Papa no Iraque

Iraque: diferenças não devem gerar conflitos, mas cooperação, diz Papa às autoridades

Discurso do Papa às autoridades, sociedade civil e corpo diplomático do Iraque foi o primeiro oficial no país

Da redação, com Santa Sé

Papa às autoridades

Discurso do Papa às autoridades, sociedade civil e corpo diplomático do Iraque foi o primeiro oficial no país./ Foto: Reuters

Nesta sexta-feira, 5, após chegar ao Iraque, o Papa se encontrou com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático do país. O encontro aconteceu no salão do Palácio Presidencial, em Bagdá.

A visita é a primeira de um Pontífice ao país, e a primeira de Francisco após o início da pandemia. A 33ª Viagem Apostólica do Papa tem como lema: “Sois todos irmãos”.  

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O presidente Barham Ahmed Salih Qassim deu as boas vindas ao Papa, e falou da felicidade de receber o Pontífice na região. “Obrigado por aceitar nosso convite e por fazer-nos esta visita. Isso é prova de sua preocupação para com o Iraque. (…) O senhor é um grande e querido hóspede.”

Francisco iniciou seu discurso agradecendo a oportunidade de estar no país. Afirmou ser uma viagem “longamente esperada e desejada” ao Iraque. Lembrou que a região é berço de uma civilização estreitamente ligada, através do Patriarca Abraão e de numerosos profetas, à história da salvação e às grandes tradições religiosas do Judaísmo, Cristianismo e Islão.

O Papa agradeceu ao presidente pelo convite e pelas boas vindas, e saudou os presentes. Ele se dirigiu às autoridades religiosas, dentre elas também membros de outras igrejas cristãs e tradições religiosas. Francisco colocou-se como peregrino para animar o testemunho da fé, esperança e caridade. 

“Que Deus nos faça caminhar juntos, como irmãos e irmãs, na ‘forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz, (…) do  conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum'”, disse o Papa, cintando o Documento sobre a Fraternidade Humana.

Pandemia

O Papa lembrou que essa visita acontece em um momento em que o mundo inteiro está procurando sair da crise pandêmica de covid-19. Crise esta que não só atingiu a saúde de muitas pessoas, mas provocou também o deterioramento das condições sociais e econômicas já contusas por fragilidade e instabilidade.

“Esta crise requer da parte de cada um esforços conjuntos para se realizar os inúmeros passos necessários, incluindo uma justa distribuição das vacinas para todos. Mas não basta! Esta crise é, sobretudo, um apelo a repensar os nossos estilos de vida, o sentido da nossa existência. Trata-se de sair deste tempo de provação melhores do que éramos antes; de construir o futuro mais sobre o que nos une do que sobre o que nos divide”, salientou.

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Iraque

Francisco mencionou os sofrimentos do Iraque nas últimas décadas em virtude de guerras e terrorismo. E os danos não foram só materiais, mas mais profundos quando se pensa nas feridas no coração das pessoas. 

O Papa recordou, dentre os tantos que sofreram, os yazidis, vítimas inocentes de uma barbárie insensata e desumana. Povo perseguido e morto por causa da sua filiação religiosa, estando em risco a sua própria identidade e sobrevivência.

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“Somente se conseguirmos olhar-nos uns aos outros, com as respetivas diferenças, como membros da mesma família humana, é que poderemos iniciar um efetivo processo de reconstrução e deixar às gerações futuras um mundo melhor, mais justo e mais humano.”

Diálogo

A diversidade religiosa, cultural e étnica, que há milênios caracteriza a sociedade iraquiana – frisou o Papa- é um recurso precioso de que se deve lançar mão, e não um obstáculo a ser eliminado.

“Hoje, o Iraque é chamado a mostrar a todos, especialmente no Médio Oriente, que as diferenças, em vez de gerar conflitos, devem cooperar harmoniosamente na vida civil.”

O Papa afirmou que a convivência fraterna precisa do diálogo paciente e sincero, tutelado pela justiça e o respeito do direito.

“Não é uma tarefa fácil: exige esforço e empenho por parte de todos para superar rivalidades  e contrastes e dialogar a partir da identidade mais profunda que temos: a de filhos do único Deus e Criador”.

O Papa lembrou que a Santa Sé não se cansa de apelar às autoridades competentes no Iraque, como noutros lugares, para que concedam a todas as comunidades religiosas reconhecimento, respeito, direitos e proteção.

Solidariedade

O Papa afirmou que em uma sociedade que se distingue pela unidade fraterna, os seus membros vivem solidariamente entre si. Citou a mensagem para o Dia Mundial da Paz, que diz que ‘a  solidariedade ajuda-nos a ver o outro como nosso próximo, companheiro de viagem’. 

Ele também recordou os que perderam familiares e entes queridos, casa e bens primários, por causa da violência, da perseguição e do terrorismo no país. Citou ainda a realidade dos que lutam diariamente à procura de segurança e meios necessários para sobreviver, enquanto aumentam o desemprego e a pobreza.

“O fato de nos sabermos responsáveis pela fragilidade dos outros deveria inspirar todos os esforços para criar oportunidades concretas tanto no plano econômico como no campo da educação, e também no cuidado da criação, a nossa casa comum. Depois duma crise, não basta reconstruir; é preciso fazê-lo bem, de modo que todos possam ter uma vida digna. Duma crise, não se sai igual ao que se era antes: sai-se ou melhor ou pior.”

E lembrou a necessidade de uma política sadia, que dê esperança ao povo. “Como responsáveis políticos e diplomáticos, sois chamados a promover este espírito de solidariedade fraterna”. 

Peregrino da Paz

“Venho como penitente que pede perdão ao Céu e aos irmãos por tanta destruição e crueldade. Como peregrino de paz, em nome de Cristo, Príncipe da Paz.”

Francisco lembrou que há muitos anos se reza pela paz no Iraque. Recordou que o Papa João Paulo II não se poupou a iniciativas, e sobretudo ofereceu súplicas e sofrimentos por isso.

“E Deus escuta; escuta sempre! Cabe a nós ouvir a Ele, andar nos Seus caminhos. Calem-se as armas! Limite-se a sua difusão, aqui e em toda a parte! Cessem os interesses de parte, os interesses externos que se desinteressam da população local. Dê-se voz aos construtores, aos artífices da paz; aos humildes, aos pobres, ao povo simples que quer viver, trabalhar, rezar em paz! Chega de violências, extremismos, facções, intolerâncias! Dê-se espaço a todos os cidadãos que querem construir juntos este país, no diálogo, no confronto franco e sincero, construtivo. Quem se empenha pela reconciliação e o bem comum esteja disposto a deixar os seus interesses de lado.”

Sociedade

O Papa salientou que, nesses anos, o Iraque procurou lançar as bases para uma sociedade democrática. Neste sentido, é indispensável assegurar a participação de todos os grupos políticos, sociais e religiosos e garantir os direitos fundamentais de todos os cidadãos. 

“Que ninguém seja considerado cidadão de segunda classe. Animo os passos dados até agora neste caminho e espero que reforcem a serenidade e a concórdia.”

Em seu discurso, reforçou que a comunidade internacional tem um papel decisivo a desempenhar. Especialmente na promoção da paz no Iraque e em todo o Médio Oriente. Recordou o conflito na Síria, país vizinho, que já dura dez anos. O Papa lembrou que os esforços exigem uma cooperação à escala global. Enfrentar também as desigualdades econômicas e as tensões regionais que ameaçam a estabilidade da região.

Agradeceu aos Estados e às Organizações Internacionais que trabalham em prol da reconstrução do Iraque. Que dão assistência aos refugiados, aos deslocados internos e àqueles que têm dificuldade em retornar à própria casa. Que disponibilizam alimentos, água, abrigo, serviços de saúde e saneamento no país. E também programas visando a reconciliação e a construção da paz.

Assistência

O Papa recordou, ainda, as numerosas agências, entre as quais se contam diversas católicas, que há anos assistem com grande empenho as populações civis:

“Atender às necessidades essenciais de tantos irmãos e irmãs é um ato de caridade e justiça. Contribui para uma paz duradoura. Espero que as nações não retirem a mão amiga e construtora estendida ao povo iraquiano. Mas continuem a operar em espírito de responsabilidade comum com as autoridades locais, sem impor interesses políticos ou ideológicos.”

Francisco afirmou que a religião, por sua natureza, deve estar ao serviço da paz e da fraternidade. ‘O nome de Deus não pode ser usado para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão’, disse, citando o Documento sobre a Fraternidade Humana.

E disse: “Pelo contrário, Deus, que criou os seres humanos iguais em dignidade e direitos, chama nos a difundir amor, benevolência, concórdia. Também no Iraque, a Igreja Católica deseja ser amiga de todos. Através do diálogo, colaborar de forma construtiva com as outras religiões, para a causa da paz.”

O Papa lembrou a antiga presença dos cristãos no país. “A sua participação na vida pública, como cidadãos que gozam plenamente de direitos, liberdades e responsabilidades, testemunhará que um são pluralismo religioso, étnico e cultural pode contribuir para a prosperidade e a harmonia do país.”

Por fim, o Papa agradeceu pelos esforços das autoridades na edificação de uma sociedade caracterizada pela unidade fraterna, a solidariedade e a concórdia. “Nobre obra é o vosso serviço ao bem comum. Peço a Deus Onipotente que vos sustente nas vossas responsabilidades e guie a todos pelo caminho da sabedoria, da justiça e da verdade. Sobre cada um de vós, vossas famílias e entes queridos e sobre todo o povo iraquiano, invoco a abundância das bênçãos divinas.”

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