EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

Como o retiro inaciano renova a fé em meio à rotina diária

Acessível a qualquer pessoa disposta ao silêncio interior, a experiência desenvolvida por Santo Inácio oferece um caminho de restauração e paz

Thiago Coutinho
Da redação

Foto: Assessoria dos padres Jesuítas

Nesta sexta-feira, 31, a Igreja Católica recorda o fundador da Companhia de Jesus (os jesuítas), uma das ordens mais influentes da história da Igreja e do mundo ocidental: Santo Inácio de Loyola. Outrora um soldado espanhol do século XVI, Santo Inácio passou por uma profunda conversão espiritual após ser gravemente ferido em batalha, processo que deu origem à ordem jesuíta.

Os Exercícios Espirituais

Após ter uma de suas pernas gravemente ferida durante a Batalha de Pamplona, o então Íñigo López de Loyola dedicou-se à leitura de livros sobre a vida de Cristo e dos santos. Nesse período de intensa dedicação a Jesus Cristo, as reflexões sobre servir a Deus lhe traziam uma paz profunda e duradoura. Foi a partir dessa percepção que Santo Inácio deu origem ao que viriam a ser os Exercícios Espirituais.

Ao se recuperar do ferimento e viver a plenitude de sua revelação espiritual, Santo Inácio abriu mão da vida nobre. Viveu, então, um período de intensa oração e penitência na cidade de Manresa, onde passou por crises profundas e discernimentos espirituais — experiência que consolidou a base desses exercícios.

Santo Inácio de Loyola definia os Exercícios Espirituais como um verdadeiro “treinamento da alma” para ordenar a própria vida. Mas como isso funciona para o homem contemporâneo?

“O que se busca é compreender o que Deus está nos pedindo. A ênfase está no encontro com o Senhor, nosso Criador, e não em um exercício de autoaperfeiçoamento moral”, explica o padre Alfredo Sampaio Costa, SJ. “Nesse ponto, os Exercícios são sempre atuais, pois todos — a seu modo — estão em busca de um sentido para suas vidas e de descobrir o seu lugar neste mundo, sua missão, ou, nas palavras de Inácio, ‘o fim para o qual somos criados’ (n. 23 dos Exercícios).”

Inácio, explica o sacerdote jesuíta, percebeu que é preciso nos conectarmos com o nosso Criador e Senhor para podermos escutar d’Ele o que deseja para a nossa vida. Em um mundo cada vez mais hiperconectado e marcado pelo ruído, fazer silêncio só é possível quando reconhecemos que precisamos ouvir Alguém. “Alguém que tem uma palavra importante a nos dizer. Para isso, teremos de ‘diminuir o volume’ das tantas vozes que povoam nossa liberdade e consciência e atentar para o Senhor. Esse é o sentido de ‘fazer silêncio’ para Santo Inácio. Provavelmente, só poderemos fazê-lo ao nos retirarmos para um local tranquilo para estar com o Senhor ou ao encontrarmos em nossa agenda um espaço do dia para um momento mais pessoal de oração em meio às nossas atividades”, detalha.

Retiro espiritual inaciano

A essência de um retiro espiritual inaciano difere diametralmente de um período de férias, de um descanso convencional ou do turismo religioso. “Um retiro na tradição da Igreja sempre foi visto como um momento privilegiado de retirar-se para um encontro mais profundo com o Senhor na oração. As grandes decisões a serem tomadas na vida sempre foram precedidas por retiros espirituais”, explica o padre Alfredo.

Outra dica do sacerdote a quem deseja realizar um retiro nos moldes inacianos é ser acompanhado por alguém ao longo do retiro. O padre explica o porquê: “O acompanhamento espiritual é fundamental para que possamos partilhar e compreender melhor nossa própria experiência de oração pessoal. Sozinhos, podemos nos deixar enganar por sentimentos e pensamentos que nos vêm à mente”, afirma.

Outro ponto importante destacado pelo santo para o retiro espiritual é a contemplação dos Mistérios da Vida de Cristo. Santo Inácio costumava dizer que esses mistérios podem trazer muita luz para a nossa vida. “Na Encarnação, o Verbo assume a nossa história e marca um caminho de pobreza, humildade, escondimento e serviço que dará uma orientação a toda a sua vida, culminando na sua entrega por amor na Cruz. Nos Exercícios inacianos, vamos seguir esse itinerário, perguntando-nos sempre como podemos amar e seguir mais a Jesus hoje”, ensina o sacerdote jesuíta.

Quando dar um tempo

Muitas vezes, as pessoas sentem que precisam “dar um tempo”, mas não sabem se um retiro espiritual é a melhor resposta para esses anseios. Existem, porém, sinais claros de que um bom retiro pode arejar a mente e oferecer novos horizontes. “Sentir que é preciso dar um tempo já é muito importante e é o primeiro passo necessário para sair da imobilidade e da estagnação espiritual em que muitos se encontram, prisioneiros de uma rotina que vai sugando suas energias”, alerta o padre Alfredo.

“Acredito que um retiro pode ser sempre um caminho, nunca uma ‘resposta'”, adverte o jesuíta. “Um cansaço existencial ou mesmo a experiência de falta de sentido na vida podem exigir, mais do que um retiro espiritual, um acompanhamento psicológico ou mesmo terapêutico. Ainda assim, buscar apoio no Senhor sempre poderá ajudar a sair dessa situação e a recuperar energias para prosseguir.”

É importante ressaltar também que um retiro espiritual não precisa ser, necessariamente, em um local distante e exclusivo. A própria casa pode ser o espaço ideal, pois o que importa nesses momentos é reviver a intimidade com Deus — e isso pode acontecer em qualquer lugar. “Se o fizermos em nosso dia a dia, nas atividades cotidianas, isso já nos dará uma consolação espiritual e o sentimento de sermos amados e chamados à intimidade com o Senhor. O próprio Inácio previu isso quando escreveu seu famoso livrinho”, acrescenta o padre.

Retiro espiritual é para todos

Qualquer pessoa pode se propor a praticar os ensinamentos de Santo Inácio para realizar um retiro espiritual. Basta estar disposto; essa é a única premissa imprescindível. “Santo Inácio pedia ao candidato ao retiro que tivesse uma boa dose de generosidade e desejo de mudança para entrar nos Exercícios. Ele acreditava que isso poderia até mesmo suprir possíveis carências no seu caminho espiritual e humano. Se a pessoa está disposta a entrar nos Exercícios, desejosa de escutar o Senhor falar, pronta para se deixar conduzir pelo Espírito Santo e ansiosa por descobrir o que o Senhor quer lhe pedir para responder com generosidade a Ele, não vejo por que não poderia iniciar o retiro”, afirma o sacerdote jesuíta.

O preparo pode ser gradual, não exigindo de início o grau de dedicação de quem já pratica um retiro como este há anos. “Há uma gama enorme de possibilidades de retiros inacianos oferecidos, de forma progressiva. O portal da Rede Servir dos jesuítas pode ajudar a encontrar a experiência mais adequada conforme a maturidade da pessoa. Até mesmo a experiência completa dos Exercícios — o chamado Mês Inaciano — é oferecida em etapas para favorecer o acesso a mais pessoas”, finaliza o padre Alfredo.

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