PIEDADE POPULAR

Pulinhos para São Longuinho: padre fala sobre devoção e superstição

Padre Celso Longo comenta força da religiosidade popular e como fiéis podem viver suas devoções de forma sadia e faz alerta sobre superstições

Gabriel Fontana
Da Redação

A foto ilustra uma estátua de São Longuinho, que porta uma lança na mão direita e tem o braço esquerdo estendido para o lado. Ao fundo, vê-se uma cúpula.

Imagem de São Longuinho esculpida por Bernini e exposta na Basílica de São Pedro, no Vaticano / Foto: Jean-Pol Grandmont via Wikimedia Commons

A história de São Longuinho é cercada de tradições e até mesmo algumas imprecisões. Apesar disso, uma convicção atravessa gerações: a de que, em troca de alguns pulinhos (normalmente três, mas é possível negociar), o santo ajuda a encontrar objetos que foram perdidos.

Não se sabe a origem exata dessa tradição, mas há duas versões contadas. A primeira diz que São Longuinho era um homem de baixa estatura e, nas festas de Roma, conseguia ver o que se passava por baixo das mesas. Assim, sempre encontrava pertences perdidos, retornando-os aos seus donos.

A outra versão remete à canonização do romano, em 999. Conta-se que os documentos para elevarem São Longuinho à honra dos altares ficaram perdidos por muitos anos. Diante disso, o então Papa Silvestre II pediu por sua intercessão para ajudá-lo a encontrar esses papéis. Pouco tempo depois, os documentos foram achados, e a canonização, concluída.

Intercessão dos santos

“São Longuinho, São Longuinho, se eu achar _________, dou três pulinhos”: a fórmula é tão popular que é possível encontrar até mesmo pessoas que não são católicas recitando-a. Em meio a tantas misturas culturais, é preciso atentar-se ao que a Igreja ensina para saber diferenciar o que é sagrado do que é profano.

Padre Celso Longo / Foto: Arquivo pessoal

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) ensina que os santos, “estando mais intimamente unidos com Cristo, (…) não cessam de interceder a nosso favor, diante do Pai” (CIC 956). Pároco da Paróquia Santo Antônio do Pinhal, da Diocese de Taubaté (SP), padre Celso Longo frisa que a intercessão dos santos é para que aqueles que ainda se encontram na terra vivam a santidade, correspondendo à graça de Deus.

“Os santos são ‘cristãos que deram certo’, são nossos amigos do céu, modelos de seguimento a Jesus e nossos intercessores”, expressa. A partir disso, surgiram (e ainda surgem) diversas devoções, que são um auxílio à vivência da fé como um complemento. Os fiéis, por sua vez, procuram formas de expressar essas devoções, constituindo a religiosidade popular.

Religiosidade popular

Segundo padre Celso, essa religiosidade surge da necessidade humana de “materializar” a fé, ou seja, torná-la concreta. É por isso que se vê fiéis tocando imagens, beijando medalhas, fazendo promessas, entre outros gestos.

Em seu discurso na abertura da 5ª Conferência Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), em Aparecida (SP), o então Papa Bento XVI reconheceu as tradições religiosas presentes no continente, definindo a religiosidade popular como “rica e profunda”.

O Pontífice frisou algumas características dessa religiosidade, como o amor a Cristo sofredor e ao Senhor presente na Eucaristia; a proximidade de Deus dos pobres e daqueles que sofrem; a devoção a Virgem Maria e aos santos; e o amor ao Papa e à Igreja universal.

“Tudo isto forma o grande mosaico da religiosidade popular que é o precioso tesouro da Igreja Católica na América Latina, e que ela deve proteger, promover e, naquilo que for necessário, também purificar”, sinalizou Bento XVI.

Centralidade de Cristo

Diante disso, padre Celso alerta os fiéis a terem cuidado para não misturar elementos e transformar a piedade popular em superstição, ou seja, “atribuir poderes mágicos a um gesto e, pior ainda, condicionar a ação da Graça à realização do ato exigido”. “Os três pulinhos de São Longuinho podem ser dispensados se forem feitos com esse sentido supersticioso”, expressa.

A religiosidade popular favorece a evangelização porque chega mais facilmente ao coração das pessoas. “A devoção popular tem uma carga afetiva muito expressiva e isso pode colaborar na assimilação dos valores do Evangelho, desde que seja purificada e retamente ordenada para esse fim”, salienta o sacerdote.

Ele enfatiza que as devoções particulares não substituem a fé e não podem tirar a centralidade de Cristo. “O alerta da Igreja é para que os católicos conheçam bem a sua fé”, pontua, “e se esse conhecimento da própria fé for uma realidade, o cuidado para não se desviar daquilo que é essencial e para sempre purificar a devoção popular dos desvios que pode haver nela também será uma realidade habitual para os católicos”.

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