Iniciando sua visita pastoral a Acerra neste sábado, 23, Leão XIV refletiu sobre a ação de Deus sobre a vida daqueles que se confiam ao Senhor
Da Redação, com Vatican News

Papa Leão XIV discursa durante encontro na Catedral de Nossa Senhora da Assunção, em Acerra / Foto: REUTERS/Ciro De Luca
Na manhã deste sábado, 23, o Papa Leão XIV visitou a cidade de Acerra, localizada no sul da Itália. O encontro com os fiéis da região, conhecida como “Terra dos Fogos”, está inserida na agenda de visitas pastorais à diferentes cidades italianas que começou com a passagem por Pompeia e Nápoles.
Em seu primeiro compromisso, realizado na Catedral de Nossa Senhora da Assunção, o Pontífice se encontrou com os bispos, o clero, os religiosos e as famílias das vítimas da poluição ambiental (que dá o apelido à cidade). No início de seu discurso, recordou que o Papa Francisco gostaria de ter visitado Acerra, mas não conseguiu.
Diante dessa impossibilidade, Leão XIV quis realizar o desejo de seu predecessor, ressaltando ainda a contribuição de Francisco por meio da encíclica Laudato si’ à missão da Igreja em Acerra. “De fato, o grito da criação e dos pobres foi ouvido nesta comunidade de forma mais dramática, devido a uma concentração mortal de interesses obscuros e de indiferença ao bem comum, que envenenou o ambiente natural e social. É um grito que clama por conversão”, exclamou.
O Santo Padre afirmou ter ido até a região para “colher as lágrimas daqueles que perderam pessoas queridas, mortas pela poluição ambiental causada por pessoas e organizações inescrupulosas”, mas também “agradecer a quem respondeu ao mal com o bem, especialmente a uma Igreja que soube ousar na denúncia e na profecia, para reunir o povo na esperança”.
Deus transforma o luto em alegria
Em seguida, o Papa citou a passagem bíblica que narra a visão de Ezequiel no vale dos ossos secos (Ez 37, 1-10). A partir da experiência vivida, o profeta leva uma forte mensagem de ressurreição ao povo que vivia no exílio. O Pontífice sinalizou que, diante da morte — da terra e dos homens —, pode-se ter duas atitudes: a indiferença ou a responsabilidade.
“Vocês escolheram a responsabilidade e, com a ajuda de Deus, iniciaram um caminho de compromisso e de busca pela justiça”, apontou o Santo Padre. “Ele sabe que temos um coração que busca a vida e suspira pela eternidade, mas que facilmente as adia para um tempo indefinido e distante, para um mundo diferente e que ainda não existe”, acrescentou.
Da mesma forma, prosseguiu Leão XIV, a Igreja tem a missão de fazer ecoar a Palavra de Deus, que desafia a fé dos homens. Retomando a resposta de Ezequiel a Deus — “Tu o sabes, Senhor” —, o Papa complementou: “Tu sabes que podemos nos levantar, porque tu mesmo nos pega pela mão. Tu sabes que o nosso deserto pode florescer. Tu sabes transformar o luto em alegria”.
Vida nova que surge
O Pontífice indicou que tudo isso é muito concreto e a promessa de Deus já está se tornando realidade. Ele recordou novamente o Papa Francisco que, na Laudato si’, anunciou o surgimento silencioso da vida nova ao perguntar: “Será uma promessa permanente, apesar de tudo, que brota como uma obstinada resistência daquilo que é autêntico?” (n. 112).
“Sejam testemunhas desta ‘obstinada resistência’ que se transforma em renascimento, lá onde o Evangelho ilumina e transforma a vida”, exortou o Santo Padre. “O milagre não acontece de uma só vez”, pontuou, “é preciso confiar mais uma vez, escutar mais uma vez, crer mais uma vez”.
Assim como os ossos reanimados formaram o “exército” de Ezequiel após receberem o Espírito, Leão XIV pediu ao Espírito Santo que conceda a Acerra um “exército de paz” que se levanta e cura as feridas desta terra e das suas comunidades. “Não mais o fogo que destrói”, expressou, “mas o fogo que aviva e aquece, o fogo do Espírito que acende os corações e as mentes de milhares e milhares de homens e mulheres, de crianças e de idosos, e inspira cuidado, consolação, atenção, amor verdadeiro”.
A mudança começa pelo coração
Por fim, o Papa deixou alguns conselhos aos presentes: que deixem morrer o ressentimento, pratiquem por primeiro a justiça que pedem, testemunhem a vida, eduquem para o cuidado e, de forma especial, manifestem cotidianamente a autoridade do serviço, que se abaixa e se aproxima, que dá o primeiro passo e perdoa.
“De fato, deve ser desmantelada a cultura do privilégio, da arrogância, do não prestamento de contas, que tanto mal fez a esta terra, como a muitas outras regiões da Itália e do mundo. (…) A mudança do mundo, de fato, começa sempre pelo coração”, concluiu.




