APÓSTOLO DO BRASIL

São José de Anchieta ensina a evangelizar onde o povo está, diz bispo

Na data da memória litúrgica do Apóstolo do Brasil, Dom José Altevir reflete sobre evangelização no país e desafios apresentados pelo mundo digital

Gabriel Fontana
Da Redação

Retrato do Padre José de Anchieta. Benedito Calixto, 1902, óleo sobre tela.

Nesta terça-feira, 9, a Igreja celebra a memória de São José de Anchieta. Conhecido como “Apóstolo do Brasil”, o padre jesuíta teve papel fundamental no anúncio do Evangelho durante o século XVI, quando o país havia sido recém-descoberto por Portugal.

São José de Anchieta usou diversos meios e ferramentas para evangelizar os indígenas que já habitavam o país. Por meio do teatro e da música, anunciou a Boa Nova do Senhor, tornando-se uma referência quanto à ação evangelizadora.

Quase cinco séculos depois, o padre jesuíta segue inspirando a evangelização no Brasil. O bispo da Prelazia de Tefé (AM), Dom José Altevir da Silva, reflete sobre o legado deixado por São José de Anchieta, especialmente no atual momento vivido pela Igreja no país.

Isso porque durante a 62ª Assembleia Geral dos Bispos, realizada em abril, a evangelização foi o centro da reflexão do episcopado brasileiro. Durante o encontro, os bispos analisaram, votaram — e aprovaram — as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE).

As lições de São José de Anchieta

Dom José Altevir da Silva / Foto: Prelazia de Tefé

Dom Altevir recorda os ensinamentos de Santo Agostinho, que aponta que a Igreja é santa pelos méritos de Cristo, mas pecadora pelos seus fiéis. Desta forma, o povo de Deus está sempre a caminho da conversão — inclusive aqueles que evangelizam, que também estão sujeitos a cometer erros e equívocos.

“Tivemos santos que deram vida pelos povos indígenas e tiveram erros de quem confundiu a fé com a dominação”, aponta o prelado. Neste contexto, brilha o exemplo de São José de Anchieta: “uma pessoa apaixonada por Cristo e pelo povo”, como descreve o bispo, “que veio com o intuito de fazer a vontade de Deus”.

Entre as lições deixadas pelo padre jesuíta, Dom Altevir destaca a proximidade com o povo. “Ele não evangelizava de longe. Descia do barco, dormia nas aldeias, chorava com o povo. Daí por que era chamado apóstolo do Brasil: porque fez desse país realmente a sua casa”, salienta.

O prelado sublinha também a criatividade pastoral de São José de Anchieta. “Para ele, evangelizar era encarnar, de fato, o Evangelho na cultura do outro”, pontua. A partir dos esforços em anunciar a Jesus, o jesuíta mostra que evangelizador é quem se coloca a serviço do próximo.

Impulso à evangelização

Dom Altevir indica que a Igreja no Brasil é impulsionada por esse mesmo espírito a sair, encarnar, servir. Neste contexto, é preciso lançar um olhar para a atualidade, em um gesto de conversão pastoral e missionária, a fim de compreender o momento que a humanidade atravessa.

De forma especial, o prelado menciona a importância de entender o mundo digital no qual a sociedade contemporânea se insere e aproveitar-se dele para evangelizar. “O teatro, a música que São José de Anchieta usava é a internet de hoje”, observa.

Recordando as DGAE que foram recentemente aprovadas, o bispo destaca que a comunicação aproxima e cria comunhão. “A evangelização não pode limitar-se a transmitir ideias”, sinaliza Dom Altevir, “deve ser capaz de gerar vida nova, abrir horizonte, curar feridas, transformar corações”.

“Evangelizar hoje exige entrar nas culturas, inclusive na cultura digital”, prossegue o prelado. Tal processo não se resume a “transmitir por transmitir”, focando apenas nos instrumentos e ferramentas disponíveis. A Igreja, aponta Dom Altevir, é chamada a habitar o mundo digital com discernimento, fidelidade ao Evangelho e criatividade pastoral.

Tecnologia e inteligência artificial

O bispo sublinha que não é a tecnologia que garante a autenticidade da comunicação, mas o coração humano e a sua capacidade de usar bem os meios disponíveis. “As diretrizes estão muito atentas nesse sentido, porque essa tecnologia conecta, mas também isola; aproxima, mas também pode polarizar e dividir”, salienta.

“A inteligência artificial oferece oportunidades extraordinárias”, prossegue o prelado, “mas também riscos, como dependência tecnológica, fragilidade relacional, manipulação da verdade. A questão central não é temer a tecnologia, mas humanizá-la”.

Neste contexto, Dom Altevir recorda a recém-publicada carta encíclica Magnifica Humanitas, escrita pelo Papa Leão XIV. Nela, o Pontífice escreve que a inteligência artificial está a serviço do ser humano, não o contrário.

“Eu vejo essa relação com São José de Anchieta dizendo que, hoje, os meios de comunicação digitais vão nos ajudar bastante na evangelização à medida em que a gente une a fé e a vida, tendo como centro Jesus Cristo”, conclui o prelado.

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