Mascarar a dor com analgésicos e laxantes pode causar o rompimento do apêndice, elevando drasticamente o risco de peritonite e sepse
Thiago Coutinho
Da redação

O Brasil registra 97 mil procedimentos anuais relacionados à apendicite / Foto: Sasun Bughdaryan por Unsplash
Segundo estimativas do Ministério da Saúde, a apendicite é a principal causa de cirurgia abdominal de emergência no Brasil, com mais de 97 mil procedimentos realizados anualmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A apendicite aguda — enquadrada no grupo do chamado “abdome agudo cirúrgico”, que reúne quadros abdominais graves não traumáticos com indicação de cirurgia imediata — atinge principalmente jovens e adultos entre 10 e 30 anos, embora possa ocorrer em qualquer idade.
É muito comum que, no início, as pessoas confundam os sintomas com os de uma cólica comum. Mas a dor que caracteriza a apendicite é ligeiramente diferente e segue um padrão distinto. “A dor da apendicite costuma ter um padrão bastante característico, mas pode variar conforme a idade, o sexo do paciente e a fase do quadro, pois os sintomas mudam à medida que a doença evolui”, explica André Augusto Pinto, cirurgião do aparelho digestivo.
De acordo com o especialista, nas primeiras horas o incômodo se concentra em torno do umbigo ou na região central do abdômen. Conforme a inflamação avança, num intervalo entre 6 e 24 horas, a dor migra para a parte inferior direita do abdome, tornando-se mais intensa, localizada e contínua. “Ao contrário das cólicas intestinais, que costumam oscilar em intensidade e melhorar após a evacuação ou a eliminação de gases, a dor da apendicite tende a piorar progressivamente. Além disso, pode ser acompanhada de perda de apetite, náuseas, vômitos e febre baixa”, detalha o médico.
Outro sinal importante, aponta o cirurgião, é que movimentos simples, como caminhar, tossir ou pular, costumam aumentar significativamente o desconforto. “Diante desse conjunto de sintomas, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente, sem tentar tratar o quadro em casa.”
Diante de dores assim, é corriqueiro recorrer a analgésicos, antiespasmódicos ou laxantes. “Mas, se os sintomas persistirem, piorarem com o tempo ou forem diferentes daqueles desconfortos crônicos — como a obstipação intestinal ou patologias como a endometriose —, não espere: procure um pronto-socorro ou um cirurgião geral/do aparelho digestivo”, recomenda André Augusto.
O perigo da automedicação
Ingerir analgésicos, antiespasmódicos ou laxantes por conta própria ao sentir dor abdominal é um hábito perigoso, pois pode mascarar os sintomas e fazer o paciente perder a janela ideal de tempo para o diagnóstico.
“A automedicação pode atrasar o diagnóstico e aumentar o risco de complicações. Como a doença é evolutiva, a inflamação ganha intensidade e pode se transformar em uma infecção grave, evoluindo para septicemia e até óbito em casos muito avançados”, alerta o especialista.
Analgésicos e antiespasmódicos reduzem temporariamente a dor, enquanto laxantes aumentam a pressão intraintestinal e agravam o quadro inflamatório. “Enquanto os sintomas ficam mascarados, a inflamação continua evoluindo e pode culminar na perfuração do apêndice. Quanto mais precoce for o diagnóstico, menores serão as chances de complicações e mais simples costuma ser o tratamento.”
Atraso no diagnóstico
O Ministério da Saúde alerta para o risco de complicações graves decorrentes do atraso no diagnóstico. Quando o apêndice inflama a ponto de romper — a conhecida apendicite supurada —, a falta de tratamento oportuno pode ser fatal.
“Quando a inflamação progride sem tratamento, ela piora e se transforma em uma infecção que começa local, espalha-se ao redor do apêndice e gera peritonite difusa por todo o abdome, podendo levar à septicemia e ao óbito, já que o órgão pode sofrer necrose e perfuração”, explica o médico. “Nesse momento, bactérias e conteúdo intestinal extravasam para a cavidade abdominal, provocando peritonite, que é uma infecção grave do revestimento interno do abdômen.”
Em alguns casos, o organismo consegue limitar parcialmente a infecção formando um abscesso; em outros, há uma disseminação ampla do quadro, capaz de evoluir para sepse, insuficiência de múltiplos órgãos e morte. “Por isso, a apendicite é considerada uma emergência cirúrgica. O tratamento precoce reduz significativamente o risco dessas complicações e melhora o prognóstico do paciente”, afirma.
Como prevenir
Não existe uma forma comprovadamente eficaz de prevenir a doença, embora uma alimentação rica em fibras seja benéfica para a saúde intestinal de maneira geral. “No entanto, não há evidências científicas robustas de que a dieta impeça o desenvolvimento da apendicite”, pontua o médico.
Segundo o cirurgião, há uma discreta predominância da doença no sexo masculino, “mas a diferença não é suficiente para caracterizar um grupo de risco exclusivo”. A maior incidência permanece entre jovens e adultos de 10 a 30 anos.
Tratamento
A cirurgia de apendicite ainda gera receio na população, mas o tratamento evoluiu significativamente nas últimas décadas. “Atualmente, a videolaparoscopia é a técnica de escolha, desde que haja equipe treinada, equipamentos disponíveis e ausência de contraindicações. No SUS, sua utilização vem crescendo progressivamente, em especial em hospitais de média e alta complexidade, embora a cirurgia aberta ainda seja realizada em algumas unidades, sobretudo em urgências ou locais sem a tecnologia minimamente invasiva.”
O ponto crucial, contudo, continua sendo o diagnóstico precoce. “Assim, a cirurgia pode ser realizada nas fases iniciais da apendicite, independentemente da técnica. É isso que garante um procedimento de baixa complexidade e uma boa recuperação do paciente. Nos casos graves, com abscesso e peritonite, as complicações cirúrgicas podem aumentar muito”, adverte.
As vantagens da videolaparoscopia são marcantes: incisões menores, menos dor no pós-operatório, menor risco de infecção da ferida operatória, recuperação rápida e melhor resultado estético. “Em quadros não complicados, muitos pacientes recebem alta em 24 a 48 horas. O retorno às atividades leves costuma ocorrer entre uma e duas semanas, enquanto exercícios mais intensos são liberados entre três e seis semanas, a depender da evolução clínica. Já em casos de apendicite perfurada ou com complicações, o período de recuperação pode ser mais prolongado”, finaliza o cirurgião.