ENCONTRO COM DEUS

Peregrinos partilham experiências no caminho de Santiago de Compostela

No dia em que a Igreja celebra a festa de São Tiago Maior, saiba mais sobre a espiritualidade peregrina do caminho de Santiago de Compostela

Gabriel Fontana
Da Redação

Caminho de Santiago de Compostela é percorrido por milhares de peregrinos, todos os anos / Foto: Canva

Ano após ano, peregrinos de todo o mundo viajam para a Espanha para seguir os passos de um dos apóstolos de Cristo: São Tiago Maior, celebrado pela Igreja neste sábado, 25.

Junto de Pedro e João, Tiago gozou de grande intimidade com Jesus, estando presente em diversos e importantes momentos relatados na Sagrada Escritura. Após a morte e ressurreição do Senhor, seguiu o mandato missionário e dedicou-se a evangelizar a Galícia, atualmente situada no território espanhol.

São Tiago Maior foi o primeiro apóstolo a ser martirizado — sua morte em Jerusalém encontra-se narrada na Bíblia, inclusive. Segundo a Tradição, seus restos mortais foram levados para a região onde evangelizou. Séculos depois, seu túmulo foi redescoberto, levando à fundação da cidade de Santiago de Compostela.

Chamado à conversão

Padre Reinaldo Cazumbá / Foto: Reprodução

Missionário da Comunidade Canção Nova, padre Reinaldo Cazumbá visitou a cidade diversas vezes como diretor espiritual de peregrinações. O sacerdote relata que o caminho que os peregrinos realizam até lá, independentemente do roteiro seguido, é uma jornada de penitência e conversão, da mesma forma como pregou São Tiago Maior.

“Todas as vezes que eu vou a Santiago de Compostela, vejo peregrinos do mundo inteiro fazendo esse caminho. É um caminho que é feito pensando na evangelização da pessoa, que segue o caminho de Tiago que levou a Cristo”, afirma padre Reinaldo.

O sacerdote partilha que, sempre que visita Santiago de Compostela, sente-se provocado a uma mudança de vida e à conversão. “Fazer essa experiência com Santiago de Compostela é pedir ao Senhor que nossa vida seja renovada. Todas as vezes que eu vou lá, saio com o desejo de caminhar pela conversão e penitência e de querer ser mais de Cristo”, afirma.

Caminhada interior

Mônica Vidile / Foto: Arquivo pessoal

Mônica Vidile fez o caminho de Santiago de Compostela em 2017. Ela relata que sempre teve vontade de realizar uma peregrinação espiritual, mas não podia devido ao trabalho e aos afazeres de casa. “Quando me aposentei em 2016, surgiu a tão esperada oportunidade de realizar meu desejo. Foi assim que escolhi esse percurso de São Tiago”, conta.

A professora aposentada peregrinou em abril no ano seguinte. Para escolher a rota, entrou em contato com a Associação dos Confrades e Amigos do Caminho de Santiago (ACACS-SP), que deram o suporte necessário para que ela planejasse seu roteiro de viagem em segurança.

Mônica viajou para Madri em abril de 2017. Após chegar à capital espanhola, seguiu de ônibus até Ponferrada, uma cidade a 200 quilômetros de Santiago de Compostela. “Fiz todo o percurso a pé, caminhando 20 km por dia aproximadamente. A duração do trajeto foi de 11 dias”, relata.

A cada parada, Mônica recebia um carimbo em sua Credencial do Peregrino, um documento que registra a jornada realizada. Ela conta também que o percurso é totalmente envolvente. “No caminho, aprende-se que o pouco que se necessita cabe na mochila, nos despojamos do supérfluo e exercitamos a capacidade de sermos humildes”, indica.

Segundo a professora aposentada, peregrinar foi uma caminhada interior. “Caminhei com o coração voltado para Deus e meu autoconhecimento, buscando renovar a fé e o desapego material. Cada passo que dei, foi sempre em direção à gratidão. O objetivo não foi Compostela; encontrei Santiago no próprio caminho. Quis ir só e estive sempre acompanhada”, partilha.

Credencial do Peregrino, onde são carimbados os locais por onde os peregrinos passam durante o caminho / Foto: Mônica Vidile

“Deus providenciou tudo”

José Carlos Mancilha / Foto: Arquivo pessoal

José Carlos Mancilha já realizou diversas peregrinações, inclusive a do caminho de Santiago de Compostela. Para ele, trata-se de uma ótima oportunidade para trabalhar internamente o desapego material, a partilha e a conversa; para ouvir, aprender e principalmente crescer espiritualmente no diálogo com Deus.

“Sempre gostei de caminhar. Para mim a peregrinação é sempre um encontro comigo mesmo. O ‘eu interior’ vai se esvaziando e, ao mesmo tempo, se fortalecendo com a presença de Deus nos pequenos detalhes que você passa a observar ao longo do caminho. Passa a ser um retiro espiritual, onde você conversa com o Criador quase que o tempo todo”, exprime.

Na jornada rumo a Compostela, José Carlos e sua companheira partiram de Porto, em Portugal, no dia 2 de maio de 2025. Foram 240 quilômetros de caminhada durante nove dias, em uma média de 25 a 30 quilômetros percorridos por dia e com somente uma mochila de 7,5 kg nas costas.

Catedral de Santiago de Compostela / Foto: José Carlos Mancilha

“Não fizemos nenhuma reserva de hospedagem ao longo do trajeto. Confiamos e entregamos nas mãos de Deus e Ele providenciou tudo. Não nos faltou nada, absolutamente nada”, relata.

José Carlos ressalta o sentimento que surge durante o caminho de paz profunda, desapego às coisas materiais, renascimento e descobertas ainda não vividas. “A jornada de um peregrino, geralmente, remete às dores que cada um traz consigo, sejam elas físicas ou espirituais. O importante é como cada pessoa vive o propósito da peregrinação”, conclui.

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