Mais que tarefa social

Integrar migrantes é ajudá-los a não ficarem presos em sua dor, diz Papa

Leão XIV proferiu forte discurso durante encontro com realidades de integração dos migrantes em Tenerife e pediu que esse trabalho não se reduza a uma tarefa social

Da Redação, com Vatican News

Papa no encontro com migrantes do centro Las Raíces antes de participar do encontro com as organizações de integração de migrantes / Foto: VATICAN MEDIA/CPPIPA/Sipa USA via Reuters Connect

O Papa Leão XIV encontrou-se nesta sexta-feira, 12, com as realidades de integração dos migrantes em San Cristóbal de La Laguna, em Tenerife, nas Ilhas Canárias. Durante seu discurso, deu orientações àqueles que realizam esse trabalho e denunciou a exploração da vulnerabilidade de tantos que chegam.

“Chamou-me a atenção o que se diz desta cidade: que é uma cidade aberta, sem muralhas”, disse o Pontífice no início de sua fala. “Talvez este pormenor nos ajude a compreender que as barreiras mais difíceis de derrubar nem sempre são as de pedra. Por vezes, elas encontram-se no olhar, no medo ou na indiferença”, alertou.

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O mar que cerca as ilhas trazem histórias de dor, de esperança e de busca, apontou o Santo Padre. Também os corações são chamados a se abrirem para acolhê-las — por isso, é preciso aprender a linguagem da proximidade, aquela que se compreende mais com as mãos do que com as palavras.

“Há olhos que veem e, no entanto, não reconhecem; transformam um rosto em uma cifra, uma história em um processo e uma diferença em uma distância”, expressou Leão XIV. “Nas obras de integração destes nossos irmãos — assim como em toda a obra de caridade —, a Igreja aprende a ler, na vida concreta daqueles que sofrem no corpo ou no espírito, um sinal vivo que remete para os Santos Evangelhos e que se torna legível, através do tato e da proximidade, quando tocamos nas feridas dos outros”, acrescentou.

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Integração é um caminho recíproco

A partir dos testemunhos que foram apresentados, o Pontífice ressaltou que, perante o necessitado, a fé se faz concreta e o amor a Cristo transforma-se em gestos. A solidariedade nasce do reconhecimento da dignidade humana e vai além do simples ato de filantropia, assinalou.

“O acolhimento abre a porta e a integração ajuda a atravessar o limite. A assistência aplica um bálsamo na ferida e a integração reconstrói o futuro”, sublinhou o Santo Padre. Ele observou ainda que integrar não significa apagar a história de quem chega, exigindo-lhe que deixe para trás tudo o que faz parte da sua memória.

Segundo Leão XIV, a integração constitui um caminho recíproco. “Quem chega aprende a habitar uma nova terra, e quem acolhe aprende a abrir a sua própria casa sem diluir a sua identidade nem fechar o coração ao encontro”, destacou. Aos migrantes, pontuou, cabe “uma parte nobre e necessária”: abrir-se com confiança à comunidade que os acolhe, aprender a sua língua, respeitar as suas leis, conhecer os seus costumes, participar na vida comum e oferecer com gratidão os seus dons.

Ao mesmo tempo, o Papa recordou que toda sociedade acolhedora tem deveres para com aqueles que chegam. Quem é acolhido descobre também que a dignidade, reconhecida como um direito, floresce quando se transforma em responsabilidade, gerando a oportunidade de reencontrar laços, reconstruir a confiança e sentir-se parte viva de uma comunidade.

Alerta contra a indiferença

Aos católicos, o Pontífice pediu ainda que a integração não se reduza a uma tarefa social. Segundo o Santo Padre, quem chega às paróquias deve encontrar uma comunidade capaz de oferecer, através do testemunho da vida e da palavra, caminhos para conhecer Jesus Cristo, respeitando sempre a consciência e a liberdade de cada pessoa.

“Evangelizar é partilhar com respeito e humildade o tesouro que sustenta a nossa ação e nossa esperança. Uma Igreja que acolhe é também uma Igreja que anuncia, oferecendo Cristo sem o impor e que, ao mesmo tempo, recebe o Evangelho das mãos dos pobres”, afirmou Leão XIV.

O Papa destacou ainda que uma consciência humana — e ainda mais uma consciência cristã — não pode permanecer indiferente diante das vítimas dos naufrágios e da falta de ajuda. “Cada vida perdida nestas rotas é um fracasso para a família humana”, declarou.

O Pontífice também recordou que há outro “naufrágio silencioso” após a chegada: encontrar-se sozinho numa cidade, sem língua, sem laços, sem trabalho, sem confiança e exposto àqueles que se aproveitam da vulnerabilidade. “Integrar é ajudar quem chegou ferido a não ficar preso para sempre na sua dor, mas a poder voltar a levantar-se, reconhecer os seus dons e oferecê-los à comunidade”, sublinhou.

Denúncia contra a exploração dos vulneráveis

Neste contexto, o Santo Padre dirigiu uma “palavra clara” a quem se aproveita do desespero e organiza rotas da morte, trafica pessoas, retém documentos, explora trabalhadores e transforma o sofrimento alheio em um negócio:

“Parai. Convertei-vos. As lágrimas e o sangue destes irmãos clamam a Deus e os seus sofrimentos chegam até Ele. O dinheiro arrancado da vulnerabilidade dos pobres não trará paz, nem honra, nem futuro. Por cada vida perdida, cada família enganada, cada corpo subjugado, cada mulher ameaçada, cada trabalhador explorado, tereis de comparecer perante a justiça divina. Quebrai essas correntes e libertai aqueles que tendes sob o vosso domínio. Restitui o que foi roubado e reparai o que puderdes”.

Leão XIV exortou essas pessoas a voltar enquanto há tempo, pois a misericórdia de Deus pode alcançar até mesmo o pecador mais endurecido, mas só é possível entrar pela porta estreita da verdade, da justiça e da conversão.

“A última palavra não pode pertencer ao medo, à indiferença nem à violência daqueles que negociam com a vida humana. A última palavra pertence a Cristo, que se identifica com o estrangeiro, toca as feridas da humanidade e nos chama a reconhecê-lo em cada irmão que precisa ser acolhido, protegido, promovido e integrado”, concluiu o Papa.

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