TRÁFICO HUMANO

Coordenada da Rede Talitha Kum: 'A paz começa com dignidade'

A coordenadora internacional da Talitha Kum, Irmã Abby Avelino, descreve os desafios e prioridades atuais na luta contra o tráfico de seres humanos

Da redação, com Vatican News

A coordenadora internacional da Talitha Kum, Irmã Abby Avelino / Foto: Reprodução Youtube

O tráfico de seres humanos continua sendo uma das formas de violência mais disseminadas e menos visíveis no mundo atual. Afeta milhões de pessoas em todos os continentes e opera quase silenciosamente, adaptando-se às novas tecnologias, rotas migratórias e desigualdades globais. A cada ano, o Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas busca trazer esse crime oculto à luz.

Uma semana de trabalho

De 4 a 8 de fevereiro, Roma sediou uma série de encontros, orações e iniciativas públicas em comemoração ao 12º Dia Mundial. Promovida por uma ampla rede de organizações comprometidas com o combate ao tráfico de seres humanos — incluindo a Talitha Kum — a semana se concentra na conscientização, prevenção e ações concretas, sob o tema “A paz começa com dignidade”.

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Acompanhando sobreviventes

Entre aqueles que se dedicam diariamente a esse trabalho está a Irmã Abby Avelino, Irmã Maryknoll e Coordenadora Internacional da Talitha Kum, a rede global de Irmãs Católicas que atuam no combate ao tráfico de pessoas. Em entrevista ao Vatican News, ela reflete sobre como o tráfico está mudando, por que a prevenção é cada vez mais urgente e como a dignidade deve permanecer no centro das respostas à migração e à exploração.

A Irmã Abby nasceu nas Filipinas e cresceu em grande parte nos Estados Unidos, após a emigração de sua família. “Sou filipina de coração”, diz ela, “mas minha vida foi moldada por viver entre culturas”. Seu trabalho missionário no Japão marcou o início de seu envolvimento em esforços contra o tráfico de pessoas, particularmente por meio do acompanhamento de migrantes e refugiados, muitos deles mulheres e crianças. “Ao ouvir suas experiências”, explica ela, “comecei a perceber o quão intimamente a migração e o tráfico de pessoas estão ligados”. Essa experiência a levou à Talitha Kum, uma rede agora presente em mais de cem países. Embora a conscientização sobre o tráfico de pessoas tenha aumentado, ela observa que o problema em si continua a crescer. “Hoje, mais pessoas reconhecem o tráfico de pessoas como uma violação da dignidade humana”, afirma. “Mas muitos casos ainda estão ocultos, e os números que vemos não refletem a realidade completa.”

Enganados para enganar

Os métodos de tráfico, explica ela, mudaram significativamente. “Não são mais apenas os mais pobres ou menos instruídos que são alvos”, diz a Irmã Abby. “Hoje, os traficantes visam cada vez mais jovens com boa formação e que falam vários idiomas.” O recrutamento geralmente ocorre online, por meio de ofertas que parecem legítimas e profissionais. “Muitas vítimas acreditam que estão se candidatando a empregos reais”, explica ela. “Elas veem contratos, vistos e requisitos claros.” Segundo a experiência de Talitha Kum, o recrutamento é particularmente intenso em partes da África e da Ásia, incluindo as Filipinas. Algumas vítimas são traficadas para operações de golpes online forçados, muitas vezes em áreas de fronteira entre Mianmar, Camboja e Tailândia.

“Dizem a elas que vão trabalhar na Tailândia”, diz ela, “mas acabam presas em complexos. Uma vez lá, não conseguem sair.” As vítimas são forçadas a trabalhar para pagar o custo do recrutamento e do transporte. “Elas são treinadas, recebem tarefas e são pressionadas a apresentar resultados. Isso é crime organizado e uma forma de escravidão moderna.”

Prevenção

O resgate continua difícil, principalmente em regiões afetadas por conflitos. “O acesso a algumas áreas é extremamente limitado”, explica a Irmã Abby. “Muitas vezes, a assistência só é possível quando a pessoa chega à fronteira.” A Talitha Kum trabalha com colaboradores presentes nessas fronteiras, prontos para apoiar aqueles que conseguem escapar. Por isso, a prevenção é fundamental para o trabalho da rede. “Queremos impedir o tráfico de pessoas antes que ele aconteça”, afirma a Irmã Abby. Educação e conscientização são essenciais, principalmente no que diz respeito à migração segura. “Migrar é um direito humano, mas as pessoas precisam conhecer seus direitos e entender os riscos envolvidos.”

Ela se lembra de um caso em que um padre que conhece pediu que ela verificasse uma oferta de emprego para um familiar que estava se preparando para migrar. “Por meio da nossa rede, descobrimos que a empresa não existia”, conta. “Essa simples verificação evitou uma situação potencialmente perigosa.”

Segundo a Irmã Abby, muitas vítimas não reconhecem que estão sendo traficadas. “Frequentemente, os traficantes são pessoas em quem elas confiam”, explica. “Algumas sobreviventes nos disseram que jamais imaginariam que um parente ou conhecido as exploraria.” Em algumas situações, as vítimas são coagidas a recrutar outras pessoas como condição para sua própria sobrevivência.

Trauma duradouro

O impacto nas sobreviventes é duradouro. “O tráfico causa um trauma profundo”, afirma. “Afeta o senso de dignidade e segurança da pessoa.” A recuperação exige tempo, acompanhamento e acesso a um trabalho estável. “Sem estabilidade econômica, as pessoas permanecem vulneráveis.” Apesar disso, algumas sobreviventes optam por falar publicamente sobre suas experiências. “Elas querem evitar que outras pessoas passem pelo mesmo sofrimento”, explica a Irmã Abby. “Seus testemunhos são importantes, especialmente para os jovens.” Ela se lembra de ter conhecido sobreviventes que inicialmente não se identificaram como vítimas de tráfico. “Muitas pessoas dizem: ‘Eu não sabia que isso era tráfico’”, explica. “Só mais tarde, quando começam a compreender os seus direitos e o que lhes foi tirado, é que se apercebem do que aconteceu.” Esta falta de consciência, acrescenta, torna a prevenção ainda mais urgente.

Por esta razão, a Talitha Kum dá grande ênfase à educação a todos os níveis. “As nossas Irmãs trabalham em escolas, paróquias e comunidades”, diz a Irmã Abby. “Começamos mesmo com as crianças, porque a consciencialização tem de começar cedo.” Os jovens, observa, são simultaneamente muito vulneráveis ​​e poderosos agentes de mudança. “Quando os jovens compreendem o que se passa, ajudam a proteger-se uns aos outros.”

Uma questão humana, não política

Refletindo sobre os debates globais atuais em torno da migração e das leis de migração cada vez mais rigorosas, a Irmã Abby sublinha a necessidade de manter a pessoa humana no centro. “A migração é muitas vezes tratada apenas como uma questão política”, afirma. “Mas é fundamentalmente uma questão humana.” Refere-se à experiência de migração da sua própria família e ao medo sentido por muitos migrantes hoje em dia. “As políticas que se baseiam na exclusão ou na punição aumentam a vulnerabilidade”, observa. “Não abordam as causas da migração ou do tráfico de seres humanos.”

A paz começa com dignidade

Para a Irmã Abby, a mensagem do Dia Mundial da Paz deste ano é clara. “A paz começa com dignidade”, afirma. “Se a dignidade não for protegida, a paz não pode ser sustentada.” Ela enfatiza que o tráfico de pessoas não pode ser dissociado de questões globais mais amplas. A pobreza, os desastres relacionados ao clima, os conflitos e a migração forçada aumentam a vulnerabilidade. “As pessoas não abandonam suas casas levianamente”, diz ela. “Quando são forçadas a se deslocar, os traficantes estão prontos para se aproveitar.”

O trabalho da Talitha Kum, portanto, vai além do resgate e da conscientização, abrangendo também a defesa e a colaboração em nível internacional. A rede atua localmente, explica ela, mas permanece conectada globalmente, compartilhando informações e respondendo além das fronteiras.

“Isso não é algo que um grupo possa fazer sozinho”, diz a Irmã Abby. “Requer responsabilidade e solidariedade compartilhadas – entre instituições, governos, comunidades e indivíduos.”

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