Spaç

O cardeal albanês Ernest Simoni / Foto: Stefano Rellandini – Reuters
Da redação, com Vatican News
“Nenhuma corrente é forte o suficiente para aprisionar uma consciência iluminada pelo Evangelho; nenhuma noite é tão longa a ponto de impedir a aurora que o Senhor prepara para os seus filhos; e nenhuma prisão é profunda o suficiente para separar uma pessoa do amor de Deus.”
Com estas palavras, ecoando a Carta de São Paulo aos Romanos (8, 35-39), o Papa Leão XIV dirigiu uma mensagem ao cardeal albanês Ernest Simoni e a todos os que participaram da Missa presidida pelo cardeal na manhã de sexta-feira, 31, no antigo campo de prisioneiros de Spaç, em memória daqueles que ali sofreram ou morreram.
Um lugar onde muitos carregaram a cruz da injustiça
“Aquele lugar, profundamente gravado na memória do povo albanês, permanece como um dos capítulos mais dolorosos da história da nação. Spaç foi um lugar onde muitos carregaram a pesada cruz da injustiça”, escreveu o Papa na mensagem, lida ao final da Missa.
O Santo Padre recordou que “o sangue daqueles que sofreram e morreram entre aquelas montanhas regou aquela terra, tornando-a uma testemunha silenciosa de fidelidade, coragem e esperança”.
Uma testemunha da perseguição sob o regime comunista
O cardeal Simoni, hoje com 97 anos, retornou ao campo onde passou a maior parte de seus 18 anos de prisão “para celebrar o Sacrifício de Cristo, que transformou a Cruz de um sinal de morte em promessa de vida”, escreveu o Papa Leão.
O cardeal albanês vivenciou pessoalmente a perseguição do regime comunista. Inicialmente condenado à morte como inimigo do povo, sua pena foi posteriormente comutada para prisão em vários campos de trabalho, onde suportou anos de trabalhos forçados.
“Eu arriscava a vida toda vez que celebrava a Missa”
O cardeal Simoni recordou que, durante o seu encarceramento, celebrava a Missa de memória, em latim, observando: “Eu arriscava a vida a cada vez”. Disse também que ouvia confissões e distribuía a Sagrada Comunhão em segredo.
Ao explicar que preparava o pão usando farinha cozida em fogões improvisados e utilizava suco espremido de uvas para a celebração eucarística, ele reconheceu: “Se tivessem me descoberto, teriam me enforcado imediatamente”. De fato, durante a Missa de sexta-feira, o Cardeal mostrou aos presentes o capacete de mineiro que usava quando era um jovem sacerdote e foi enviado para trabalhar no subsolo das minas.
A oração do Papa pelos que foram sepultados em valas comuns
Refletindo sobre aqueles anos de perseguição, o Papa Leão escreveu: “Quem sabe quantas orações subiram ao Céu daquele lugar? Quantas súplicas foram sussurradas em silêncio? Quantos rostos, marcados pelo sofrimento e pela privação, confiaram ao Senhor a sua última esperança?”
O Papa uniu-se em oração por cada um daqueles homens e mulheres, muitos dos quais foram sepultados em valas comuns, onde ninguém pôde chorar a sua morte ou depositar uma flor em sua memória.
Ele rezou para que “a memória deles permaneça viva e sirva de lembrete constante para as novas gerações sobre a dignidade inviolável de cada pessoa humana, o valor da liberdade e o compromisso com a paz”.




