O livro, intitulado ‘A paz esteja convosco!’, foi publicado pela HarperCollins em livrarias dos Estados Unidos e demais países de língua inglesa
Da redação, com Vatican News

Papa Leão XIV / Foto: Reuters – Remo Casilli
O Vatican News publicou a nova introdução do livro “A paz esteja convosco!”, assinado pelo Papa Leão XIV, originalmente publicado em italiano pela Editora do Vaticano. Confira a íntegra do texto a seguir.
“A paz é um dos grandes temas do nosso tempo e é ao mesmo tempo um dom e um compromisso: um dom de Deus construído por homens e mulheres ao longo dos séculos.
Vivemos num mundo ferido por muitos conflitos e atingido por hostilidades sangrentas. O nacionalismo extremo espezinha os direitos dos mais frágeis. Mesmo antes de ser esmagada no campo de batalha, a paz é derrotada no coração humano quando cedemos ao egoísmo e à ganância e quando permitimos que os interesses partidários prevaleçam em vez de olharmos para o bem comum. Muitos autores afirmaram que é quando nos recusamos a ouvir as histórias de outras pessoas que começamos a privá-las de sua dignidade. Despersonalizar os outros é o primeiro passo para toda guerra. Conhecer os outros, no entanto, é um prenúncio da paz. Mas para conhecer, primeiro precisamos saber amar. Santo Agostinho disse que ‘ninguém conhece ninguém a não ser pela amizade’ (Oitenta e três perguntas diferentes, 71).
Gostaria de refletir aqui sobre essa dupla dimensão da paz, que é vertical (a paz como dom do Alto) e horizontal (a paz como responsabilidade de cada pessoa).
A paz é um dom que Deus concedeu aos homens e mulheres de todos os tempos através do nascimento de Jesus em Belém. Os anjos anunciaram a paz na terra porque Deus se fez homem. Ele abraçou a humanidade de forma tão profunda que destruiu com sua cruz a hostilidade do pecado. Santo Agostinho escreve: ‘Nós também seremos glória a Deus no alto dos céus quando, na ressurreição do corpo espiritualizado, formos arrebatados nas nuvens ao encontro de Cristo; desde que, porém, agora que estamos na terra, busquemos a paz com boa vontade’ (Discursos, 193). A glória de Deus desceu à terra para nos tornar participantes de sua infinita bondade. Este dom exige a responsabilidade de nossa resposta, de nossa ‘boa vontade’, como escreve o santo de Hipona.
Além disso, a paz é o dom que o Ressuscitado ofereceu aos seus discípulos. É uma paz ‘ferida’ pelas chagas da crucificação, porque a paz de Jesus brota de um coração que ama e que se deixa atingir pelo sofrimento de todos os tempos e lugares. ‘Depois da sua ressurreição, o Senhor apareceu aos seus discípulos e os saudou dizendo: A paz esteja convosco. Eis que a paz é a saudação da salvação, pois o próprio termo ‘saúde’ deriva da salvação’ (Santo Agostinho, Discursos, 116).
No entanto, a paz também é um compromisso e uma responsabilidade de cada um de nós. Paz significa ensinar as crianças a respeitar os outros e a não praticar bullying quando brincam. Paz significa vencer o nosso orgulho pessoal e abrir espaço para o outro, em nossa família, no trabalho, no esporte. Paz é quando o nosso coração e a nossa vida são habitados pelo silêncio, pela meditação e pela escuta a Deus; porque Deus nunca abençoa a violência, nunca aprova tirar vantagem dos outros ou o abuso frenético da única Terra que está desfigurando a Criação, uma carícia do Criador.
Podemos nos sentir impotentes diante das muitas guerras que estão sendo travadas no mundo. Podemos responder de várias maneiras ao que chamei de ‘globalização da impotência’: os fiéis podem, antes de tudo e acima de tudo, dar voz à oração. A oração é uma força ‘desarmada’ que busca apenas o bem comum, sem exceções. Ao orar, desarmamos nosso ego e nos tornamos capazes de gratuidade e sinceridade.
Além disso, o nosso coração é o campo de batalha mais importante. É nele que devemos aprender a vitória silenciosa, porém necessária, sobre os impulsos de morte e as tendências à dominação: somente corações pacíficos podem construir um mundo de paz. Devemos praticar uma cultura de reconciliação, criando laboratórios não violentos, lugares onde a desconfiança em relação aos outros possa se tornar uma oportunidade de encontro. O coração é a fonte da paz; nele, devemos aprender a nos encontrar em vez de entrar em conflito, a confiar em vez de desconfiar, a ouvir e compreender em vez de nos fecharmos para os outros.
Por fim, a política e a Comunidade internacional têm a responsabilidade de facilitar a mediação em conflitos, utilizando a arte do diálogo e da diplomacia. ‘Senhor Deus, […] conceda-nos a paz, a paz do repouso, a paz do sábado, a paz sem ocaso’: com estas palavras de Santo Agostinho, pedimos ao Pai que conceda ao nosso mundo, a todas as pessoas, especialmente as mais esquecidas e as que mais sofrem, a graça abençoada de uma paz justa e duradoura.”