Às vésperas da chegada do Papa à América Latina, Guzmán Carriquiry, ex-embaixador do Uruguai junto à Santa Sé, refletiu sobre o potencial da viagem
Da redação, com Vatican News

Guzmán Carriquiry, ex-embaixador do Uruguai junto à Santa Sé / Foto: Reprodução Youtube Rome Reports
O povo da América Latina sempre acolheu os sucessores de Pedro “de braços abertos, com afeto e devoção”, segundo o Dr. Guzmán Carriquiry.
O ex-secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina e ex-embaixador do Uruguai junto à Santa Sé afirmou que a primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV à América Latina será muito mais do que uma visita a três países: Uruguai, Argentina e Peru.
De 6 a 17 de novembro, o Papa encontrará uma Igreja e um povo chamados a renovar sua esperança, reacender sua fé e enfrentar os desafios sociais que o continente atravessa.
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Às vésperas desta peregrinação, o Sr. Carriquiry, que possui profundo conhecimento tanto da América Latina quanto da Santa Sé, compartilhou suas reflexões sobre o significado de uma viagem cuja passagem pelo Uruguai terá uma ressonância especial.
Ele acredita que a escolha do país não é por acaso: o Papa iniciará sua jornada em uma terra cuja tradição católica está enraizada nas próprias origens da nação.
Nossa Senhora dos Trinta e Três: No coração da nação
No dia 8 de novembro, o Papa Leão XIV presidirá uma celebração eucarística em Florida, junto ao Santuário de Nossa Senhora dos Trinta e Três, padroeira do Uruguai. A pequena imagem de Maria, que remonta à tradição guarani, ocupa um lugar singular na memória espiritual e nacional dos uruguaios. Sua história está ligada à luta do país pela independência.
Como recordou o Sr. Carriquiry, a imagem acompanhou os líderes daquela luta e esteve presente durante os acontecimentos de 1825, quando os “Trinta e Três Orientais” iniciaram sua campanha e a independência foi proclamada. Desde então, a Virgem Maria tem sido uma presença muito querida por gerações de uruguaios.
“Desde aquele momento, Nossa Senhora dos Trinta e Três — um belo título de Maria — tem acompanhado a história do povo uruguaio”, disse ele.
Para o Sr. Carriquiry, a decisão do Papa de iniciar sua visita à América Latina diante desta imagem de Nossa Senhora oferece uma oportunidade extraordinária de redescobrir uma memória que compõe o patrimônio espiritual do país. Em vez de olhar para o passado, trata-se de permitir que a história fale novamente ao presente e suscite novas questões sobre a fé.
Uruguai: um desafio para a Igreja
A visita papal também colocará em evidência uma realidade singular na América Latina. O Uruguai é um dos países mais secularizados da região, resultado de um processo histórico marcado, desde o final do século XIX e início do século XX, por uma forte secularização e por uma crescente separação entre a vida pública e a tradição religiosa.
O Sr. Carriquiry avalia que esse processo não apenas enfraqueceu a presença institucional da Igreja, mas também sufocou, gradualmente, as indagações e preocupações religiosas em amplos setores da sociedade, especialmente entre as classes trabalhadoras.
Nesse contexto, recordo a descrição feita pelo cardeal Daniel Sturla sobre a Igreja em Montevidéu: “Minha Igreja em Montevidéu é uma Igreja pobre, livre, pequena; muito pequena, muito pequena”.
Essa descrição revela a fragilidade de uma comunidade que precisa anunciar o Evangelho em uma sociedade onde a prática religiosa entrou em declínio. Contudo, aponta também para uma missão que, na visão do Sr. Carriquiry, permanece essencial: ajudar os uruguaios a se reconectarem com as raízes cristãs de sua história e a descobrirem o significado delas para a vida atual.
“A Igreja é a parteira da nação”, afirmou ele, referindo-se à contribuição da tradição católica para o desenvolvimento histórico do Uruguai — desde os primeiros franciscanos até José Gervasio Artigas e os líderes do movimento de independência.
A celebração em Florida, portanto, pode tornar-se um momento de especial importância para redescobrir esse legado e trazê-lo de volta à consciência do povo.
O Sr. Carriquiry espera que a presença do Papa ajude a tradição católica a “tocar corações, despertar consciências, suscitar indagações religiosas e reacender a fé entre os uruguaios”.
Reacender a fé e tratar as feridas sociais
O que se pode esperar das palavras do Papa durante seus encontros com as comunidades latino-americanas?
O Sr. Carriquiry aponta dois grandes desafios: colocar Jesus Cristo, mais uma vez, no centro da vida das pessoas e enfrentar as profundas feridas sociais que afetam o continente.
O primeiro deles é renovar o encontro com Jesus Cristo, “Salvador, Senhor da História”. Ao longo desse caminho, a piedade popular constitui uma fonte de riqueza que a Igreja é chamada a acompanhar e evangelizar, particularmente em países como o Peru, onde as expressões de fé fazem parte do cotidiano de muitas comunidades.
A questão, como expliquei, não é simplesmente preservar uma tradição, mas ajudar a fé a tornar-se uma fonte de vida nova e de compromisso pessoal, familiar e comunitário.
Mesmo em países onde uma grande parcela da população é batizada, a queda no número de pessoas que se identificam como católicas levanta questionamentos sobre a transmissão da fé e a capacidade das comunidades cristãs de inspirar um encontro vivo com o Senhor.
Além desse desafio espiritual, o Papa encontrará uma realidade social marcada pela desigualdade, pela pobreza e pela precariedade no trabalho.
O Sr. Carriquiry observou que quase metade dos trabalhadores latino-americanos atua na economia informal, muitas vezes em condições que mal lhes permitem a sobrevivência.
A preocupação com essas situações é inseparável do anúncio do Evangelho. A Igreja é chamada a acompanhar aqueles que sofrem, defender a dignidade humana e promover uma sociedade mais justa. Para o Sr. Carriquiry, contudo, o fundamento dessa missão reside no anúncio de Cristo: “Primeiro o Reino dos Céus, e todo o resto virá por acréscimo”.
Uma alegria que abraça a América Latina
Do Uruguai à Argentina e ao Peru, a primeira viagem do Papa à América Latina oferece uma oportunidade para renovar a esperança e fortalecer os laços entre a fé e o cotidiano das pessoas. Cada país enfrenta seus próprios desafios, mas todos compartilham a necessidade de anunciar o Evangelho em sociedades que passam por transformações.
No Uruguai, a visita ao Santuário de Nossa Senhora dos Trinta e Três evocará uma história na qual a fé e a construção da nação estiveram profundamente entrelaçadas. Será, também, um convite a olhar para o futuro e a indagar como esse legado pode, mais uma vez, falar aos corações das novas gerações.
Ao final da entrevista, o Sr. Carriquiry resumiu seu vínculo com o continente e sua confiança na missão da Igreja: “Nunca perdemos o entusiasmo quando falamos da América Latina”.




