8 DE FEVEREIRO

De escrava a santa: o legado de Bakhita no combate ao tráfico humano

Conheça a história da santa sudanesa cujas cicatrizes se transformaram em missão, inspirando a luta global contra o tráfico de seres humanos em pleno século XXI

Thiago Coutinho
Da redação

Mulheres e crianças seguem sendo as maiores vítimas do tráfico humano / Foto: Alexander Krivitskiy por Unsplash

Em 2015, o saudoso Papa Francisco instituiu o Dia Internacional de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas em 8 de fevereiro, data da memória litúrgica de Santa Josefina Bakhita. Uma das figuras mais inspiradoras da história moderna, Bakhita transformou as cicatrizes da escravidão em um legado de esperança e liberdade.

Santa Josefina Bakhita viveu os horrores da escravidão na pele e, ainda assim, tornou-se um símbolo de perdão. Vítima de várias formas de abusos, a santa é exemplo de resiliência e combate a esta chaga que assola a humanidade. “Não só de resiliência, mas de fé; uma vítima que se tornou lutadora. Por isso ela é tão importante como luz no enfrentamento ao tráfico de pessoas”, afirma a Irmã Eurides Alves de Oliveira, socióloga e integrante da Comissão Episcopal Especial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Alguns aspectos deste crime, considerado hediondo, pouco mudaram na sociedade contemporânea. A invisibilidade continua sendo sua principal marca. “Hoje, o tráfico de pessoas atinge mais de 60 milhões de pessoas em todo o mundo e, ao mesmo tempo, é um crime que fica invisível no silêncio e, muitas vezes, é naturalizado”, lamenta a religiosa da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.

As faces do tráfico humano

A data lembra que este não é um problema do passado. As faces do tráfico recaem, majoritariamente, sobre os que vivem à margem. “[As faces] continuam sendo predominantemente femininas, porque as mulheres e meninas pobres, vulneráveis, negras e indígenas, continuam sendo as principais vítimas”, analisa a irmã.

O alcance do crime chega também ao trabalho forçado, onde os homens jovens são os mais atingidos. Além disso, o ambiente virtual tornou-se um terreno fértil para os criminosos. “O aliciamento online atinge indiscriminadamente as pessoas. É uma das principais formas que as redes de traficantes usam para seduzir a juventude”, ressalta Irmã Eurides.

Oração acompanhada da ação

Seguindo o conceito de que a oração deve vir acompanhada da ação, comunidades têm se organizado na prevenção e no acolhimento. “O Papa Francisco tinha razão ao dizer que deve ser feito um trabalho intenso de alerta. Podemos não erradicá-lo imediatamente, mas podemos inibir seu crescimento”, salienta a religiosa.

O Papa Leão XIV também se manifestou sobre a data com uma mensagem divulgada nesta sexta-feira, 6. “A instabilidade geopolítica e os conflitos armados criam um terreno fértil para os traficantes explorarem os mais vulneráveis, especialmente os deslocados, migrantes e refugiados”, apontou o Santo Padre. “Dentro deste paradigma falido, as mulheres e as crianças são as mais afetadas por este comércio hediondo”, acrescentou.

No Brasil, a Irmã Eurides explica que essa realidade é latente em quatro modalidades principais: exploração sexual de crianças, adolescentes e mulheres; trabalho escravo; mendicância e servidão doméstica.

O poder do perdão e a busca pela paz

Bakhita costumava dizer que, se encontrasse seus sequestradores, beijaria suas mãos, pois sem eles não teria conhecido a Cristo. Para a Irmã Eurides, essa espiritualidade é chave para a cura emocional das vítimas. “O processo humano e espiritual que ela viveu, inclusive expressando o perdão aos seus algozes, é uma inspiração profunda para a superação dos traumas”.

Questionada se a canonização de figuras como Bakhita chama atenção para a necessidade de políticas públicas a respeito, a irmã é taxativa: o chamado é para todos. “Não haverá paz no mundo enquanto houver um ser humano vendendo e explorando outro. O empenho da Igreja, da sociedade e do Estado para enfrentar esse drama é condição para uma paz real, que só será possível quando erradicarmos todas as formas de dominação”, finaliza.

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