Padre Alexandre Nunes comenta memória celebrada nesta terça-feira, 30, e reflete sobre perseguições sofridas pelos cristãos na atualidade, inclusive no âmbito moral
Gabriel Fontana
Da Redação

A Última Oração dos Cristãos Mártires, Jean-Léon Gérôme.
Testemunhas de fé e coragem dos tempos primitivos da Igreja, os Protomártires de Roma são celebrados nesta terça-feira, 30. Tal memória recorda os fiéis cujo sangue foi derramado por amor a Cristo e que oferecem uma preciosa lição aos cristãos de todo o mundo.
Doutorando em Teologia Litúrgica, padre Alexandre Nunes, LC, vive em Roma e comenta o exemplo deixado por esses cristãos. Ele explica que, no ano 64, o imperador Nero impôs uma grande perseguição aos cristãos, que à época estavam crescendo e se recusavam a adorá-lo como uma divindade.
Muitos fiéis, portanto, foram condenados à tortura e à morte, sendo queimados, crucificados, decapitados e jogados às feras. Apesar das ameaças, os cristãos primitivos não negavam Jesus, sendo sustentados pelo testemunho que receberam dos apóstolos e pela verdade da fé. “Foi algo tão forte, tão forte, que eles não tinham medo de serem perseguidos, torturados, mortos”, expressa o sacerdote.
Testemunho de fé

Padre Alexandre Nunes, LC / Foto: Arquivo pessoal
O presbítero observa que a palavra “martírio” vem do grego martýrion, que significa “testemunho”. “Esses testemunhos da fé realmente não tinham medo de dizer ‘sim’ a Cristo e ‘não’ a qualquer outro tipo de divindade, mesmo que isso custasse a vida deles, a tortura, o derramamento de sangue. Eles semearam a fé cristã nas terras de Roma através do próprio sangue”, salienta.
Tais testemunhos, prossegue padre Alexandre, oferecem lições valiosas aos fiéis dos dias atuais. “Não devemos ter medo de sermos cristãos, de sermos perseguidos por aquilo que nós somos, acreditamos e amamos”, sinaliza, destacando que a fé surge a partir do encontro com a pessoa do Cristo vivo.
“Afinal, por detrás dos mandamentos, do Magistério da Igreja, de todo o ensinamento de Cristo, está o próprio Cristo. Não obedecemos preceitos, mas obedecemos a uma pessoa que se entregou na cruz por nós”, salienta o sacerdote.
Perseguição na atualidade
Padre Alexandre ressalta que ser cristão implica ter a coragem de defender a fé e os valores cristãos, mesmo diante da retaliação moral e do cancelamento social. “O martírio hoje, para nós, não é mais um derramamento de sangue, apesar de que em alguns lugares continuam a perseguir, matando os cristãos”, aponta.
O sacerdote recorda que, em diversas regiões do mundo, os cristãos não têm espaço, como a Nigéria, o Sri Lanka e a Índia. “Em alguns lugares, ainda temos o derramamento de sangue. Em outros, temos a retaliação moral, onde um cristão que fala da moral e dos valores cristãos imediatamente é processado, perseguido, acusado e cancelado da sociedade”, explica.
A partir disso, brilha ainda mais o exemplo de fidelidade dos protomártires a Cristo e à sua consciência. “Devemos aprender com eles a suportar esses sofrimentos, E a não ter medo de testemunhar e confessar a nossa fé com coragem e bravura, mas sobretudo com os olhos fixos naquele que se entregou por nós na cruz, que é Cristo”, exorta padre Alexandre.
“Continua a perseguição sangrenta, mas por outro lado há também essa perseguição moral, onde um cristão é perseguido de forma clara e evidente”, prossegue o sacerdote. “As leis vão contra os valores e princípios cristãos, cada dia mais. Proclama-se leis contra a vida, contra a própria confissão de fé, contra a liberdade dos pais de educarem os filhos. A sociedade caminha de forma direta e impiedosa contra a fé cristã, contra os valores cristãos”, ressalta.
Unidos na oração e na defesa da fé
Neste contexto, padre Alexandre indica que os cristãos são chamados a se unirem aos irmãos que são perseguidos por meio da oração. “Em muitos lugares continua o martírio de sangue. No ocidente, existe o martírio moral”, frisa. Além disso, acrescenta, é preciso estudar a fé para conhecê-la profundamente e defendê-la.
“Se na época das cruzadas a luta era com espadas, hoje se dá através dos argumentos, da coragem, do testemunho de uma fé cristã autêntica, sendo sal da terra e luz do mundo”, conclui o sacerdote.




