No discurso aos membros do parlamento espanhol, Leão XIV frisou promoção da dignidade humana e da paz; Papa também se reuniu com o presidente do governo
Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Papa Leão XIV discursa no Congresso dos Deputados, em Madri / Foto: Alessandra Tarantino/Pool via REUTERS
Iniciando o terceiro dia de sua viagem apostólica à Espanha, o Papa Leão XIV teve uma série de encontros diplomáticos. No primeiro compromisso desta segunda-feira, 8, o Pontífice se reuniu com o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez Pérez-Castejón, na Nunciatura Apostólica.
Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, o encontro entre Leão XIV e Pérez-Castejón durou cerca de 20 minutos. Posteriormente, o Santo Padre ainda cumprimentou alguns colaboradores do chefe de governo antes de seguir para seu segundo compromisso: o encontro com os membros do Parlamento espanhol, no Congresso dos Deputados.
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O Papa iniciou seu discurso agradecendo pelo convite e afirmou desejar que sua presença seja um gesto de proximidade e serviço à pessoa humana. “A Igreja caminha com a humanidade”, afirmou, “e quando se dirige à vida pública, o faz respeitando a missão própria das instituições e a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato legislar”.
Reconhecendo a autonomia das realidades terrenas e a diferença entre as comunidades eclesial e política, a Igreja contribui com uma reflexão nascida do desejo de servir o bem comum e recordar aquilo que torna verdadeiramente humano o convívio entre os homens, frisou o Pontífice.
Dignidade humana precede o Estado
No Congresso dos Deputados, o Santo Padre enfatizou que, para além da legítima diversidade de posições, a missão legislativa depara-se com uma questão decisiva: que concepção da pessoa humana inspira as leis e que tipo de sociedade essas leis constroem?
Retomando a identidade espanhola e sua grande tradição jurídica, Leão XIV apontou que a Espanha soube, ao longo do tempo, olhar para o ser humano como “uma criatura aberta à verdade, dotada de liberdade e movida por uma sede de eternidade que nenhuma realidade temporal pode extinguir”.
A dignidade humana precede toda utilidade e ao serviço dela deve sujeitar-se a ação legislativa, sinalizou o Papa. Neste contexto, recordou a corrente de pensamento que surgiu na Universidade de Salamanca séculos atrás, pela qual introduziu-se, no discernimento histórico, a questão do valor irredutível de cada ser humano e os limites morais do poder.
“Essa questão abriu um horizonte intelectual e moral que transcendeu seu próprio momento histórico. A intuição do totus orbis, de uma comunidade humana mais ampla do que qualquer poder particular, possibilitou afirmar a existência de laços jurídicos e morais entre os povos”, refletiu o Pontífice.
Defesa da vida
Tal contribuição, prosseguiu o Santo Padre, ultrapassou as salas de aula e alcançou a comunidade internacional. Segundo Leão XIV, diante das possibilidades que se abrem frente ao avanço do universo digital, a questão proposta por Salamanca segue acompanhando a tarefa daqueles que servem à vida pública.
“Diante das transformações do nosso tempo, nosso discernimento deve se concentrar no lugar que a pessoa humana ocupa em nossas decisões e em como a dignidade do trabalho, a solidariedade, a política social e o bem comum estão sendo abordados de uma nova maneira hoje”, pontuou o Papa.
Ele sinalizou que tal discernimento começa pela afirmação de que toda sociedade verdadeiramente justa se constrói sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana. Ela pertence a todo homem pelo simples fato de existir e, portanto, deve orientar todos os sistemas jurídicos positivos, destacou o Pontífice.
Neste contexto, Leão XIV retomou o alerta de seu predecessor, o Papa Francisco, quanto à cultura do descarte. O Santo Padre apontou que, se a vida deixar de ser reconhecida como um valor fundamental, fica comprometido o futuro das sociedades. “A defesa da vida humana não é uma questão partidária ou um interesse religioso: é um objetivo da civilização”, salientou.
“Toda vida humana deve ser reconhecida e protegida desde sua concepção até sua morte natural, em todas as circunstâncias de sua existência”, prosseguiu o Papa. “Quando essa certeza é obscurecida, os mais vulneráveis tornam-se as primeiras vítimas, e a lei perde seu significado mais profundo: servir e proteger cada pessoa. Portanto, a grandeza moral de uma nação se manifesta, sobretudo, em sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas mais frágeis”, complementou.
Família, educação, migração
O Pontífice frisou que, quando o bem comum deixa de ser um horizonte compartilhado, a ação pública corre o risco de se fragmentar em interesses parciais, incapaz de salvaguardar o que pertence a todos. Neste contexto, salientou a importância da família, que uma vez fortalecida, também sustenta a estabilidade espiritual e social das nações.
As instituições de ensino têm um papel fundamental, salientou o Santo Padre. É nelas que as novas gerações podem aprender a buscar e amar a verdade, questionar-se sobre o sentido da vida e compreender a dignidade humana.
Leão XIV dirigiu ainda o pensamento aos migrantes e refugiados, pontuando que o drama migratório interpela a consciência das nações a buscar uma solução. “Quando uma pessoa é discriminada por causa de sua origem nacional, étnica, religiosa ou linguística, ou por causa de sua condição econômica ou social, o princípio universal da igual dignidade de todos os seres humanos é gravemente violado”, sublinhou.
Promover uma paz duradoura
Segundo o Papa, o mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua. “Nesse contexto, a paz surge como uma aspiração política e, sobretudo, como um verdadeiro imperativo moral. Ela exige um discurso público que respeite aqueles que pensam diferente, instituições dedicadas a fomentar o diálogo, uma memória histórica que busque a verdade e a reconciliação, e uma vida social capaz de sustentar a amizade cívica e o respeito mútuo em meio às divergências”, declarou.
Em âmbito internacional, a paz exige coragem diplomática, responsabilidade ética e uma visão de futuro fundamentada no respeito à identidade de cada povo e na obrigação dos Estados de resolver suas controvérsias por caminhos pacíficos. “Toda guerra constitui uma dolorosa derrota da capacidade de negociar”, afirmou o Pontífice, “as armas podem impor um silêncio temporário, mas jamais poderão construir uma paz verdadeira e duradoura”.
“A comunidade internacional é chamada a redescobrir o valor indispensável do diálogo como um caminho paciente rumo a acordos justos e duradouros, fundamentados no respeito aos tratados, na transparência da atuação diplomática e em um compromisso sincero de priorizar a paz em detrimento do uso da força. Que desta primavera surjam confiança e esperança”, expressou o Santo Padre.
Liberdade, direito fundamental
Entre outras realidades, Leão XIV destacou a importância de valores como a liberdade de pensamento, de consciência e religiosa. “A liberdade sobre a qual se constrói o Estado contemporâneo, se for autêntica, reconhece a dimensão religiosa do ser humano, respeita-a e protege-a legalmente; e impede que alguém tenha de renunciar à sua contribuição para a sociedade em que vive por causa da sua fé”, ressaltou.
Neste contexto, o Papa recordou o sigilo sacramental da confissão, que reveste especial importância para a Igreja Católica. “Proteger legalmente esse direito, como acontece de forma semelhante em algumas profissões, significa preservar um espaço sagrado de liberdade interior, onde o crente pode abrir sua alma diante de Deus sem medo de pressões externas”, afirmou.
Na conclusão de seu discurso, o Pontífice convidou os presentes a elevarem o olhar, não para afastar-se da realidade, mas para recordar que toda decisão tomada por autoridades públicas afeta pessoas reais, especialmente aquelas que têm menos poder para se fazerem ouvir.
“Que esta nobre nação jamais perca de vista suas raízes nem a audácia de olhar para o futuro. Que a Espanha continue sendo uma terra de encontro, cultura, solidariedade e esperança. E que sua vida pública sempre una a firmeza das convicções à nobreza do diálogo e à grandeza do serviço”, finalizou o Santo Padre.




