Padre explica como o Sistema Preventivo de Dom Bosco e seu pilar da amorevolezza se tornam ferramentas essenciais para humanizar as redes sociais
Thiago Coutinho
Da redação

Dom Bosco e seus ensinamentos podem ser uma luz para os jovens contemporâneos / Foto: Reprodução Rede Salesiana
“A educação é obra do coração”. Essa era a síntese do ponto de vista de Dom Bosco sobre edificar e educar os jovens. E, neste 31 de janeiro, a Igreja celebra a memória litúrgica do santo, também fundador da Família Salesiana, que se dedicou à juventude com apreço especial àqueles que viviam à margem da sociedade.
Há mais de um século, os ensinamentos de Dom Bosco junto aos jovens sempre foram focados na espiritualidade, na vida simples cotidiana e na alegria do encontro. A juventude contemporânea, no entanto, é bem diferente daquela dos tempos em que o santo propalava seus ensinamentos. Seria possível os jovens de hoje absorverem essa atmosfera criada pelo salesiano?
“Não apenas há espaço, como há uma necessidade urgente”, afirma padre Paulo Manoel de Souza Profilo, sdb, Diretor do Instituto Teológico Pio XI de São Paulo. “Dom Bosco nasceu em um contexto de profundas transformações sociais: industrialização acelerada, migração do campo para a cidade, desagregação familiar, pobreza juvenil, perda de referências religiosas. Ou seja, ele também viveu uma ‘mudança de época’. Sua genialidade consistiu em não combater o tempo em que vivia, mas em compreendê-lo e evangelizá-lo por dentro. Dom Bosco partia sempre da realidade concreta do jovem. Observava sua linguagem, seus interesses, seus sofrimentos, suas aspirações. Por isso, utilizou os meios culturais do seu tempo: o teatro popular, a música, as oficinas profissionais, os passeios, os jogos, a imprensa juvenil”.
Dom Bosco também fez uso do que dispunha à época para atrair os jovens e mudar a realidade deles para melhor. Usou, por exemplo, métodos tipográficos e folhetos para chegar à juventude que vivia sem esperança. E, muito provavelmente, não faria diferente no mundo contemporâneo se ainda estivesse por aqui. “Ele certamente compreenderia o ambiente digital como um novo ‘pátio’. Não o demonizaria, mas perguntaria: como evangelizar aí dentro? Como tornar esse espaço mais humano, mais fraterno, mais luminoso? A atualidade de Dom Bosco não está nas formas externas do século XIX, mas em sua postura espiritual: presença próxima, escuta atenta, confiança radical no jovem e paixão por conduzi-lo a Cristo”, enfatiza padre Paulo.
Amorevolezza
O Sistema Preventivo criado por Dom Bosco tem como um dos seus pilares a Amorevolezza, que tem o sentido de bondade, amorosidade, afeto profundo e ternura. Como aplicar essa pedagogia da bondade de Dom Bosco no contexto atual, criando ambientes educativos que acolham o erro como parte do aprendizado, em vez de excluí-lo?
“A Amorevolezza não é um conceito abstrato: ela era visivelmente experimentada pelos jovens de Valdocco”, afirma o padre salesiano. “Ele mesmo dizia que não bastava amar os jovens: era necessário que eles se sentissem amados. Essa postura produzia um ambiente educativo em que o jovem não tinha medo de errar, porque sabia que não seria descartado. Quando precisava corrigir, Dom Bosco o fazia em particular, com delicadeza, nunca humilhando”.
Dom Bosco, segundo padre Paulo, nunca quis humilhar ou apenas punir. Exatamente o oposto do que muitas vezes acontece no ambiente virtual. “Seu objetivo não era punir, mas salvar a relação e proteger o coração do jovem. Num mundo digital em que o erro é exposto, ridicularizado e punido publicamente, a pedagogia de Dom Bosco oferece um caminho profundamente contracultural: educar pela confiança, recuperar pela misericórdia, formar pela presença constante. Criar espaços — presenciais e virtuais — onde o jovem possa ser imperfeito sem ser rejeitado é, talvez, uma das contribuições mais urgentes do carisma salesiano hoje”.
Alegria sempre
Uma das máximas de Dom Bosco era que a santidade consiste em estar sempre alegre. É preciso transpor esse sentimento para um ambiente em que jovens enfrentam altos índices de ansiedade e depressão, mostrando que a fé não é um fardo de regras, mas uma fonte de entusiasmo e propósito de vida.
“A alegria, para Dom Bosco, nunca foi superficialidade”, contextualiza o responsável pela Inspetoria Salesiana. “Ele conhecia profundamente o sofrimento juvenil: jovens abandonados, explorados, sem família, sem futuro, muitos deles emocionalmente feridos. Justamente por isso, acreditava que a alegria era um remédio espiritual e humano”, reflete o sacerdote.
Para Dom Bosco, a alegria vertia de três fontes interligadas: amizade com Deus, consciência tranquila e vida comunitária. “Dom Bosco dizia aos jovens que a santidade consistia em estar alegre não porque ignorava a dor, mas porque sabia que um coração reconciliado com Deus encontra uma força interior que sustenta mesmo nas tribulações”, reforça o sacerdote salesiano.
E, neste contexto envolvendo solidão e vazio existencial, a mensagem de Dom Bosco se torna um alívio. “A fé cristã não é um peso a mais, mas uma possibilidade de reorganizar a vida interior, de encontrar sentido, de perceber que a própria existência é querida e acompanhada por Deus. Dom Bosco não oferecia aos jovens um discurso moralista; oferecia uma experiência de vida plena. Ele mostrava, com sua própria presença, que é possível viver com leveza, profundidade e esperança ao mesmo tempo. É isso que continua a tocar o coração juvenil ainda hoje”, finaliza.
A Canção Nova, para quem não sabe, é membro da Família Salesiana há 17 anos. Em 21 de janeiro de 2009, o Conselho Geral dos Salesianos em Roma admitiu a Comunidade Canção Nova — uma satisfação imensa para o Monsenhor Jonas Abib, que também foi um sacerdote de formação salesiana.




