Em primeira visita à sede do Programa Alimentar Mundial, em Roma, Leão XIV lamentou desequilíbrio nas prioridades políticas e morais do mundo atual
Da Redação, com Vatican News

Papa discursou nesta segunda-feira, 22, na sede do Programa Mundial de Alimentos (PAM) /Foto: REUTERS/Vincenzo Livieri
O Papa Leão XIV deixou o Vaticano na manhã desta segunda-feira, 22, para visitar a sede do Programa Mundial de Alimentos (PAM), que fica na zona sul de Roma. As anfitriãs do Pontífice foram a ex-diretor executiva, Cindy McCain, que concluiu seu mandato há poucos dias, e a diplomata brasileira Carla Barroso Carneiro, presidente da assembleia.
Em seu discurso, o Santo Padre enalteceu o trabalho da instituição, agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 2020, e destacou a sintonia entre sua atuação e a missão da Igreja Católica de promover a dignidade humana e a fraternidade. “Juntos, compartilhamos a urgente tarefa de combater a fome e a desnutrição, enfrentando, ao mesmo tempo, as causas estruturais que as alimentam”, afirmou.
Entre essas causas, o Pontífice apontou as crises contemporâneas, que deixaram de ser eventos isolados para se tornarem “realidades persistentes”, marcadas por conflitos prolongados, insegurança alimentar crônica, volatilidade econômica e crescente vulnerabilidade climática.
Além disso, como observou na encíclica Magnifica humanitas, essa situação também decorre da crise do sistema multilateral e da fragmentação da ordem mundial. Segundo o Papa, a questão não se limita a como intervir diante desses desafios, mas exige compreender por que o próprio sistema continua gerando problemas que depois é obrigado a enfrentar e corrigir.
Esse clima de desconfiança, analisou Leão XIV, tem levado os Estados a direcionarem cada vez mais recursos para a segurança nacional e a estabilidade interna, em detrimento da cooperação internacional.
Paradoxo atual
Segundo o Papa, esta tendência gerou o evidente paradoxo de uma “capacidade produtiva global sem precedentes” paralela à expansão de áreas de extrema vulnerabilidade: “As mesmas forças que alimentam o crescimento econônimo muitas vezes agravam a exclusão e a marginalização”. Assistimos a uma “burocratização da solidariedade” junto a uma “silenciosa mercantilização da vida humana”.
O resultado, explicou o Pontífice, é que o acesso aos bens essenciais, inclusive ao alimento, é influenciado por considerações econômicas ou estratégicas. E quem não produz um valor quantificável corre o risco de se tornar invisível.
Solidariedade impedida por “incompreensíveis decisões políticas”
Nesse contexto, a pessoa humana deixou de ocupar o centro das decisões. Leão XIV recordou uma denúncia feita pelo Papa Francisco, em 2016, na mesma sede: a ajuda humanitária frequentemente é bloqueada por “intrincadas e incompreensíveis decisões políticas, por tendenciosas visões ideológicas ou por insuperáveis barreiras alfandegárias”, enquanto “as armas não”.
Dessa forma, torna-se mais fácil alimentar conflitos do que alimentar pessoas. “Esta realidade reflete não apenas carências operativas, mas também um profundo desequilíbrio nas prioridades políticas e morais”, denunciou o Pontífice.
As consequências da fome, prosseguiu, se estendem para além dos diretos interessados, podendo comprometer toda a coesão social, aumentando o risco de conflitos e migrações forçadas, “perpetuando assim ciclos de fragilidade que, em última análise, incidem sobre a comunidade internacional”. O Santo Padre frisou que são instituições como o PAM que impedem que crises humanitárias degenerem num “colapso irreversível”.
Retomar o multilateralismo
O Pontífice propõe retomar a cooperação multilateral, tendo em vista que nenhum Estado, hoje, pode enfrentar sozinho os desafios globais. A comunidade internacional deve estar unida pela preocupação por quem se encontra vulnerável, opondo-se à exclusão. O convite foi então para que todos caminhem juntos, em harmonia fraterna.
Aos governos de todo o mundo, o apelo do Papa foi para que renovem e reforcem seu compromisso, aumentem os recursos destinados à luta contra a fome e às suas causas profundas e removam os obstáculos que impedem às ajudas de alcançar quem necessita.
Leão XIV afirmou que para traduzir essas palavras em fatos, é preciso reduzir a burocracia supérflua, de modo que a transparência e a responsabilidade estejam a serviço das pessoas e não se tornem um obstáculo às ajudas. Onde os Estados vacilam e o acesso humanitário é limitado, a Igreja Católica tem um papel importante, pois com frequência alcança as populações mais vulneráveis em regiões inacessíveis.
Resistir à mercantilização
Resistir à “mercantilização das necessidades humanas fundamentais” foi outro pedido do Santo Padre. “Água, alimento e acesso à saúde não podem ser subordinados a considerações de mercado ou a interesses geopolíticos. O acesso ao alimento adequado é um direito humano fundamental radicado na dignidade de cada pessoa.”
Para o Papa, não se trata somente de aliviar o sofrimento, mas enfrentar as causas de instabilidade geopolítica, já que a segurança alimentar é um componente essencial da segurança global e integral.
Um novo percurso é possível
O Pontífice concluiu afirmando que o que está em jogo não é só a eficácia de uma agência, mas a credibilidade da própria cooperação internacional. Um novo percurso é possível, afirmou, partindo da simplificação do método, priorizando o essencial, sem que nenhuma pessoa seja esquecida.
“De fato, esse compromisso está enraizado no reconhecimento de que toda pessoa humana possui uma dignidade inerente e inalienável, que permanece intacta independentemente das circunstâncias, das condições ou da posição social. Enraizada no amor incondicional e ilimitado de Deus, essa dignidade pode ser descrita como infinita, pois nada pode diminuir, apagar ou negar o seu valor. É precisamente pela nossa fidelidade a essa verdade que se mede a humanidade da nossa política e, com ela, o futuro da comunidade internacional.”




