19 de novembro

Dia Mundial dos Pobres é convite para ações concretas, afirma bispo

Assessor da Comissão para a Ação Sociotransformadora da CNBB afirma que, desde a instituição da data, em 2016, católicos vêm se conscientizando sobre o cuidado da Igreja com os pobres

Julia Beck
Da redação

Foto: Hermes Rivera via Unsplash

Instituído pelo Papa Francisco em 2016 e celebrado anualmente desde 2017, o Dia Mundial dos Pobres será celebrado neste domingo, 19. No Brasil, em um balanço destas cinco edições já vividas – na eminência da celebração da sexta edição, o assessor da Comissão para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), frei Olávio Dotto, afirma que é nítida uma maior conscientização dos fiéis sobre esse cuidado da Igreja com os pobres.

O presidente da Comissão, Dom José Valdeci, frisa que é um compromisso da Igreja viver a caridade, e essa caridade gera um compromisso com os excluídos, pela vida. 

Segundo o frei, a atenção da Igreja com os mais vulneráveis está presente em organizações, pastorais e missões. Dotto comenta que muitas comunidades pedem por subsídios sobre o tema e buscam compreender o que a Igreja deseja para a data.

“Há uma consciência, cada vez mais crescente”, continua o frei, no entanto, em termos de Igreja, “seis, sete anos, é algo ‘recente’, um caminho de conscientização que precisa ser feito ano após ano”.

Jornada

Desde a primeira edição do Dia Mundial dos Pobres, frei Dotto conta que, no Brasil, foi convencionado chamá-lo de jornada. A perspectiva adotada parte do desejo de que o Dia Mundial do Pobre não se resuma apenas a um evento. A ideia é que seja um caminho de conscientização e de ações concretas. 

“Para nós, a Jornada Mundial dos Pobres – que foi iniciada no dia 12 e se encerra neste domingo, 19 – não deve se encerrar no dia 19, mas sim ser um caminho de empenho na realização de algo concreto. Pode-se fazer uma roda de conversa, um almoço, um café da manhã, uma celebração junto aos pobres”, comentou o frei.

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O bispo complementa: “Não é só um dia. Há toda uma preparação, com motivações para momentos de oração e reflexão”. Dom Valdeci sublinha também que toda a Igreja no Brasil é convidada a se voltar para todos que necessitam de ajuda. “É uma jornada porque a nossa missão não é de um dia, mas sim permanente, de atenção e ajuda aos que sofrem”.

Além disso, Dotto evidencia a importância de ser uma jornada de comprometimento da Igreja com ações pontuais. A intenção é que cada comunidade e paróquia busque formas de superar a pobreza no seu município.

O presidente da Comissão para a Ação Sociotransformadora da CNBB afirma que estar solidário com os pobres é colocar-se em uma atitude de promover a vida, a dignidade, a família. “Somos convidados a lutar como Igreja para que haja uma educação de qualidade, para que os jovens encontrem trabalho, para que a saúde seja almejada por todos”, exortou.

Olhar para os pobres

O tema proposto pelo Papa Francisco para a edição deste ano é: “Nunca afastes de algum pobre o teu olhar”, extraído do Capítulo 4, 7 do Livro de Tobias. Sobre ele, frei Dotto acrescentou que o subsídio elaborado pela Comissão para a Ação Sociotransformadora da CNBB para a data ganhou o título: “Olhe para mim”.

Dom Valdeci indica que o desejo do Santo Padre é despertar em todos a vivência de um caminhar sem indiferença. “Esta passagem que estamos refletindo nos faz lembrar a parábola do Bom Samaritano. Ela nos impulsiona a descobrir a importância de estarmos ao lado daqueles que necessitam de nossa ajuda. Eu diria que a palavra-chave para isso é o cuidado”.

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Dotto alerta: “Não é só a violência física e a agressão que matam o ser humano, mas o olhar de indiferença, o ser indiferente”. O religioso frisou que o pobre já está excluído da sociedade por não conseguir ter acesso a bens, a uma vida digna, à educação, saúde. “Ser indiferente com essas pessoas, com essas situações, é ser intolerante, e isso também mata. Mata no sentido de que a pessoa se sente excluída pela segunda vez. Além de não ter acesso aos bens, à dignidade plena, ela ainda sofre preconceito”.

O convite do Papa, prossegue o frei, é para que ninguém desvie o olhar de nenhum pobre. “É um convite para cada um de nós, para olharmos para o ser humano e contemplá-lo, sentir que ali está o rosto, está a presença do próprio Deus. Nós nunca podemos desviar o olhar de Deus. Ele não desvia o olhar da gente. E nós não podemos desviar o olhar do Deus”.

Guerra e pobreza

Em mensagem para a data, o Papa destacou, entre outros temas, a questão da pobreza e as guerras, além do tratamento desumano dado a muitos trabalhadores. Sobre este primeiro, frei Dotto reforçou que o mundo vive uma terceira Guerra Mundial em pedaços.

“São muitas as nações envolvidas. No próprio texto, o Santo Padre diz que, dentro desse fenômeno das guerras, das violências que aumentam, a atenção aos mais pobres está esquecida. Gastam-se bilhões e bilhões em armamentos, e se deixa de lado os pobres”, refletiu.

Além disso, o assessor da CNBB chama atenção para a fala de Francisco, que condena o fato da guerra tirar a perspectiva e o sonho de futuro das crianças e adolescentes. “Eles são privados de um futuro digno e muitas vidas são ceifadas”, complementa.

A guerra traz devastação e é fenômeno contraditório, pontua o frei. “Investe-se bilhões em armamentos e, ao mesmo tempo, a guerra gera pobreza. Destrói-se tudo, situações de emprego, a agricultura… destrói-se tudo, inclusive a perspectiva de futuro. Então, com a guerra, são gastos bilhões, e se gera a pobreza”, reafirma.

Dignidade dos trabalhadores

Ao abordar a realidade do tratamento desumano dado a muitos trabalhadores, Dotto retoma que a dignidade da pessoa está no centro da Doutrina Social da Igreja, do Ensino Social. De acordo com ele, toda pessoa deve crescer e ter a sua vida realizada, todo ser humano foi criado para ser feliz, ter uma vida digna. Então, esse aspecto da dignidade não deve ser esquecido jamais.

“Jesus Cristo, toda vez que enxergava uma situação onde existia um rosto desfigurado, alguém jogado à margem do caminho, sentia compaixão”, frisou. A privação dos direitos e garantias trabalhistas gera um tratamento desumano, opina o religioso. “É quase que um regime de uma semiescravidão. Isso fere a dignidade, aquilo que está nos documentos da Igreja: que todo trabalhador merece ter os seus direitos respeitados, a sua dignidade respeitada”.

Toda vez que os direitos e a dignidade forem violados, o frei encoraja os católicos a serem movidos pelas mesmas atitudes de Jesus: sentir compaixão e pensar no que pode ser feito. “A Jornada Mundial quer nos levar a termos ações de assistência imediata, (…) a exercer a nossa incidência, para que a garantia dos direitos e da dignidade do ser humano seja respeitada”, concluiu.

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