Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, apresentou aos jornalistas a longa viagem apostólica que o Papa fará de 13 a 23 de abril
Da Redação, com Vatican News

Papa Leão XIV em sua última viagem apostólica /Foto: REUTERS/Manon Cruz
Nesta quinta-feira, 9, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, apresentou a viagem do Papa à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Ele destacou as principais nuances e pontos do itinerário durante a habitual coletiva de imprensa com os jornalistas que acompanharão Leão XIV em suas diversas etapas.
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Segundo o porta-voz do Vaticano, tratam-se de lugares “que um Pontífice não visita há muitos anos” e, no caso da Argélia, “onde um Papa nunca esteve antes”. João Paulo II visitou Camarões em 1985, como parte de uma longa peregrinação ao continente africano. Depois, Bento XVI esteve no país em 2009, antes de seguir para Angola, onde Wojtyła já havia ido em 1992. O próprio Wojtyła fez ainda uma parada na Guiné Equatorial em 1982, durante sua segunda viagem apostólica à África (a primeira ocorreu em 1980). O Papa Francisco, por sua vez, nunca esteve em nenhum desses países, embora tenha visitado dez nações africanas.
“É uma viagem pela riqueza deste grande continente, povoado por diversos povos e mundos”, enfatizou Bruni, ao descrever gradualmente as várias etapas do percurso.
Na Argélia, seguindo os passos de Santo Agostinho
Na Argélia, terra marcada pelo testemunho e legado de Santo Agostinho — pai da ordem religiosa à qual Robert Francis Prevost pertence —, o Papa retoma um desejo já manifestado anteriormente. O próprio Leão XIV havia antecipado essa visita no voo de retorno de Beirute, quando, ao responder a perguntas de jornalistas sobre futuras viagens, revelou o destino africano e expressou o desejo de “visitar os lugares de Santo Agostinho”, além de continuar “o diálogo e a construção de pontes entre os mundos cristão e muçulmano”, para os quais o bispo de Hipona é uma figura respeitada.
Prevost já esteve diversas vezes em Argel e Annaba como superior-geral dos agostinianos. Agora, retorna como Papa e peregrino a uma “terra de testemunho cristão antigo e moderno”: não apenas de Santo Agostinho, mas também dos cristãos do Norte da África na época romana e da experiência de Charles de Foucauld no deserto do sul do país, entre os tuaregues. Os sete monges trapistas de Nossa Senhora do Atlas, assassinados na década de 1990, junto com outros 19 religiosos de diversas ordens, foram beatificados pelo Papa Francisco em 2018.
“Uma terra de grande sofrimento”, afirmou Bruni, mas também “profundamente amada”, cuja posição geográfica — entre o deserto e o Mar Mediterrâneo, rota de tantos migrantes africanos — oferecerá ocasião para abordar a questão da migração. O porta-voz observou ainda que o Pontífice poderá fazer referência ao “risco de exploração de recursos por outros, sejam indivíduos ou organizações”.
Em Camarões, “uma África em miniatura”
Da Argélia, o Papa seguirá viagem — marcada por deslocamentos quase diários de avião ou helicóptero — até Camarões, descrito como “uma África em miniatura”, devido à variedade e riqueza de seu território, recursos e tradições, inclusive linguísticas.
João Paulo II falou de esperança no país; Bento XVI, de reconciliação, justiça e paz. Agora, Leão XIV encontrará “um país que atravessa provações complexas devido à convivência de diversas realidades”, como as crises nas regiões Norte, Sudoeste e Extremo Norte, além do “veneno” do fundamentalismo, especialmente entre os jovens.
Ao mesmo tempo, o Papa poderá destacar os esforços das religiões na construção da paz, incentivar o papel dos governos, da sociedade civil e das mulheres, e chamar a atenção para questões ambientais e de desenvolvimento humano integral, também à luz do décimo aniversário da encíclica Laudato si’.
Angola, uma “força para a mudança”
Paz, recursos naturais e humanos, juventude e também as feridas da corrupção, da exploração e do colonialismo marcarão a etapa em Angola, uma terra jovem como o seu povo. Sua “esperança” e “alegria”, afirmou Bruni, fazem com que o país possa ser visto hoje como “uma verdadeira fonte de inspiração espiritual e uma força para a mudança”.
Apesar da “tentação da tristeza e do desânimo”, a fé prevalece: “É o coração do cristianismo africano”.
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Os recursos humanos e naturais da Guiné Equatorial
A viagem apostólica será concluída na Guiné Equatorial, uma realidade com desafios próprios. Trata-se de uma região rica em recursos minerais, jazidas e, sobretudo, em humanidade, culturas e línguas.
Com numerosas ilhas, ampla atividade pesqueira e forte presença cristã, o país reforça o compromisso da Igreja “em apoiar e construir uma cultura de paz”. A cultura também se destaca, com a presença de universidades, algumas apoiadas pela Igreja local.
Comitiva e medidas de segurança
A comitiva papal incluirá o cardeal Luís Antonio Tagle, pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização; George Koovakad, prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso; e dois chefes eméritos de dicastérios, Peter Appiah Turkson e Robert Sarah, ambos africanos.
O novo substituto, Paolo Rudelli, e alguns agostinianos também estarão presentes, mas apenas na etapa da Argélia. O Papa deverá se deslocar frequentemente em carro conversível durante as celebrações. Questionado sobre a segurança, Bruni afirmou que “não estão previstas medidas especiais”, sendo consideradas suficientes as medidas ordinárias.
Uma homenagem ao Papa Francisco
O Pontífice concederá a tradicional coletiva de imprensa a bordo do voo papal e não se descarta a possibilidade de intervenções durante voos internos: “Talvez ele tenha algo a dizer em algumas ocasiões”, como ocorreu, por exemplo, na viagem de Istambul a Beirute.
Quanto à escolha dos países do itinerário, Bruni não indicou razões específicas, mas destacou que a África é “um continente muitas vezes esquecido que precisa ser ouvido”, cujos “problemas” e “desafios” devem ser enfrentados. Entre eles, mencionou-se a poligamia — tema também presente nas discussões do sínodo — e a falta de democracia em algumas regiões.
Questionado se o Papa abordará essas questões, Bruni respondeu: “Listei alguns tópicos; não está descartada a possibilidade de a poligamia ser discutida, mas o Papa certamente falará sobre a família”. Sobre a questão política, afirmou que, “com a liberdade com que o Papa visita cada país, encontrando diferentes pessoas e realidades políticas, ele se dirigirá a todos”.
Por fim, está prevista uma homenagem ao Papa Francisco, cujo aniversário de morte ocorre em 21 de abril, durante a viagem apostólica.




