Acolhimento

Setembro Amarelo: serviços de escuta oferecem apoio a quem sofre

CVV, Pastoral da Escuta e profissionais mostram como acolhimento e cuidado especializado podem ajudar pessoas em sofrimento

Julia Beck
Da Redação, com colaboração de Lorena Araújo

Mulher acolhe e segura as mãos de jovem durante momento de escuta e apoio emocional.

Acolhimento e escuta são formas de apoio emocional /Foto: Canva

A prevenção do suicídio e a importância de reconhecer e acolher pessoas em sofrimento são ideias centrais da Campanha Setembro Amarelo. Nesse caminho, a escuta é indicada como uma importante porta de entrada para o cuidado — seja entre familiares e amigos, em serviços de apoio ou dentro das comunidades de fé. Mas ouvir também significa reconhecer limites. Diante de sinais de sofrimento psicológico, a rede de apoio tem papel importante no acolhimento, enquanto psicólogos, psiquiatras e serviços de saúde oferecem o acompanhamento especializado necessário.

Psicóloga Andressa Pereira/ Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a psicóloga clínica Andressa Pereira, alguns sinais de sofrimento psicológico podem surgir de maneira sutil, como cansaço constante, tristeza profunda, crises de ansiedade, isolamento e irritabilidade. Desinteresse por atividades antes prazerosas, alterações persistentes no sono e no apetite e queda no rendimento escolar, profissional ou social também merecem atenção. Manifestações de desesperança, despedidas inesperadas, autolesão e mudanças relacionadas ao uso de álcool ou outras drogas exigem atenção ainda maior.

“Quando a pessoa começa a perceber esses sinais de alerta, talvez já seja um bom momento para buscar ajuda”, afirma Andressa. Ela lembra que a psicoterapia não precisa ser procurada somente em momentos de crise, mas também pode contribuir para a prevenção e o autoconhecimento.

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CVV: um espaço para falar e ser ouvido

Entre os serviços disponíveis para quem precisa conversar está o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e anônimo. O atendimento pelo telefone 188 funciona 24 horas por dia e também há opções por chat e e-mail.

Segundo a voluntária Eliane Soares, em 2025 foram realizados cerca de 2 milhões de atendimentos. Atualmente, aproximadamente 3.200 voluntários integram o serviço. Ao ligar para o 188, a pessoa é atendida por um voluntário capacitado para oferecer uma escuta acolhedora, respeitosa e sem julgamentos. “Mais do que uma formação específica, o trabalho exige disposição para ouvir, acolher e respeitar a pessoa que procura o serviço, sem julgamentos ou críticas”, explica.

O CVV oferece apoio emocional e não substitui o acompanhamento médico ou psicológico. A instituição também mantém o Grupo de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio (GASS), destinado a pessoas impactadas pela perda de alguém por suicídio. Os encontros são sigilosos e proporcionam um espaço para acolhimento e troca de experiências durante o processo de luto.

Quando a escuta acontece dentro da Igreja

Psicóloga Raquel Irene /Foto: Arquivo Pessoal

Nas comunidades católicas, iniciativas de escuta também podem integrar a rede de apoio. Na Diocese de Taubaté (SP), a psicóloga Raquel Irene de Macedo atua na Escuta Pastoral da Paróquia Sagrado Coração de Jesus e coordena a Pastoral da Escuta do Santuário Santa Teresinha.

De acordo com ela, questões relacionadas à saúde mental e emocional são o segundo maior motivo de procura pela Pastoral da Escuta no Santuário. Muitas pessoas que chegam ao serviço já fazem acompanhamento médico ou psicológico e encontram na Igreja um espaço complementar para enfrentar também a solidão e falar sobre aquilo que estão vivendo.

Quando há pensamentos suicidas, a psicóloga explica que os agentes são preparados para encaminhar a pessoa imediatamente aos serviços especializados de saúde mental. Para Raquel, esse discernimento também é importante para padres e diretores espirituais. O sofrimento espiritual e o psíquico podem aparecer juntos, mas não devem ser confundidos. “Salvar vidas exige humildade para reconhecer os limites da atuação pastoral”, afirma.

A psicóloga destaca ainda que a Pastoral da Escuta pode ajudar as paróquias a se tornarem ambientes nos quais as pessoas se sintam seguras para falar sobre sofrimento e saúde mental. Para isso, os agentes precisam estar preparados para acolher sem julgamentos ou respostas prontas.

Formação Continuada dos agentes da Pastoral da Escuta no Santuário Santa Teresinha, em Taubaté (SP) /Foto: Arquivo Pessoal Raquel Irena

Fé e acompanhamento profissional

Esse cuidado passa também por superar a ideia de que depressão, ansiedade ou pensamentos suicidas seriam consequência de falta de fé. Raquel sublinha que esse preconceito ainda está presente entre cristãos e pode acrescentar culpa ao sofrimento da pessoa. “A fé é um refúgio e uma força para atravessar os momentos de crise, mas não um substituto para a ciência”, ressalta.

A psicóloga Andressa Pereira complementa que a dimensão espiritual pode fazer parte do cuidado quando a fé é importante para o paciente. O profissional, segundo ela, deve respeitar essa dimensão sem impor crenças e sem deixar de oferecer o acompanhamento necessário.

No contexto católico, a oração, os sacramentos, a leitura da Palavra e a participação na comunidade podem fortalecer vínculos, esperança e sentido. Isso, porém, não exclui a necessidade de psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico ou medicação quando indicados. “Buscar ajuda profissional não significa ter menos fé”, enfatiza Andressa.

Onde buscar ajuda

Além de iniciativas de acolhimento como o CVV e a Pastoral da Escuta, pessoas em sofrimento psíquico também podem recorrer aos serviços de saúde. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento pode ser buscado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que integram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Em situações de urgência e emergência, a orientação é procurar UPA 24 horas, pronto-socorro ou hospital. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) também pode ser acionado pelo telefone 192.

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