No encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático da Argélia, Leão XIV criticou indiferença ao próximo e enfatiza promoção da paz e do bem comum
Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Papa Leão XIV discursa às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático da Argélia / Foto: REUTERS/Guglielmo Mangiapane
Em um de seus primeiros compromissos durante sua viagem apostólica à África, o Papa Leão XIV se encontrou com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático da Argélia nesta segunda-feira, 13.
O presidente argelino, Abdelmajid Tebboune, foi o primeiro a discursar no Centro de Conferências Djamaa el Djazair. Em seguida, o Pontífice falou aos presentes, destacando sobretudo a busca pela paz, pela justiça e pela harmonia social.
Ao iniciar sua fala, o Santo Padre expressou sua gratidão pelo convite para visitar a Argélia e recordou que já esteve em Annaba por duas vezes, em 2011 e 2013. “Venho até vós como peregrino da paz, desejoso de encontrar o nobre povo argelino. Somos irmãos e irmãs, pois temos o mesmo Pai nos céus”, declarou.
“Em um mundo cheio de confrontos e incompreensões, encontramo-nos e procuramos compreender-nos, reconhecendo que somos uma única família”, afirmou Leão XIV. Ele destacou o profundo sentido religioso do povo argelino, apontando que este é o segredo de uma cultura do encontro e da reconciliação.
Injustiça e indiferença ao próximo
O Papa também ressaltou o senso de solidariedade, acolhimento e comunidade presente entre o povo. Mencionando a prática da esmola como algo comum e natural entre os argelinos — que a chamam de sadaka, cujo significado é justiça —, o Pontífice reiterou que “injusto é aquele que acumula riquezas e permanece indiferente aos outros”.
“Esta visão da justiça é simples e radical: reconhece no outro a imagem de Deus”, prosseguiu o Santo Padre. “Uma religião sem compaixão e uma vida social sem solidariedade são um escândalo aos olhos de Deus. No entanto, muitas sociedades que se consideram avançadas precipitam-se cada vez mais na desigualdade e na exclusão. As pessoas e as organizações que dominam os outros – isto a África sabe-o bem – destroem o mundo que o Altíssimo criou para que vivêssemos juntos”, acrescentou.
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Ao recordar os acontecimentos históricos do passado, Leão XIV apontou que a Argélia desenvolveu um olhar crítico sobre os equilíbrios mundiais. “Se souberdes dialogar com as necessidades de todos e solidarizar-vos com o sofrimento de tantos países próximos e distantes, a vossa experiência poderá contribuir para imaginar e concretizar uma maior justiça entre os povos”, sinalizou.
Ação política
Após citar seus predecessores, Bento XVI e Francisco, o Papa exortou as autoridades do país a promoverem uma sociedade civil viva, dinâmica e livre. “A verdadeira força de um país reside na cooperação de todos para a realização do bem comum. As autoridades não são chamadas a dominar, mas a servir o povo e o seu desenvolvimento”, enfatizou.
“A ação política encontra o seu critério na justiça, sem a qual não há paz autêntica”, prosseguiu o Pontífice, “e expressa-se na promoção de condições equitativas e dignas para todos”. Neste contexto, reiterou o compromisso da Igreja Católica, com as suas comunidades e iniciativas, na promoção do bem comum da Argélia.
Promoção da dignidade humana
Voltando seu pensamento ao mar Mediterrênio, no norte do país, e ao deserto do Saara, no sul, o Santo Padre fez um alerta para que esses locais não sejam transformados em “cemitérios onde morre a esperança”. “Multipliquemos os oásis de paz, denunciemos e eliminemos as causas do desespero, combatamos quem lucra com a desgraça alheia”, exortou, sublinhando que a dignidade da vida humana é inviolável.
Leão XIV também pontuou que a sociedade argelina conhece bem a tensão entre o sentido religioso e a vida moderna. “Aqui, tal como no resto do mundo, tendem a manifestar-se dinâmicas opostas, de fundamentalismo ou secularização, pelas quais muitos perdem o sentido autêntico de Deus e da dignidade de todas as suas criaturas”, afirmou.
Diante disso, o Papa voltou a denunciar o uso de símbolos e palavras religiosas para promover violência e opressão, bem como o esvaziamento do significado dos sinais. “Estas absurdas polarizações, todavia, não devem assustar-nos. Devem ser enfrentadas com inteligência”, pontuou.
“É necessário educar para o espírito crítico e a liberdade, para a escuta e o diálogo, para a confiança que nos faz reconhecer no diferente um companheiro de viagem, e não uma ameaça. Temos de trabalhar pela cura da memória e pela reconciliação entre antigos adversários”, concluiu o Pontífice.




