Sacerdotes necessitam encontrar escuta e união entre fiéis e colegas de vocação
O sofrimento emocional nem sempre é visível e, muitas vezes, quem cuida de outras pessoas encontra dificuldade para falar da própria dor. No último episódio da série sobre a vivência sacerdotal, vamos mostrar porque reconhecer limites, buscar acompanhamento e aceitar ajuda são atitudes de fé e responsabilidade.
Reportagem de Liana Nunes
Imagens de Sanny Alves, Alberes Cruz e Ersomar Ribeiro
Padre Roger Luis perdeu recentemente um amigo de longa data, também sacerdote. A morte veio em meio a um sofrimento profundo vivido em silêncio.
Diante da ausência e de tudo que não pôde ser compreendido naquele momento, uma pergunta atravessou o coração. “Meu Deus, é o que que eu poderia ter feito que eu não fiz?”, perguntou o presidente da Canção Nova.
A perda deixou marcas, ficaram a saudade, a amizade construída ao longo de décadas e o esforço para encontrar em Deus consolo para aquilo que não tem resposta imediata.
Mas o padre Roger Luis também guarda a certeza de que esteve presente, ofereceu amizade e viveu momentos verdadeiros ao lado do irmão de ministério. “Eu poderia ter tido um tempo de qualidade maior e hoje eu tô mais atento a isso, tanto a mim quanto aos meus irmãos sacerdotes. Então, um padre mandou uma mensagem para mim hoje, eu não demoro para responder”, relatou ele.
Há 14 anos, a psicóloga clínica Thaissa Silva acompanha sacerdotes em terapia. Para ela é preciso romper com a ideia de que suportar tudo sozinho faz parte do ministério. “Existem conflitos que ele vai ter que superar e que muitas vezes não tem a ver com a imagem que ele projeta ter que ser para aquele ambiente. Então, às vezes, como eles vêm muito, na experiência que eu tenho, como eles vêm muito jovens, eles não têm ali uma identidade muito bem formada, eles não têm uma autoestima muito bem estabelecida e aí quando eles se permitem esse autoconhecimento, há uma construção melhor desse caminho vocacional”, ressaltou a psicóloga, Thaissa Silva.
A ciência mostra que o sofrimento emocional não fica restrito à mente. O corpo também pode manifestar o peso da sobrecarga por meio do cansaço, das alterações do sono e de outros sinais. Cuidar da vida espiritual não significa ignorar o que o corpo e as emoções estão comunicando. “Reconhecer essa fragilidade humana, fortalece, gera uma coragem e até fideliza melhor a sua vocação”, retomou a psicóloga.
Esse cuidado integral também passa pela direção espiritual. É ali, à luz da palavra de Deus e da oração, que o sacerdote encontra auxílio para discernir os movimentos do coração e compreender melhor o que está vivendo.
“A direção espiritual, ela não é acessória na vida do sacerdote. Por isso, o próprio direito canônico solicita que desde o seminário, os seminaristas já iniciem um processo de direção espiritual para irem se acostumando exatamente com essa dinâmica, porque a direção espiritual ela tem assim como função auxiliar no discernimento e no crescimento propriamente ali nas virtudes também, especialmente aquelas que são mais ligadas ao ministério”, afirmou o formador do Seminário de Brasília, padre Antônio Xavier Batista.
Mesmo quando as respostas não chegam, a esperança recorda que há sempre um caminho: deixar-se acolher, aceitar ajuda e permitir que Deus também cuide das feridas por meio das pessoas que permanecem ao nosso lado.
“Ter amizade sacerdotal, não ter receio também de fazer amizades com os leigos, não ter qualquer vergonha de ser fraco. Em que sentido? Diz: ‘Eu tô precisando de ajuda. Você pode me ajudar?’, falar a verdade. A amizade é fundamental para esse processo”, expressou padre Roger.
O tema é amplo, delicado e não se esgota em uma sequência de reportagens. Cada sacerdote carrega uma história que muitas vezes não aparece. Mas onde existe fraternidade, orientação espiritual e apoio profissional, também existe possibilidade de cura e recomeço. Por isso, cuidar de quem cuida é um compromisso de toda a Igreja.




