Data é inspirada no gesto histórico de 2019 que marcou a assinatura do documento que convida a redescobrir a fraternidade para a promoção de justiça e paz
Thiago Coutinho
Da redação

Dia Internacional da Fraternidade Humana é celebrado anualmente em 4 de fevereiro / Foto: Cytonn Photography por Unsplash
Em consonância com a data estipulada pela ONU em 4 de fevereiro de 2019, a Igreja recorda a celebração do Dia Internacional da Fraternidade Humana. Nesta data, há sete anos, em um gesto histórico, o finado Papa Francisco e o Grão-Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram o Documento sobre a Fraternidade Humana, em prol da paz mundial e da convivência comum. A data celebra o respeito mútuo, o princípio da tolerância e a cultura que une a humanidade.
Em um cenário global marcado por conflitos e polarizações, o conceito de fraternidade fica em evidência, necessitando deixar de ser um ideal abstrato para se tornar uma ferramenta de resolução de tensões. “A fraternidade para nós, cristãos católicos, é uma questão de muito valor por dois grandes motivos”, explica o Padre Joelson da Cruz Nazareth, vigário da Paróquia São Sebastião e Santa Cecília, no Rio de Janeiro. “Primeiro pela criação em si. Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança. Além disso, quando o Verbo se encarna e habita entre nós, traz um realce magnífico da dignidade humana”.
O princípio de irmandade faz respeitar o próximo. “A fraternidade pela pessoa humana nos faz gestar frutos em nossa fé”, pondera o vigário. “Consequentemente, convivendo com Jesus e aprendendo com o Mestre, podemos viver com mais profundidade essa fraternidade de forma concreta. Nesse respeito mútuo, o diálogo nos permite conhecer o ponto de vista do outro, do diferente”, afirma o sacerdote.
Convivendo com Jesus e aprendendo com o Mestre, podemos viver com mais profundidade essa fraternidade de forma concreta.
Padre Joelson da Cruz Nazareth
Um exemplo deste conceito, para o religioso, pode ser visto em Santa Teresa de Calcutá — canonizada pelo Papa Francisco em 2016. “Ela ensinou muito com suas atitudes, cuidando de tantas pessoas que não eram católicas, mas que estavam profundamente necessitadas de caridade. A fraternidade é uma consequência do relacionamento que constituímos com o mestre Jesus Cristo”, observa.
As mensagens de Leão XIV
Desde que assumiu a Cátedra de Pedro, Leão XIV tem reforçado em suas mensagens a importância da promoção da unidade e da paz. “Leão XIV traz uma ênfase especial na capacidade de sair de si ao encontro do outro, na escuta para compreender a realidade, muitas vezes dramática, do próximo, e tentar somar com o outro aquilo que seja possível”, revela o vigário. “Essa escuta dos irmãos é fundamental para que o diálogo possa ser construído”, pondera.
Fraternidade não é tolerância
Muitas vezes, a fraternidade é confundida com a mera tolerância. No documento assinado em 2019, “ser irmão” tem um significado muito mais profundo do que simplesmente “aceitar a existência” do outro. Padre Joelson cita o exemplo de Jesus, que ia ao encontro justamente daqueles que eram rejeitados pelo mundo.
“Jesus ia ao encontro de todas as pessoas: pagãos, judeus, marginalizados, doentes e leprosos. Por isso, a fraternidade é um serviço oriundo da fé, independente daquilo que o outro crê. Ser fraterno não significa necessariamente que você vá concordar com a outra pessoa, mas que terá a capacidade de conviver com o diferente”, analisa.
Ser fraterno não significa necessariamente que você vá concordar com a outra pessoa, mas que terá a capacidade de conviver com o diferente
Padre Joelson da Cruz Nazareth
A fraternidade no dia a dia
O mundo contemporâneo nem sempre é um cenário onde a fraternidade é sentida com facilidade. Como praticá-la no cotidiano? Padre Joelson aponta o caminho: “Acredito que o primeiro passo para nós, católicos, é a oração. A oração constrói nossa intimidade com Jesus e, nesse convívio, vamos gradativamente sendo influenciados por Ele. Isso faz com que o nosso coração seja pacífico, moldado segundo a vontade do Senhor”.
Essa influência permite um “filtro” mais apurado para entender o outro sem julgamentos. “Enxergar com os olhos da alma é colocar Jesus Cristo em nossos pensamentos e sentimentos. Esse é o primeiro passo para que um possível diálogo ou perdão possa ser construído em ambientes de hostilidade ou violência”, assegura o padre. Este olhar, porém, não deve ser ingênuo: “É preciso ter sabedoria, ciência e fortaleza para escolher as palavras adequadas e saber construir a paz”.
No pontificado de Leão XIV, a exemplo de seus antecessores, a exortação ao diálogo e à unidade, à promoção da paz, e não da divisão, tem sido latente. Colocar em prática esse convite pode ser o grande diferencial para as gerações futuras. “Encontrar alguém que tenha essa empatia conosco é acolhedor”, revela o sacerdote. “Precisamos aprender a ter esse olhar espiritual, enxergar além das aparências e perceber que, às vezes, atrás de um sorriso, existe um coração que sofre. Ter essa empatia faz parte da vida cristã, e precisamos capacitar os mais jovens para que também possam exercer esse fruto em nossa sociedade”, finaliza.




