O vigário-geral do Patriarcado Latino de Jerusalém pede não se esqueça à Faixa de Gaza e à Cisjordânia, uma vez que “dois milhões de pessoas ainda sofrem”
Da redação, com Vatican News

Bispo William Shomali, vigário-geral do Patriarcado Latino de Jerusalém / Foto: Reprodução Youtube
“Gaza foi esquecida. Hoje, toda a atenção está voltada para o Irã e o sul do Líbano, mas na Faixa de Gaza, dois milhões de pessoas ainda sofrem: o problema permanece sem solução.” Em entrevista por telefone ao Vatican News, o bispo William Shomali, vigário-geral do Patriarcado Latino de Jerusalém desde 2021, fez um apelo para que se mantenha o foco no que ainda acontece na Faixa.
A economia está em colapso e muitos itens de primeira necessidade continuam escassos: medicamentos, antibióticos, equipamentos médicos. “A segurança é precária”, alertou. “Todos os dias, palestinos são mortos em Gaza, enquanto a passagem de Rafah não funciona como deveria.” O bispo lamentou que, em relação à reconstrução, “ninguém mais fala sobre isso”. No entanto, “80% da infraestrutura ainda está destruída”. Aqueles que podem e conseguem, fogem do enclave. Ele disse que muitos vão para a Austrália, onde cerca de 50 famílias foram acolhidas.
Assentamentos na Cisjordânia
As tensões também são altas na Cisjordânia, no Estado da Palestina, explicou o Bispo Shomali, citando “um grande problema: o dos assentamentos”. Atualmente, existem 200, mas o número continua a aumentar.
“A ideia de Israel é limitar a presença dos palestinos a apenas três áreas, construir assentamentos ao redor das cidades para ocupar o território e, assim, avançar rumo à anexação da Cisjordânia sob o nome de Judeia e Samaria”, disse ele.
“Eles querem que as pessoas se esqueçam de que existe uma população palestina que gradualmente se tornará minoria. O objetivo disso tudo é impedir o nascimento de um Estado palestino.”
Falta de terrenos disponíveis para construção
As três áreas onde os israelenses querem fazer fronteira com os palestinos, explicou o Bispo, são Hebron-Belém, Ramallah e, por fim, Nablus e Jenin. “Enquanto isso, ao longo do corredor norte-sul, os assentamentos continuam a se multiplicar.” Israel então bloqueia “o crescimento das cidades porque é difícil encontrar terrenos para construção: 53% dos territórios palestinos estão na Área C, onde a construção é proibida”, disse o Bispo Shomali, “porque é território ocupado sob controle total de Israel. Os colonos constroem onde querem nessa zona.”
Comunidades cristãs também são alvo de colonos
O Bispo também destacou como as comunidades cristãs estão no centro de incidentes violentos. Em Taybeh, os colonos “entram quando querem, incendeiam veículos e impedem os agricultores de trabalhar em seus campos” durante a colheita de azeitonas.
Mas esses são exemplos de abusos que agora se tornaram ocorrências diárias. “Em outros lugares, eles matam, como nas aldeias de Bir Zeit ou Aboud.” Na Cisjordânia e em Jerusalém, o bispo descreveu a comunidade cristã como pequena, em torno de 50.000 pessoas. Os colonos “usam qualquer pretexto para provocar violência: basta um jovem denunciar à polícia que alguém atirou uma pedra nele. Eles são violentos; as pessoas têm medo”, lembrou.
Um “novo assentamento será construído perto de Belém, em Beit Sahour, numa área chamada Osh Ghrab, em terras que pertencem a famílias cristãs. Elas sequer podem se aproximar”. Tudo isso “impede o surgimento de um Estado palestino”, concluiu.
Presença cristã em declínio
O bispo Shomali também observou que “a porcentagem de cristãos” apresenta um declínio quase constante, que provavelmente continuará: “Éramos maioria nos primeiros séculos, do 4º ao 7º”, mas “depois começamos a diminuir”.
Após a queda da cidade de São João de Acre para os mamelucos em 1291, deixou de haver um patriarca em Jerusalém, e o título foi gradualmente atribuído a prelados da corte papal em Roma. Em 1847, quando o Patriarcado Latino foi restabelecido, “éramos 10% da Palestina histórica (cerca de 21.000 pessoas). Em números, éramos poucos, mas a porcentagem era alta. Agora vivemos um paradoxo inverso: somos mais numerosos — os cristãos de língua árabe em Israel, Gaza e Palestina somam pelo menos 180.000 — mas a porcentagem é baixa”, explicou ele.
Apesar disso, o Bispo Shomali expressou sua confiança de que “o Senhor não permitirá que a Igreja desapareça da Terra Santa, mas seremos um pequeno rebanho perto dos Lugares Santos. Essa é a minha impressão. Permaneceremos, mas com menos de 1%”.
As celebrações da Páscoa acontecerão
Graças ao acordo firmado com as autoridades israelenses, após os “mal-entendidos” do Domingo de Ramos, será possível — dentro dos limites de segurança — que os cristãos celebrem o Tríduo Pascal.
O vigário-geral esclareceu que “há duas semanas, o Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, enviou uma carta solicitando permissão para a celebração, mesmo com um número reduzido de participantes. Agora, a polícia afirmou que pretende responder a essa carta. Ninguém pode ir contra o status quo; é uma realidade que deve ser respeitada internacionalmente.”
Ele informou que as celebrações da Semana Santa ocorrerão com um máximo de 10 pessoas. “A porta da [Igreja do] Santo Sepulcro será aberta e fechada após a entrada. Assim que a cerimônia terminar e as pessoas saírem, a porta será fechada novamente. O mesmo acontecerá com os ritos orientais.”




