SEMANA SANTA

Card. Pizzaballa: 'A Palavra de Deus ressoa mais do que qualquer silêncio'

Na Vigília Pascal na Basílica do Santo Sepulcro, o cardeal disse que “Jerusalém, uma cidade marcada pela memória da morte, mas torna-se o lugar onde a vida é proclamada”

Da redação, com Vatican News

Cardeal Pizzaballa Foto: Ammar Awad – Pool – Reuters

“A Páscoa não começa com uma proclamação de vitória, mas com a escuta de uma história: uma história que confronta a morte para alcançar a vida.”

Com estas palavras, o Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, recordou a passagem pelas trevas necessária para alcançar a Ressurreição, na homilia da Vigília Pascal que presidiu na manhã de sábado, 4 de abril, na Basílica do Santo Sepulcro.

Devido às restrições de segurança, apenas algumas pessoas participaram na liturgia, incluindo os frades franciscanos da Custódia da Terra Santa. Eles vivem no convento do Santo Sepulcro, chamado pelos cristãos locais de “Igreja da Ressurreição”.

Deus assume todas as dimensões da existência humana

“As portas ainda estão fechadas. O silêncio é quase absoluto, quebrado talvez pelo som distante do que a guerra continua a semear nesta terra santa e dilacerada”, começou o Cardeal Pizzaballa, acrescentando que neste mesmo lugar “a Palavra de Deus ressoa mais forte do que qualquer silêncio”.

O Cardeal explicou que a fé da comunidade cristã na Terra Santa é “uma fé frágil, que foi provada, talvez cansada… mas que permanece de pé”, não por sua própria força, mas “porque Alguém nos sustenta aqui”.

“Deus não escolheu uma rota de fuga”, disse ele, “mas decidiu entrar na condição humana em sua realidade mais profunda, assumindo todas as dimensões da existência humana, incluindo aquilo que, infelizmente, muitas vezes experimentamos hoje de forma violenta: a dor e a morte”.

“Quem removerá a pedra para nós?”

O Patriarca observou que a longa Liturgia da Palavra conduziu os fiéis, passo a passo, ao Evangelho de Mateus, onde o anjo do Senhor remove a pedra após um grande terremoto.

Este é o “coração de uma passagem que abala o mundo inteiro: uma pedra removida não pela força humana, mas pelo poder divino”, sublinhou.

“Neste momento”, continuou o Patriarca, “parece não haver ninguém que possa remover as pedras dos túmulos de sofrimento continuamente escavados pela guerra. Mas precisamente por isso, ouvimos com maior urgência a pergunta que as mulheres carregavam em seus corações: “Quem removerá a pedra para nós?”.

Esta é uma pergunta “no coração de toda busca por esperança quando parece não haver mais nada a fazer”.

O Cardeal insistiu que “hoje, esta pergunta é levantada em toda a Terra Santa e em todos os lugares do mundo marcados pela violência”.

“E a resposta”, continuou ele, “não é uma proclamação vazia, mas um fato concreto: a pedra foi removida. Não pela nossa própria força, mas pelo poder do amor de Deus, que é mais forte que a morte.”

Deus não espera o fim das nossas guerras para restaurar a vida.

A mesma pergunta ecoa no “clamor que se eleva de nossos lares, porque ao nosso redor as pedras foram recolocadas. E, no entanto, hoje estamos aqui: em um túmulo que foi aberto de uma vez por todas”.

O Cardeal enfatizou que a pedra foi removida enquanto ainda estava escuro, quando ninguém acreditava que isso fosse possível, e que esta é a primeira proclamação da Páscoa.

“Deus não espera o fim das nossas guerras para começar a restaurar a vida. Ele começa na escuridão. Ele começa no silêncio. Ele começa no túmulo que ainda está selado.”

“A Páscoa não é o resultado dos nossos esforços para alcançar a paz, por mais necessários que sejam”, mas sim “é o fundamento que torna possível todo esforço”, enfatizou o Cardeal.

“Se o túmulo está vazio, então nada foi verdadeiramente dito e feito. Nenhuma terra está para sempre em disputa, nenhuma ferida é para sempre incurável, nenhuma memória está para sempre cativa do ódio”, disse ele.

“Não porque seja fácil – sabemos o quão difícil é – mas porque o rumo da história mudou. Já não caminhamos para a morte: deste túmulo, a morte fica para trás. E mesmo quando a guerra parece dizer-nos o contrário, somos nós que vimos a pedra ser removida.”

No túmulo vazio, o mistério da vida renovado

Ao mesmo tempo, o Evangelho “parece remover outra pedra”, a do medo, pois a primeira mensagem da Páscoa é simples e desarmante: “Não tenham medo” (cf. Mt 28,5), destacou.

“Entrar neste túmulo vazio – mesmo sem outros peregrinos, sozinho, apesar da guerra – significa encontrar-se face a face com o mistério da vida que se renova”, afirmou.

“O túmulo vazio não é um vazio que apaga a história. Não nos diz que o sofrimento não existe ou que irá cessar. O corpo ressuscitado de Cristo, como nos lembram os Evangelhos, não está isento das marcas da Paixão.” Mas essas feridas não são sinais de derrota: são o selo de uma vida que venceu a morte, carregando-a dentro de si.”

“Este é o coração da Páscoa: Deus não apaga a nossa história; Ele a transfigura, trazendo-a à luz” e que “a própria realidade pode ser transformada pelo poder de Deus”, insistiu o Patriarca.

Onde havia uma pedra fundamental, agora há um limiar, disse o Cardeal Pizzaballa, acrescentando que “Jerusalém, uma cidade marcada pela memória da morte e, hoje, por tantas divisões, torna-se o lugar onde a vida é proclamada.”

A esperança é um passo a ser dado

Referindo-se à passagem do Evangelho “Ele vai adiante de vós para a Galileia” (Mt 28,7), o Cardeal explicou que, para a Terra Santa, a Galileia corresponde à “coragem de recomeçar, de acreditar que outro caminho é possível. E se o Ressuscitado ‘vai adiante’, então a esperança não é um sentimento: é um passo a ser dado.”

Os cristãos, portanto, são chamados a carregar “o sinal de um túmulo vazio: um sinal que não nega a história, mas a abre para a esperança”.

Em particular, ele os exortou a remover “a pedra da resignação, do ressentimento, da desconfiança”. Concluiu sua homilia com uma “mensagem pascal” do Santo Sepulcro: “Não fiquem parados diante das pedras do mundo, mas tornemo-nos — tanto quanto pudermos — ‘pedras vivas’, sinais de reconciliação, artífices da esperança, testemunhas de uma vida que a morte não pode mais extinguir”.

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