PECADO CONTRA A CASTIDADE

"Ápice do egoísmo": pornografia gera visão deturpada do outro, diz padre

Psicóloga e sacerdote alertam para consequências do consumo de conteúdo pornográfico, realidade enfrentada por homens e mulheres e que pode desencadear vício

Gabriel Fontana
Da Redação

Imagem ilustrativa gerada por IA

O consumo de conteúdo pornográfico é uma realidade que afeta tanto homens quanto mulheres. Apesar de aparentar um prazer fácil e acessível, esta prática é um pecado grave e traz mais prejuízos do que se pode imaginar.

Márcia Rubez / Foto: Arquivo pessoal

Coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal) em Lorena (SP), Márcia Rubez, observa que, do ponto de vista psicológico, o consumo de pornografia promove a liberação de dopamina, neurotransmissos associado ao prazer e à sensação de bem-estar. Quando esse estímulo se torna repetitivo, o cérebro pode passar a buscar esse conteúdo como uma fonte rápida de satisfação emocional.

“Com o tempo, a pessoa pode desenvolver um padrão compulsivo”, alerta a psicóloga, “em que sente necessidade de acessar o conteúdo com maior frequência ou intensidade para obter o mesmo nível de excitação”. Este processo leva a um comportamento semelhante ao vício, podendo levar o indivíduo a consequências como isolamento social, irritabilidade, diminuição do interesse por interações reais e dificuldade na construção de vínculos afetivos saudáveis.

Objetificação do outro

Parte dessas alterações está ligada a uma distorção das percepções sobre o corpo, a sexualidade e as relações humanas. “Em muitos casos, esse conteúdo apresenta uma visão descontextualizada do sexo, centrada apenas no desempenho e na objetificação do outro, sem considerar afeto, consentimento e reciprocidade”, pontua Rubez.

A psicóloga observa ainda que, em indivíduos com dificuldades emocionais, crenças distorcidas ou histórico de agressividade, o conteúdo pornográfico pode reforçar comportamentos inadequados, banalizando limites e consentimento. É importante não fazer generalizações, contudo, pois a pornografia por si só não torna alguém violento.

A pornografia é o ápice do egoísmo, onde a pessoa sente-se dona do outra, com capacidade de fazer o que quiser e a todo custo unicamente para satisfazer seu próprio vazio humano e espiritual.
– Padre Evaldo César de Souza, CSsR

Padre Evaldo César de Souza, CSsR, chama a atenção para esta objetificação do outro, o que leva o indivíduo a desconsiderar o aspecto mais sagrado do corpo humano e de sua existência como promotor de vida e fraternidade. “Mais do que exposição de corpos, a pornografia prolifera e amplia a exposição das mais profundas misérias humanas, e submete o ser humano ao seu lado mais animalesco, no sentido negativo da palavra”, expressa.

Pecado contra a castidade

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) classifica a pornografia como uma ofensa à castidade, constituindo um pecado contra o sexto mandamento:

“[A pornografia] desnatura o ato conjugal, doação íntima dos esposos entre si. Atenta gravemente contra a dignidade daqueles que a praticam (atores, comerciantes, público), porque cada um se torna para o outro objeto de um prazer rudimentar e de um proveito ilícito. Mergulha uns e outros na ilusão de um mundo artificial. É uma falta grave.” (CIC 2354).

Padre Evaldo César de Souza, CSsR / Foto: Arquivo pessoal

Padre Evaldo recorda que a existência da sexualidade humana é parte do sonho de Deus ao criar o mundo. Diante disso, a pornografia promove uma deturpação por meio da coisificação do corpo como mero instrumento de prazer carnal e passageiro. “O outro deixa de ser visto como ‘pessoa’ e passa a ser desejado como ‘objeto’. Morre-se o amor e fica somente o prazer”, indica.

“A pornografia é pecaminosa”, prossegue o missionário redentorista, “pois estabelece-se este desligamento interior do ser humano e sua totalidade — corpo e alma — do amor de Deus, que nos criou para sermos íntegros e completos”. O consumo descontrolado deste tipo de conteúdo, além de causar diversas consequências ao ser humano, pode levar a percepções extremamente doentias, como a zoofilia, a pedofilia e a necrofilia.

Busca pela “higienização” interior

Padre Evaldo aponta que é necessário manter a vigilância espiritual para evitar cair nesta armadilha, apresentada de maneira tentadora e cada vez mais frequente no dia a dia. Nos casos já instalados de vício em pornografia, enfatiza a necessidade da vontade do indivíduo de libertar-se deste problema e a paciência e constância para progredir no processo de “higienização” interior.

“Para libertar-se destes hábitos de consumo de material impróprio é preciso estabelecer metas pequenas e exequíveis a cada dia, recomeçando sempre o processo quando houver queda”, destaca o sacerdote. Neste contexto, cita que a força da fé e da oração é essencial, buscando a assistência do Espírito Santo, além do acompanhamento profissional.

Rubez sinaliza que, para romper esse ciclo, é fundamental compreender o que está por trás do comportamento. “A psicoterapia é um recurso essencial, pois auxilia o indivíduo a identificar gatilhos emocionais, reorganizar a rotina e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com suas emoções”, conclui.

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