''ARTESÃOS DA PAZ''

“A paz é saber viver juntos, como pessoas reconciliadas”, afirma Papa

Em seu discurso durante encontro com autoridades neste domingo, 30, Leão XIV refletiu sobre as características dos promotores da paz

Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Papa Leão XIV durante discurso no encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático / Foto: REUTERS/Mohamed Azakir

Após a chegada ao Líbano neste domingo, 30, para a segunda etapa de sua viagem apostólica, o Papa Leão XIV cumpriu uma agenda de compromissos diplomáticos.

Acolhido com uma cerimônia de boas-vindas no Aeroporto de Beirute, o Pontífice seguiu de carro para o Palácio Presidencial, onde realizou uma visita de cortesia ao presidente, Joseph Aoun. Durante o encontro, foi feita a foto oficial e houve também uma troca de presentes.

Na sequência, o Santo Padre se encontrou com o presidente do parlamento, Nabih Berri, e o primeiro-ministro, Nawaf Salam. O último compromisso do dia foi o encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático. Em seu discurso, o Santo Padre refletiu especialmente sobre o lema de sua viagem ao Líbano, “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9).

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Papa Leão XIV cumprimenta o presidente do Líbano, Joseph Aoun / Foto: Alessandro Di Meo/Pool via REUTERS

Renascer com coragem

Iniciando sua fala, Leão XIV expressou sua alegria em poder visitar o país, onde a paz é mais do que uma palavra. “Aqui a paz é um desejo e uma vocação, é um dom e um canteiro sempre aberto”, afirmou. Aos presentes, responsáveis por tarefas institucionais em meio ao povo, o Papa refletiu sobre o que significa ser um promotor da paz.

Ele ressaltou a característica do povo libanês de saber sempre renascer com coragem. “A
vossa resiliência é uma característica imprescindível dos autênticos promotores da paz: realmente, a obra da paz é um contínuo recomeçar”, declarou o Pontífice. “É preciso tenacidade para construir a paz; é preciso perseverança para cuidar e fazer a vida crescer”, acrescentou.

Lançando um olhar sobre a história do Líbano, o Santo Padre traçou um paralelo com o atual sentimento de impotência e pessimismo que parece ter se espalhado em todo o mundo. “Aparentemente, as grandes decisões são tomadas por poucos e, muitas vezes, em detrimento do bem comum, o que parece ser um destino inevitável”, indicou.

Contudo, o Líbano pode se orgulhar de uma sociedade civil vivaz, bem formada, rica em jovens capazes de expressar os sonhos e as esperanças de todo um país, sinalizou Leão XIV. “Encorajo-vos, portanto, a nunca vos separardes e a vos colocardes, com empenho e dedicação, ao serviço do vosso povo, tão rico na sua variedade. Que possais falar uma única língua: a língua da esperança, que faz com que todos se unam para recomeçar sempre de novo”, exortou.

Verdade e reconciliação

A segunda característica dos promotores da paz citada por Leão XIV é a reconciliação. Ele reconheceu que existem feridas pessoais e coletivas que exigem longos anos para cicatrizar e, se não forem trabalhadas de forma a aproximar aqueles que sofreram ofensas e injustiças, dificilmente se alcançará a paz.

“A verdade, em vez disso, só pode ser honrada através do encontro. Cada um de nós vê uma parte da verdade, conhece um dos seus aspectos, mas não pode renunciar ao que só o outro sabe, ao que só o outro vê. A verdade e a reconciliação sempre crescem somente se estão juntas: numa família, entre as diferentes comunidades e as várias almas de um país ou entre as nações”, declarou o Papa.

Ao mesmo tempo, prosseguiu, não há reconciliação sem uma meta comum. “Por isso, uma cultura da reconciliação não nasce apenas de baixo, da disponibilidade e da coragem de alguns, mas precisa de autoridades e instituições que reconheçam o bem comum como superior ao bem parcial. O bem comum é mais do que a soma de muitos interesses: aproxima o mais possível os objetivos de cada um e move-os numa direção em que todos terão mais do que se seguissem em frente sozinhos”, pontuou o Santo Padre.

Ele salientou que a paz é mais do que um precário equilíbrio, mas saber viver juntos, em comunhão, como pessoas reconciliadas. Tal reconciliação, além de levar à convivência, também ensina a trabalhar de forma conjunta por um futuro comum, partilhado. “A paz torna-se aquela abundância que nos surpreende quando o nosso horizonte se amplia além de qualquer circunscrição e barreira”, exprimiu.

Permanecer mesmo no sacrifício

Por fim, a terceira característica listada por Leão XIV é a capacidade de permanecer, mesmo que seja necessário sacrificar-se. “Há momentos em que é mais fácil fugir ou, simplesmente, mais conveniente ir para outro lugar”, reconheceu. “É preciso muita coragem e visão de futuro para permanecer ou regressar ao próprio país, considerando dignas de amor e dedicação mesmo determinadas condições bastante difíceis”, acrescentou o Papa.

O Pontífice observou que a Igreja não se preocupa apenas com a dignidade daqueles que se deslocam para países diferentes do seu, mas deseja que ninguém seja obrigado a partir e que todos aqueles que o desejem possam regressar em segurança.

“A mobilidade humana representa uma imensa oportunidade de encontro e de enriquecimento mútuo, mas não apaga o vínculo especial que une cada um a determinados lugares, aos quais deve a sua identidade de uma forma totalmente peculiar. E a paz cresce sempre num contexto vital concreto, feito de laços geográficos, históricos e espirituais”, sinalizou.

Diante disso, o Santo Padre apontou o desafio de fazer com que os jovens não se sintam obrigados a abandonar a sua terra e emigrar. Ele também sublinhou o papel das mulheres, que têm uma capacidade específica de promover a paz, porque sabem conservar e desenvolver laços profundos com a vida, com as pessoas e com os lugares. “A participação delas na vida social e política, bem como na vida das suas comunidades religiosas, à semelhança da energia que emana dos jovens, representa em todo o mundo um fator de verdadeira renovação”, expressou.

Paz, caminho movido pelo Espírito

Leão XIV finalizou seu discurso citando um importante traço cultural libanês: a música, dom que vem de Deus assim como a paz. “É como um movimento interior que se derrama para o exterior, permitindo-nos ser guiados por uma melodia maior do que nós mesmos: a do amor divino. Quem dança avança com leveza, sem pisar o chão, harmonizando seus passos com os dos outros”, manifestou.

“Assim é a paz: um caminho movido pelo Espírito, que coloca o coração em escuta e o torna mais atento e respeitoso para com o outro. Que cresça entre vós este desejo de paz que nasce de Deus e pode transformar, já hoje, a maneira de olhar para os outros e de habitar juntos esta Terra que Ele ama profundamente e continua a abençoar”, concluiu o Papa.

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