RETIRO NO VATICANO

Quaresma: vida espiritual depende de equilíbrio físico e contemplativo

Pregador dos Exercícios Espirituais no Vaticano refletiu, na manhã desta quarta-feira, 25, sobre quedas e crises vividas pelo ser humano

Da Redação, com Vatican News

A imagem ilustra uma mulher vestindo agasalho preto, de costas, sentada em um deque à beira de um lago enquanto olha as montanhas ao fundo.

Foto: Canva

A primeira conferência de Dom Erik Barden, pregador dos Exercícios Espirituais no Vaticano, nesta quarta-feira, 25, teve como tema “Mil cairão”. Nela, apresentou reflexões sobre as quedas e crises vividas pelo ser humano e as dimensões carnal e espiritual de sua existência.

No início de sua fala, o religioso afirmou que as quedas podem tornar os homens humildes quando estão inchados de orgulho, revelando o poder salvífico de Deus, e marcar um caminho pessoal de salvação. Contudo, não se pode ser ingênuo: nem todas as quedas terminam em júbilo, frisou.

“Há quedas que cheiram a inferno e arrastam o culpado por um rastro de destruição e ruína. Esse rastro é frequentemente amplo e longo, e acaba por atingir muitos inocentes”, declarou Dom Barden.

Crises e reflexões

O pregador indicou que a crise mais terrível vivida pela Igreja não foi provocada pela oposição do mundo, mas pela corrupção eclesiástica. “Nada prejudicou de modo mais trágico a Igreja, nada comprometeu mais o nosso testemunho do que a corrupção que cresceu dentro da própria casa”, expressou.

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Diante da corrupção, prosseguiu Dom Barden, surge a tentação de buscar uma raiz doente. “Esperamos encontrar sinais de alerta precoces que foram ignorados: algum erro de discernimento, um padrão inicial de desvio. Às vezes esses indícios existem, e temos razão em nos censurar por não tê-los reconhecido a tempo. Mas nem sempre os encontramos”, comentou.

Não é possível presumir que tenha havido, desde o início, uma hipocrisia estrutural. “Às vezes encontramos sinais de verdadeira inspiração, até mesmo vestígios de santidade”, ponderou o religioso, que então lançou a questão: como explicar a coexistência de desenvolvimentos bons e de desenvolvimentos deformados?

Duas dimensões

Dom Barden pontuou que, se a mentalidade secular se rende e designa monstros e vítimas diante de uma calamidade, a Igreja tem instrumentos mais refinados e eficazes. Ele recordou São Bernardo de Claraval e sua afirmação de que, onde os homens se empenham em esforços nobres, os ataques do inimigo são ferozes.

Ao refletir sobre o Salmo 90 – “Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita” –, o santo italiano faz uma distinção das natureza carnal e espiritual, com um combate mais intenso e vítimas mais numerosas nessa segunda dimensão.

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Contudo, mesmo levando a sério o reino demoníaco, São Bernardo não atribuía todas as doenças espirituais a seres malignos, considerando que homens e mulheres são responsáveis pelo uso que fazem de sua liberdade. “Se começamos a descer às profundezas de nossa natureza espiritual, outras profundezas também se desvelam”, sinalizou.

Equilíbrio entre o físico e o espiritual

Desta forma, o progresso na vida espiritual exige uma configuração do eu físico e afetivo em sintonia com a maturação contemplativa. “Caso contrário, há o risco de que a exposição espiritual busque válvulas de escape físicas ou afetivas, e que tais escapes sejam racionalizados como se fossem, de algum modo, eles próprios ‘espirituais’, de uma ordem superior aos delitos dos mortais comuns”, afirmou Dom Barden.

O religioso concluiu sua pregação salientando que a vida espiritual não é um acréscimo ao resto da existência, mas a sua alma. “Devemos aprender a estar igualmente à vontade em nossa natureza carnal e espiritual, para que Cristo, nosso Mestre, possa reinar pacificamente em ambas”, finalizou.

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