Em Três Pontas (MG), Missa festiva recordou testemunho do sacerdote e convidou fiéis à perseverança, à caridade e à fidelidade a Cristo
Julia Beck
Da Redação

Imagem do Beato Padre Victor em Três Pontas (MG) /Foto: Reprodução TV Canção Nova
“Sem renúncia e cruz, nós não seremos bons discípulos”. A afirmação do padre Roberto Nogueira, da Diocese da Campanha (MG), marcou a homilia da Santa Missa festiva em honra ao Beato Padre Victor, cuja memória litúrgica é celebrada pela Igreja nesta quarta-feira, 23. Em Três Pontas (MG), cidade onde o beato viveu por mais de cinco décadas e exerceu seu ministério sacerdotal, o presbítero apresentou a trajetória do “Apóstolo da Caridade” como exemplo de perseverança, fidelidade e entrega a Deus mesmo diante das dificuldades.
“Somos chamados a trilhar o caminho que ele trilhou, de fidelidade, coragem, amor a Deus e ao próximo”, afirmou. Segundo ele, a vida de Padre Victor mostra que as tribulações não impedem o cristão de responder à vocação universal à santidade. “Não desanime, persevere, persista, porque a graça de Deus nos encoraja e dá força para seguir a missão”, exortou.
Uma vida transformada em caridade
Ao recordar o Salmo proclamado na celebração — “Feliz o homem caridoso e prestativo” —, padre Roberto destacou uma das características mais marcantes da vida do beato: a dedicação aos irmãos, especialmente aos mais necessitados.
“O Beato Padre Victor foi feliz e é feliz porque fez da sua vida um dom de caridade e entrega total ao Reino e aos irmãos, principalmente os que mais precisavam e sofriam”, ressaltou.
Francisco de Paula Victor nasceu em Campanha (MG), em 12 de abril de 1827, filho de Lourença Maria de Jesus, uma mulher escravizada. Ainda jovem, manifestou o desejo de ser sacerdote e, com o apoio de Dom Antônio Ferreira Viçoso, então bispo de Mariana (MG), ingressou no seminário. Ao longo de sua formação e de seu ministério, enfrentou preconceito e rejeição por ser negro e pobre. Foi ordenado sacerdote em 14 de junho de 1851 e, no ano seguinte, seguiu para Três Pontas, onde permaneceu por 53 anos.
Na cidade mineira, dedicou-se à evangelização, à educação e ao cuidado dos mais necessitados. Sua caridade e perseverança fizeram com que se tornasse uma referência para a população, apesar da resistência que enfrentou no início de seu ministério.
“Deixou rastros da ternura e da misericórdia”

Padre Roberto Nogueira /Foto: Reprodução TV Canção Nova
A partir da Segunda Leitura da celebração, padre Roberto também refletiu sobre os diferentes dons concedidos por Deus e a necessidade de colocá-los a serviço da Igreja e do Reino. Ao relacionar a passagem bíblica à trajetória do beato, destacou que Padre Victor não permitiu que as provações o afastassem de sua missão.
“Ele perseverou pela fé, nunca perdeu a perseverança e a alegria. Sempre confiou na graça de Deus. Por isso, hoje ele é exemplo, modelo de alguém que passou pelo mundo e deixou rastros da ternura e da misericórdia”, frisou.
O sacerdote também chamou a atenção para a acolhida oferecida pelos moradores de Três Pontas aos peregrinos que chegaram à cidade para a festa. Gestos simples, como oferecer água, café e alimento, foram apresentados como sinais concretos da caridade vivida pelo próprio beato.
Padre Roberto ressaltou, contudo, que é na Eucaristia que os cristãos encontram o alimento necessário para continuar a caminhada. “Aqui somos sustentados pela Eucaristia, o ápice da nossa fé. É a Eucaristia que dá força e coragem”, sublinhou.
A cruz como caminho de fidelidade
Outro ponto central da homilia foi o chamado de Jesus no Evangelho para que os discípulos renunciem a si mesmos, tomem a própria cruz e O sigam. Citando Santa Rosa de Lima, padre Roberto recordou que “a cruz é a escada que leva ao céu”.
O sacerdote explicou que isso não significa procurar o sofrimento, mas compreender a cruz como consequência da fidelidade a Cristo. Nesse sentido, destacou as dificuldades enfrentadas pelo Beato Padre Victor ao longo de sua vida.
“Quantas cruzes ele carregou: do preconceito, da indiferença, da rejeição”, recordou. Apesar delas, acrescentou o presbítero, Padre Victor permaneceu fiel e compreendeu que a cruz não deveria afastá-lo de Deus, mas uni-lo ainda mais ao Senhor. “Abraçando a cruz com amor aqui na terra de Três Pontas, por longos anos ele foi fiel seguidor de Cristo”, salientou.
Exemplo de perseverança
Ao concluir a homilia, padre Roberto retomou o convite feito por Cristo no Evangelho: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; quem perder a vida por causa de Jesus e do Reino vai encontrá-la”.
Para o sacerdote, a vida do Beato Padre Victor demonstra concretamente essa entrega. Seu testemunho, afirmou padre Roberto, convida os cristãos à perseverança, à coragem diante das tribulações e à fidelidade mesmo quando o seguimento de Cristo exige renúncias.
“O Beato Padre Victor viveu tudo isso e colocou em prática as palavras do Senhor (…). Deus caminha conosco e dá força para vencermos”, completou.
Padre Victor faleceu em Três Pontas em 23 de setembro de 1905, aos 78 anos, data escolhida para sua memória litúrgica. Reconhecido pela dedicação aos pobres e pela fama de santidade, foi beatificado em 14 de novembro de 2015, na mesma cidade onde exerceu a maior parte de seu ministério sacerdotal.




