Franciscano que foi Custódio da Terra Santa por 9 anos foi escolhido pelo Papa Leão XIV para escrever as meditações da Via-Sacra no Coliseu
Da Redação, com Vatican News

Coliseu de Roma iluminado à noite /Foto: Canva
As reflexões e orações da Via-Sacra desta Sexta-feira Santa, 3, que acontece no Coliseu (em Roma), foram inspiradas na realidade atual, em particular no sofrimento dos cristãos no Oriente Médio devido à guerra. A afirmação é do frei Francesco Patton, da Ordem dos Frades Menores, que foi Custódio da Terra Santa por 9 anos – de 20 de maio de 2016 a 24 de junho – deste ano e quem escreveu, a pedido do Papa Leão XIV, as meditações deste momento de reflexão sobre a Paixão de Cristo.
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Em entrevista aos meios de comunicação do Vaticano, o sacerdote franciscano explicou também como a escolha do Pontífice coincidiu com o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis.
Via-Sacra
Frei Patton destacou que o Papa Leão XIV, desde sua eleição, tem insistido constantemente no apelo pela paz, manifestando proximidade não apenas com a Terra Santa, mas com todos os povos atingidos por conflitos. Ele recordou que essa posição segue a tradição da Igreja há mais de um século, desde quando Bento XV, em 1917, classificou a guerra como um “massacre inútil” e defendeu uma paz construída por meio de negociações, respeito ao direito internacional e desarmamento. O religioso reforça que essa postura permanece atual no pontificado de Leão XIV, que frequentemente, ao final do Angelus e das audiências gerais, renova o apelo pelo fim das guerras — hoje cerca de 60 no mundo — e, recentemente, utilizou palavras firmes ao condenar a violência praticada em nome de Deus, afirmando que Ele não escuta a oração de quem promove a guerra.
O convite para escrever as meditações da Via-Sacra no Coliseu, contou o franciscano, foi uma “surpresa muito grande”. “Fui contatado pela Secretaria de Estado, que me informou que o Santo Padre, por ocasião do oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, lhes havia dado a orientação de me pedir que preparasse as meditações. Isso me deixou intimidado e, ao mesmo tempo, honrado”, disse.
O sacerdote explicou que se inspirou sobretudo no Evangelho de João e nos escritos de São Francisco para compor as reflexões, também marcadas por situações concretas da atualidade, nas quais reconhece personagens da Via-Sacra, como mulheres que refletem o sofrimento de Maria e voluntários que recordam o Cireneu. Ele destacou que as menções não buscam julgar pessoas, mas provocar reflexão e conversão, ressaltando uma mensagem essencialmente religiosa: manifestar a proximidade de Cristo com cada ser humano. Segundo Patton, a proposta é ajudar os fiéis a seguirem os passos de Jesus e mostrar, inclusive aos não crentes, que n’Ele é possível encontrar sentido, esperança e o horizonte da Ressurreição e da vida eterna.
Mandato como Custódio
Ao comentar a decisão de permanecer como frade na Terra Santa, após seu mandato de 9 anos como Custódio da Terra Santa, Frei Francesco Patton afirmou que a escolha de viver no Monte Nebo foi tomada na busca de retomar a vida simples de frade, com mais dedicação à oração, aos estudos e ao serviço aos peregrinos. Ele destacou também o significado espiritual e histórico do local, ligado à figura de Moisés e à tradição cristã, além de ser um espaço de convivência entre cristãos e muçulmanos, marcado por um ambiente de fé, paz e acolhimento.
Cristãos na Terra Santa: vocação em meio às dificuldades
Apesar das dificuldades e da migração crescente, o religioso frisou que os cristãos da Terra Santa continuam a viver sua fé como vocação e missão, à semelhança dos primeiros discípulos. Mesmo sendo minoria, o franciscano indicou que os cristãos são chamados a testemunhar o amor e a misericórdia de Deus, acolhendo a todos sem distinção e revelando a dignidade de cada pessoa, inclusive em contextos de perseguição.
Religião e conflitos: um desafio global
O frei destacou que o uso da religião em conflitos não é exclusivo do Oriente Médio, mas uma tendência global intensificada após a queda das ideologias seculares. Segundo ele, grupos fundamentalistas — presentes em diferentes tradições religiosas — instrumentalizam a fé para justificar a violência. Nesse cenário, ele ressaltou que a Igreja tem o papel de reafirmar os princípios do Evangelho, promover a liberdade religiosa e incentivar a cooperação entre religiões para deslegitimar o uso da fé como justificativa para conflitos.
Caminhos possíveis para a paz na Terra Santa
Sobre a possibilidade de paz, Patton destacou que ela virá, embora ainda exija tempo, mudanças geracionais, políticas e culturais. Ele apontou a falta de lideranças com visão como um desafio global, mas destacou sinais de esperança na sociedade civil e iniciativas de diálogo e educação para a paz, que podem contribuir para a construção de uma convivência mais fraterna.




