Íntegra

Discurso do Papa ao Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização

Videomensagem do Papa pela beatificação de mártires espanhóisDISCURSO
Audiência com os participantes da Plenária do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal

Queridos irmãos e irmãs,

Saúdo todos vocês e agradeço-vos por aquilo que fazem a serviço da nova evangelização e pelo trabalho do Ano da Fé. Obrigado de coração! O que gostaria de dizer-vos hoje pode se resumir em três pontos: o primado do testemunho; urgência de ir ao encontro; projeto pastoral centrado no essencial.

1. No nosso tempo verifica-se muitas vezes uma atitude de indiferença para com a fé, considerada não mais relevante na vida do homem. Nova evangelização significa despertar no coração e na mente dos nossos contemporâneos a vida da fé. A fé é um dom de Deus, mas é importante que nós cristãos mostremos viver de modo concreto a fé, através do amor, da concórdia, da alegria, do sofrimento, porque isto suscita perguntas, como no início do caminho da Igreja: por que vivem assim? O que os move? São interrogações que levam ao coração da evangelização, que é o testemunho da fé e da caridade. Aquilo de que precisamos, especialmente nestes tempos, são testemunhos credíveis que com a vida e com a palavra tornam visível o Evangelho, despertam a atração por Jesus Cristo, pela beleza de Deus.

Tantas pessoas se afastaram da Igreja. É errado colocar a culpa em uma parte ou em outra, não é o caso de falar de culpa. Há responsabilidades na história da Igreja e do seu povo, em certas ideologias e também em pessoas individuais. Como filhos da Igreja, devemos continuar o caminho do Concílio Vaticano II, desprender-nos de coisas inúteis e danosas, de falsas seguranças mundanas que dificultam a Igreja e danificam a sua verdadeira face.

Há necessidade de cristãos que tornem visível aos homens de hoje a misericórdia de Deus, a sua ternura por cada criatura. Todos sabemos que a crise da humanidade contemporânea não é superficial, é profunda. Por isso a nova evangelização, enquanto chama a ter coragem de ir contracorrente, de converter-se dos ídolos ao único e verdadeiro Deus, não pode deixar de usar a linguagem da misericórdia, feita de gestos e de atitudes antes ainda que de palavras. A Igreja em meio à humanidade de hoje nos diz: Venham a Jesus, vós todos que estais cansados e oprimidos, e encontrareis descanso para as vossas almas (cfr Mt 11, 28-30). Venham a Jesus. Só Ele tem palavras de vida eterna.

Cada batizado é “cristóforo”, isso é, portador de Cristo, como diziam os antigos padres. Quem encontrou Cristo, como a Samaritana no poço, não pode reter para si esta experiência, mas sente o desejo de partilhá-la, para levar outros a Jesus (cfr Jo 4). Todos hão de se perguntar se quem nos encontra percebe na nossa vida o calor da fé, vê na nossa face a alegria de ter encontrado Cristo!

2. Aqui passamos para o segundo aspecto: o encontro, ir ao encontro dos outros. A nova evangelização é um movimento renovado para quem perdeu a fé e o sentido profundo da vida. Este dinamismo faz parte da grande missão de Cristo de levar a vida ao mundo, o amor do Pai à humanidade. O Filho de Deus “saiu” da sua condição divina e veio ao nosso encontro. A Igreja está dentro deste movimento, cada cristão é chamado a ir ao encontro dos outros, a dialogar com aqueles que não a pensam como nós, com aqueles que têm outra fé, ou que não têm fé. Encontrar todos, porque temos em comum o sermos criados à imagem e semelhança de Deus. Podemos ir ao encontro de todos, sem medo e sem renunciar à nossa crença.

Ninguém é excluído da esperança da vida, do amor de Deus. A Igreja é enviada a despertar em todo lugar esta esperança, especialmente onde é sufocada por condições existenciais difíceis, às vezes desumanas, onde a esperança não respira, sufoca. É preciso o oxigênio do Evangelho, do sopro do Espírito de Cristo Ressuscitado, que a reacenda nos corações. A Igreja é a casa na qual as portas estão sempre abertas não somente para que cada um possa encontrar acolhimento e respirar amor e esperança, mas para que possamos sair e levar este amor e esta esperança. O Espírito Santo nos impele a sair do nosso recinto e nos guia até as periferias da humanidade.

3. Tudo isto, porém, na Igreja não é deixado ao acaso, ao improviso. Exige o empenho comum em um projeto pastoral que atente ao essencial e que seja bem centrado no essencial, isso é, em Jesus Cristo. Não adianta gastar tanto tempo com coisas secundárias ou supérfluas, mas concentrar-se na realidade fundamental que é o encontro com Cristo, com a sua misericórdia, com o seu amor e amar os irmãos como Ele nos amou. Um encontro com Cristo que é também adoração, palavra pouco usada: adorar Cristo. Um projeto animado pela criatividade e pela fantasia do Espírito Santo, que nos impele também a percorrer caminhos novos, com coragem, sem nos fossilizarmos! Podemos nos perguntar: como é a pastoral das nossas dioceses e paróquias? Torna visível o essencial, isso é, Jesus Cristo? As diversas experiências, características, caminham juntas na harmonia que dá o Espírito Santo? Ou a nossa pastoral é dispersa, fragmentada para que, enfim, cada um vá por conta própria?

Nisto gostaria de destacar a importância da catequese, como momento de evangelização. O Papa Paulo VI já fez isso na Evangelii nuntiandi (cfr n. 44). Dali o grande movimento catequético tem levado adiante uma renovação para superar a ruptura entre Evangelho e cultura e analfabetismo dos nossos dias em matéria de fé. Recordei muitas vezes um fato que me impressionou no meu ministério: encontrar crianças que não sabiam ao menos fazer o Sinal da Cruz! Nas nossas cidades! É um trabalho precioso para a nova evangelização aquele que desenvolvem os catequistas, e é importante que os pais sejam os primeiros catequistas, os primeiros educadores da fé na própria família com o testemunho e com a palavra.

Obrigado por esta visita. Bom trabalho! O Senhor vos abençõe e Nossa Senhora vos proteja.

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