Discurso na Universidade

Papa aos jovens sob pressão de expectativas: não somos um algoritmo

Na Universidade Sapienza, Leão XIV pediu que jovens não se fechem em ideologias e disse que aumento dos gastos militares não pode ser considerado “defesa”

Da Redação, com Vatican News

Papa Leão XIV discursa em púlpito da Universidade Sapienza de Roma diante de estudantes e autoridades acadêmicas durante visita pastoral.

Papa Leão XIV durante visita à Universidade Sapienza de Roma /Foto: REUTERS/Guglielmo Mangiapane

O Papa Leão XIV pronunciou, nesta quinta-feira, 14, um significativo discurso diante do corpo docente e discente na Aula Magna da Universidade Sapienza de Roma. Foi a primeira visita do Pontífice à renomada instituição, considerada uma das mais antigas e prestigiadas da Europa, com 723 anos de história.

Ao chegar, o Santo Padre rezou na Capela Universitária “Divina Sapienza”. Na sequência, saudou um grupo de estudantes. No prédio do Reitorado, manteve um encontro privado com a reitora, Antonella Polimeni, e assinou o Livro de Honra. Houve também a inauguração de uma placa de recordação da visita, a saudação aos membros do Senado Acadêmico e aos funcionários da Universidade. Ainda houve tempo para conhecer a mostra “La Sapienza e os Papas”.

Somos um desejo, não um algoritmo!

Na Aula Magna, Leão XIV falou desta Universidade como um polo de excelência em diversas disciplinas, enalteceu seu empenho em favor do direito ao estudo e manifestou seu apreço pelo acordo assinado entre o instituto e a Diocese de Roma, para a abertura de um “corredor humanitário universitário” com a Faixa de Gaza.

A primeira mensagem do Pontífice foi dirigida aos estudantes. “Imagino-os, às vezes, despreocupados, felizes com a própria juventude que, mesmo em um mundo conturbado e marcado por terríveis injustiças, lhes permite sentir que o futuro ainda está por escrever e que ninguém pode roubá-lo de vocês”, disse.

Jovens como Santo Agostinho, inquietos, escondem também um lado triste, alertou o Papa. Muitos sofrem com a pressão das expectativas e a exigência de desempenho, exacerbando a competitividade. “É justamente esse mal-estar espiritual de muitos jovens que nos lembra que não somos a soma do que possuímos nem uma matéria aleatoriamente agrupada de um cosmos mudo. Somos um desejo, não um algoritmo!”

Sim à vida dos povos que clamam por paz e justiça!

E justamente essa dignidade, explicou o Santo Padre, conduz a duas perguntas, uma de caráter existencial – “Quem sou?” – e outra mais relacional – “Que mundo estamos deixando?”. Com foco na segunda questão, o Pontífice comentou sobre o mundo deformado pelas guerras e pelas palavras de guerra.

“Trata-se de uma contaminação da razão, que, a partir do plano geopolítico, invade todas as relações sociais”, reforçou o Santo Padre. Segundo ele, a simplificação que cria inimigos deve, portanto, ser corrigida. O grito “nunca mais a guerra!” dos antecessores deve se aliar com o senso de justiça que habita o coração dos jovens, com a sua vocação de não se fecharem entre ideologias e fronteiras nacionais, complementou.

Ao falar da ecologia e do aumento com os gastos militares, Leão XIV entrou no coração do seu discurso: “Não se pode chamar de ‘defesa’ um rearmamento que aumenta as tensões e a insegurança, empobrece os investimentos em educação e saúde, desmente a confiança na diplomacia e enriquece elites que nada se importam com o bem comum. É preciso, além disso, vigiar o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial nos âmbitos militar e civil, para que ela não retire a responsabilidade das escolhas humanas e não agrave a tragédia dos conflitos”.

De acordo com o Santo Padre, o que está acontecendo na Ucrânia, em Gaza e nos territórios palestinos, no Líbano e no Irã, ilustra a evolução desumana da relação entre a guerra e as novas tecnologias numa espiral de aniquilação. “O estudo, a investigação e os investimentos devem seguir na direção oposta: que sejam um «sim» radical à vida! Sim à vida inocente, sim à vida jovem, sim à vida dos povos que clamam por paz e justiça!”

Papa exortou os jovens: não ceder à resignação, transformando a inquietação em profecia; estudar, cultivar e zelar pela justiça; ser artesãos da verdadeira paz, usando a própria inteligência e coragem.

A arte de ensinar

Já os professores ouviram de Leão XIV palavras exaltantes ao comparar o ensino a uma forma de caridade: é como “socorrer um migrante no mar, um pobre na rua, uma consciência desesperada”.

“Trata-se de amar sempre e em todas as circunstâncias a vida humana, de valorizar suas possibilidades, de modo a falar ao coração dos jovens, sem se concentrar apenas em seus conhecimentos. Ensinar torna-se, então, testemunhar valores com a vida: é cuidado com a realidade, é senso de acolhimento para com o que ainda não se compreende, é dizer a verdade.” O conhecimento, acrescentou o Papa, não serve apenas para alcançar objetivos profissionais, mas para discernir quem se é.

O Pontífice então concluiu frisando que a sua visita pretende ser um sinal de uma nova aliança educativa entre a Igreja que está em Roma e a Universidade, que nasceu e cresceu precisamente no seio da Igreja. Ele assegurou que todos estarão em suas orações e invocou sobre toda a comunidade da Sapienza a bênção do Senhor.

Vamos construir um mundo novo!

Já do lado de fora da Universidade, antes de regressar ao Vaticano, Leão XIV fez um último convite aos jovens: “Vamos colaborar juntos, pois todos nós somos construtores da paz no mundo; vamos trabalhar, estudar e fazer tudo o que for possível — desde as relações entre amigos, nossas palavras e nossa maneira de pensar — para construir a paz no mundo. Tenham sempre esperança na possibilidade de construir um mundo novo!”.

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