Unidade dos Cristãos

Semana de Oração é oportunidade para curar feridas e fortalecer unidade

Conheça trajetória do ecumenismo na Igreja e compreenda aspectos fundamentais para o diálogo com outras denominações cristãs

Kelen Galvan
Da redação, com colaboração de Gabriel Fontana

Foto: Canva

“Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vocação de vocês os chamou a uma só esperança” (Efésios 4,4). O tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC) deste ano, celebrada aqui no Brasil a partir deste domingo, 17, resume a profundidade teológica da unidade cristã.

“A Semana de Oração não é apenas um momento pontual e isolado na vida de nossas comunidades cristãs. (…) É um convite e uma bela ocasião para que nossas comunidades cristãs se encontrem e, na unidade e diversidade gerada pelo Espírito Santo, se unam, reconhecendo que aquilo que nos une é bem maior do que aquilo que nos divide”, afirma o assessor da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-Religioso da CNBB, padre Marcus Barbosa Guimarães.

Padre Marcus Barbosa Guimarães / Foto: CNBB

Promovida mundialmente pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e pelo Conselho Mundial de Igrejas, a Semana de Oração pela Unidade Cristã acontece em períodos diferentes nos dois hemisférios: no Hemisfério Norte, ela é tradicionalmente celebrada entre 18 e 25 de janeiro; já nos países do Hemisfério Sul, onde está localizado o Brasil, é celebrada entre a Festa da Ascensão do Senhor e Pentecostes.

Padre Marcus destaca que a Semana de Oração é oportunidade, inclusive para “curar feridas” geradas por fechamentos e preconceitos, e fortalecer a semente de esperança rumo à unidade.

“A unidade é condição para a nossa missão evangelizadora. Como vamos anunciar Jesus Cristo estando divididos? Num mundo profundamente dividido pelo ódio, intolerâncias e violências, somos chamados, como discípulos de Jesus Cristo, a ser verdadeiras testemunhas de reconciliação e unidade. A divisão só enfraquece, nos desfigura, enfraquece e empobrece nossas comunidades”, indica.

Diálogo ecumênico na Igreja

O diálogo ecumênico consolidou-se na Igreja Católica a partir do decreto Unitatis redintegratio, do Concílio Vaticano II. O presidente da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso, Dom Rodolfo Weber, explica que esse documento trata especialmente sobre o relacionamento com os cristãos que têm o mesmo fundamento, Jesus Cristo, mas estão subdivididos em inúmeras igrejas. 

“Cristo manifestou muito claramente o desejo e a preocupação pela unidade. Então, quando algo está dividido, a tarefa de um católico não é aumentar a divisão, mas trabalhar pela unidade”, afirma o bispo.

Padre Marcus Guimarães destaca que é preciso compreender que o diálogo ecumênico é uma dimensão intrínseca da fé cristã. “Se sou cristão, sou ecumênico”. E destaca que é preciso revisitar sempre a Palavra de Deus e ouvir o desejo de Jesus: “para que todos sejam um” (Jo 17,21).

Fundamentos essenciais para o ecumenismo

Dom Rodolfo explica que um dos aspectos importantes no ecumenismo é compreender os fundamentos necessários para este processo. “Dialogar com alguém que crê diferente de mim, não significa ‘misturar tudo’ ou abrir mão das próprias convicções religiosas, nem ficar ‘naquela defesa’ de achar que é o único certo. Na medida em que eu tenho convicção daquilo que eu creio, das minhas capacidades, daquilo que eu abracei como fé, eu também me torno mais livre para dialogar com as outras pessoas”.

Dom Rodolfo Weber / Foto: Reprodução TVCN

Nesse sentido, o bispo afirma que os católicos não estão fazendo uma “disputa” no mundo. “Jesus não mandou os apóstolos para o mundo para serem ‘conquistadores’, mas para evangelizar o mundo”.

“Nós temos que distinguir entre levar o Evangelho a todos e obrigá-los a crer naquilo que eu anuncio. Este último eu não posso fazer. Anunciar o Evangelho a todos é a tarefa deixada por Jesus. A Igreja não pode abrir mão. Mesmo aquele que pensa diferente, que crê diferente, tem o direito de conhecer. Agora, a adesão, a opção de fé deve ser livre (…) Nós cremos que aquilo que Jesus propõe é o caminho de salvação, quando Ele mesmo diz: ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida’, e a Igreja é um instrumento para tornar visível esse caminho que é o próprio Cristo”, sublinha Dom Rodolfo.

Ele recordou a passagem bíblica (Jo 6, 50 – 69) na qual, em um momento de tensão entre Jesus e os seus seguidores, muitos deixaram de segui-lo. Jesus então pergunta aos apóstolos: “Vocês também querem ir embora?” e Pedro responde: “a quem iremos, Senhor?”. “O próprio Evangelho registra que Jesus mostra o caminho para os discípulos, mas não os obriga a permanecer”, explica.

Ele ressalta que na Encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco, consta que para o diálogo é preciso “buscar a verdade”. “E a verdade não é aquela que nós definimos, aquilo que eu acho que é verdadeiro, mas aquilo que foi revelado, aquilo que Jesus nos deixou. (…) Depois, isso precisa ser transformado em gestos, em forma visível”. 

Semana de Oração

Padre Marcus explica que a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos teve origem em diferentes iniciativas de oração e aproximação entre os cristãos ao longo da história.

“Em 1740, na Escócia, surgiu um movimento pentecostal ligado à América do Norte, cuja proposta de reavivamento incluía preces por e com todas as Igrejas. Décadas depois, outras iniciativas fortaleceram esse caminho, como a Oitava de Oração pela Unidade, incentivada pelo Papa Leão XIII no contexto de Pentecostes de 1894”, afirma.

A primeira celebração da Oitava da Unidade Cristã, proposta pelo reverendo Paul Wattson, aconteceu em 1908. Posteriormente, em 1926, o Movimento Fé e Ordem passou a publicar as “Sugestões para uma oitava de oração pela unidade cristã”, ampliando e difundindo a iniciativa.

Durante o Concílio Vaticano II, em 1964, foi publicado o Decreto sobre o Ecumenismo, que destacou a oração como “a alma do movimento ecumênico” e incentivou a vivência da Semana de Oração. Já a partir de 1966, a Comissão Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas e o então Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos passaram a preparar oficialmente, em conjunto, os materiais da celebração.

Neste ano, as orações e reflexões da Semana de Oração foram preparadas por um grupo ecumênico coordenado pelo Departamento de Relações Inter-religiosas da Igreja Apostólica Armênia. O material, disponível em português, reúne uma introdução ao tema, um roteiro para a celebração ecumênica, além de leituras breves e orações para cada dia da semana.

O conteúdo pode ser utilizado não apenas durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, mas também ao longo de todo o ano de 2026.

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