Práticas como oração, jejum e caridade são chamadas a se tornar estilo de vida; católica dá testemunho de mortificações que se tornaram hábitos após a Quaresma
Julia Beck
Da Redação

Oração, jejum e caridade: práticas da Quaresma que podem ser vividas o ano todo /Fotos: Canva
Durante a Quaresma, os católicos viveram um tempo forte de preparação para a celebração da Páscoa, ápice da fé cristã. Agora, com a chegada da alegria da Ressurreição, surge um desafio concreto: como manter vivos, no cotidiano, os propósitos assumidos nesse período?
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Padre Cláudio Alves Moreira /Foto: Arquivo Pessoal
O coordenador arquidiocesano de pastoral da Arquidiocese de Vitória (ES), padre Cláudio Alves Moreira, afirma que o principal fruto esperado pela Igreja após esse caminho espiritual é a conversão contínua. “A Quaresma é um tempo de revisão de vida à luz da Palavra de Deus. Ela prepara os batizados para a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor e nos convida a renovar a fé e a confiança em Cristo, que nos comunica a vida eterna”, explica.
No entanto, a perseverança nem sempre é fácil. Segundo o sacerdote, a realidade atual, marcada pelo imediatismo, contribui para que muitos fiéis tenham dificuldade em manter os compromissos assumidos. “As pessoas se empolgam e assumem penitências muito exigentes. Com o retorno à rotina, esses propósitos acabam se dissolvendo. Ainda assim, os tempos fortes da Igreja nos recordam que sempre é possível recomeçar, pois Deus é misericordioso”, ressalta.
Da prática ao hábito
Transformar práticas quaresmais em hábitos permanentes é um caminho que exige constância e autenticidade. Padre Cláudio destaca que ser cristão vai além de cumprir ritos. “É preciso diminuir a distância entre o que pensamos e o que fazemos. O cristianismo nos impulsiona a sair de nós mesmos e a reconhecer Cristo no outro, sobretudo no pobre e sofredor”, afirma.
A experiência da mortificação, muitas vezes incompreendida no mundo atual, também deve permanecer após a Quaresma. “Privar-se de algumas facilidades nos ajuda a reconhecer nossos limites e a compreender a realidade de tantos irmãos que vivem na necessidade. Esses exercícios nos conduzem à conversão do coração”, completa.
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Testemunho de transformação

Irene Palmeira Maia /Foto: Arquivo Pessoal
Na prática, muitos fiéis experimentam pequenas — mas significativas — mudanças. A administradora, Irene Palmeira Maia, de 29 anos, assumiu durante a Quaresma o propósito de rezar o terço diariamente. Em meio à rotina intensa de trabalho e aos cuidados com a filha de 11 meses, ela encontrou desafios, mas também descobertas.
“Eu percebi que, quando algo é realmente importante, a gente encontra tempo. Assim como eu me organizava para treinar, comecei a entender que a oração também precisava ser inegociável”, conta. A prática ajudou Irene a reorganizar suas prioridades e a dar novo sentido ao cotidiano.
Outro fruto veio de uma experiência anterior: a decisão de se afastar das redes sociais durante a Quaresma. O que começou como um sacrifício se transformou em um hábito espiritual. “Eu substituí o tempo nas redes para ouvir homilias e ler conteúdos de fé. Hoje, ouvir a Palavra faz parte da minha rotina. Foi uma mudança que me aproximou muito de Deus”, testemunha.
Além das práticas concretas, Irene destaca a importância da confiança em Deus para perseverar. “Sozinhos, não conseguimos. É preciso pedir: ‘Senhor, aumenta a minha fé’. Quando sentimos que estamos nos afastando, é Ele quem nos sustenta e nos faz recomeçar”, afirma.
Fé que sustenta nas dificuldades
Para muitos, os frutos da Quaresma e da Páscoa se revelam especialmente nos momentos de dor. Irene também partilha a experiência de acompanhar um familiar próximo em um quadro de depressão. “A sensação de impotência é muito grande. Ver alguém que sempre foi alegre perder a vitalidade é muito difícil. Mas, com a fé e a misericórdia de Deus, o processo se torna mais suportável”, relata.
Segundo ela, o crescimento espiritual não acontece apenas nas graças alcançadas, mas também na espera e nas provações. “A doença não desapareceu, mas eu aprendi a caminhar com Jesus nesse sofrimento. Isso fortaleceu muito a minha fé”, conclui.
Mais do que um período isolado no calendário litúrgico, a Igreja indica que a Quaresma deixa um convite permanente: viver uma fé concreta, que se traduz em atitudes no dia a dia. Entre avanços e recomeços, o incentivo é para que os fiéis sigam buscando manter acesa a chama nesse tempo — certos de que a Ressurreição de Cristo continua sendo fonte de esperança e transformação contínua.




