Tempo de qualidade

Presença genuína com as crianças é o melhor das férias, diz psicóloga

Além dos cuidados com acidentes em casa, que aumentam muito nesta época, é interessante que os pais também se dediquem às brincadeiras e lazer com os filhos

Thiago Coutinho
Da redação

As brincadeiras que envolvem pais e mães podem ser ajudar a fortalecer os laços com as crianças / Foto: pvproductions por Freepik

As férias escolares são sinônimo de descanso e diversão para as crianças, mas trabalho dobrado para os pais. Com horas a mais em casa, os tutores precisam ser engenhosos ao otimizar o tempo dos filhos em casa.

Além da criatividade para entreter a garotada, a segurança das crianças é também outro item a se atentar. Os acidentes domésticos costumam crescer nesta época. Os mais comuns são quedas, queimaduras e intoxicações — confira quadro abaixo.

“Todas as crianças devem estar sob a responsabilidade de alguém”, afirma Eliezer Nunes Moreira, bombeiro civil. “Assim, nada grave pode acontecer. É importante também não deixar deixar crianças sozinhas em casa, mesmo que seja por um pequeno período”, salienta.

Outro detalhe que Moreira pede aos pais é estarem atentos à segurança de onde as crianças brincam. “Antes de liberar as crianças para brincar, verificar se o local está seguro. Assegurar-se de que não tenha nada que possa machucá-los”, diz o bombeiro. “É sempre bom orientá-los do risco, principalmente quando forem manusear algo quente, que pode gerar queimaduras, ou locais escorregadios, como banheiros”. Confira no quadro abaixo algumas dicas para evitar acidentes com crianças em casa.

Desenvolvimento emocional e cognitivo

Além das preocupações com relação ao ambiente, é também importante distrair as crianças que passarão mais tempo em casa. “Antes de tudo, vale destacar a importância de que a criança tenha um momento de parada”, alerta Ana Melo, psicóloga clínica e escolar. “As férias escolares representam uma pausa da rotina cotidiana e das exigências próprias do contexto escolar, abrindo espaço para experiências mais livres, prazerosas e com menor grau de demandas”.

Essas brincadeiras, segundo a psicóloga, devem favorecer uma interação mais saudável. “E podem se tornar um importante elemento para o desenvolvimento emocional e cognitivo”, ressalta.

Além disso, é importante que os pais estejam junto às crianças. Isto será um dos pilares de um bom desenvolvimento infantil. “Cabe ressaltar, entretanto, que também é sinal de saúde que a criança consiga brincar sozinha de forma autêntica. Esses momentos favorecem a criatividade, a invenção de novas formas de se entreter e o desenvolvimento da autonomia e da independência. Um bom equilíbrio entre o tempo de brincar junto e o tempo de brincar sozinho é decisivo para o desenvolvimento infantil como um todo”, lembra Ana.

A psicóloga Ana Melo / Foto: Arquivo Pessoal

Organizando a rotina

Para a especialista, o sucesso das férias em família reside no equilíbrio sensível entre a organização e a espontaneidade, especialmente em lares com múltiplas crianças. O planejamento prévio, que inclui ouvir os diferentes desejos e ritmos de cada filho, é apontado como uma estratégia eficaz para evitar conflitos e alinhar expectativas antes do início do descanso.

“Muitas famílias têm mais de uma criança em casa, cada uma com seus desejos, ritmos e expectativas em relação às férias. Por isso, reservar um tempo para conversar em família sobre o que será feito pode ser bastante benéfico”, diz Ana.

Contudo, essa estrutura não deve se converter em um cronograma inflexível que sufoque o lazer. Conforme destaca a psicóloga, “é fundamental que essa programação não se torne excessiva ou rígida, pois as férias pedem mais flexibilidade para que adultos e crianças vivenciem o período de forma leve”. Assim, a capacidade de lidar com imprevistos e a liberdade de desfrutar o tempo de maneira orgânica surgem como os principais pilares para o bem-estar coletivo.

A importância da família nas brincadeiras

Sob a ótica da psicanálise, o ato de brincar transcende o simples entretenimento, consolidando-se como a ferramenta primordial para a criança processar experiências e desenvolver seu potencial criativo. A presença ativa dos pais nesse universo lúdico é vista como um pilar para a saúde mental infantil, pois a disponibilidade do adulto em “jogar o jogo” transmite uma mensagem poderosa de acolhimento e valorização. Segundo a psicóloga, essa interação exige uma entrega que vai além da presença física.

“Quando se propõe a brincar, é essencial que o faça de forma genuína — sem o celular na mão ou outras distrações — priorizando o prazer compartilhado e a experiência afetiva vivida em família”, afirma. Dessa forma, ao priorizar o brincar livre e espontâneo em vez de preocupações meramente pedagógicas, as famílias fortalecem vínculos e constroem um ambiente de segurança emocional essencial para a organização psíquica dos pequenos.

O excesso das telas

O uso descontrolado de telas durante as férias escolares tem acendido um alerta entre especialistas, devido aos danos já conhecidos ao sono, à atenção e à regulação emocional das crianças. Com a ausência da rotina escolar, o tempo livre ocioso torna-se um convite ao consumo digital excessivo, exigindo que os responsáveis busquem alternativas em atividades ao ar livre e passeios simples para ampliar o repertório de experiências dos filhos.

Além da busca por entretenimento, os especialistas defendem que permitir momentos de ócio é um passo crucial para o amadurecimento cognitivo: “Sentir tédio também faz parte do desenvolvimento infantil e é justamente a partir dele que a criança é convocada a inventar, criar e encontrar novas formas de lidar com o tempo”, destaca Melo. Ao resgatar o valor do tédio como um estímulo à criatividade, as famílias podem transformar o vazio da programação em uma oportunidade para o florescimento da invenção infantil.

Férias sem grandes investimentos

Para além da busca por grandes roteiros de viagem, o bem-estar infantil nas férias está profundamente ancorado na construção de memórias afetivas por meio do convívio diário e participativo. São essas memórias que farão diferença ao adulto que a criança será no futuro.

Especialistas apontam que a inclusão dos pequenos nas dinâmicas da casa — transformando tarefas comuns em momentos de lazer — é uma das formas mais eficazes de fortalecer o sentimento de pertencimento e segurança. Segundo a psicóloga Ana Melo, a eficácia dessas experiências reside na entrega emocional e na simplicidade do vínculo. “Atividades simples do cotidiano podem se tornar altamente prazerosas e significativas — como fazer um bolo juntos, lavar a louça ou contar histórias — pois o que importa é o tempo de qualidade que a criança passa com seus cuidadores”, explica. Assim, ao valorizar o “tempo de qualidade” em detrimento do entretenimento comercial, a família transforma o período de descanso em uma oportunidade real de integração e desenvolvimento emocional.

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