Na próxima semana, Pontífice percorre quatro países africanos; em Camarões, foco será o diálogo sobre a crise humanitária nas regiões anglófonas
Thiago Coutinho
Da redação

Camarões está entre os próximos destinos internacionais do Papa Leão XIV / Foto: Freepik.com
De 13 a 23 de abril, o Papa Leão XIV visitará o continente africano em sua próxima viagem apostólica. Mais especificamente, o Santo Padre estará na Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Seguindo o costume de suas viagens internacionais, o Sucessor de Pedro tem encontros marcados com instituições civis, com comunidades religiosas dos diversos países, além de visitar santuários, universidades, prisões, obras de caridade e solidariedade. A jornada de Leão XIV terá como apelo a paz e a reconciliação, temas pertinentes em especial a Camarões, que passa por um momento difícil após as eleições conturbadas e conflitos na região Noroeste e Sudoeste.

Paul Biya, presidente de Camarões / Foto: Reprodução Reuters
Camarões é governada desde 1982 por Paul Biya que, aos 93 anos, é considerado o presidente mais velho do mundo. Em abril, o parlamento aprovou uma mudança na Constituição: o cargo de vice-presidente foi criado. Assim, a linha de sucessão foi alterada. Antes, a sucessão era conduzida pelo presidente do Senado, que coordenava o país até o próximo plebiscito.
Outra mudança é que o vice-presidente, cargo que existiu no país até 1972 e retornou recentemente, será nomeado pelo próprio presidente. Em Camarões, o mandato presidencial tem duração de sete anos.
Ainda há uma crise envolvendo as regiões Noroeste e Sudoeste conhecida como Crise nas Regiões Anglófonas. Durante o período eleitoral recente, que reelegeu Biya, rebeldes intensificaram os ataques. O governo, em resposta, intensificou os ataques militares e foi alvo de críticas por conta de violações dos direitos humanos. O candidato Issa Tchiroma Bakary, líder da oposição, reivindicou a vitória e alegou fraude eleitoral.
A origem do conflito
De acordo com o The Global Centre for the Responsibility to Protect, organização que mobiliza a comunidade internacional para agir em situações em que as populações estão em risco de crimes de atrocidades em massa, em 2016, professores, estudantes e advogados de língua inglesa passaram a protestar contra a marginalização cultural imposta pelo governo dominado pela França.
O protesto levou a uma violenta repressão por parte das forças de segurança nas regiões noroeste e sudoeste, áreas predominantemente habitadas pela minoria anglófona do país. Foi em outubro de 2017 que separatistas anglófonos proclamaram a independência e declararam um novo estado, que ficou conhecido como “Ambazônia”, localizado nas regiões noroeste e sudoeste.
Os confrontos entre separatistas armados e as forças de segurança camaronesas se tornaram mais intensos, resultando em atrocidades generalizadas contra a população civil. Estimativas apontam que mais de 6.500 pessoas foram mortas desde 2016, embora se acredite que o número real seja ainda maior.
Violência exacerbada
Os anos de conflito registraram, por parte das forças de segurança, execuções extrajudiciais, violência sexual e generalizada e incendiaram aldeias anglófonas.
Segundo o The Global Centre for the Responsibility to Protect, indivíduos considerados suspeitos de ligações separatistas foram submetidos a detenções arbitrárias, torturas e maus-tratos. Por outro lado, separatistas armados também mataram, sequestraram e aterrorizaram populações, enquanto consolidavam o controle sobre grandes partes das regiões anglófonas.
Informações do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) apontam que mais de 1,5 milhão de pessoas necessitam de assistência humanitária nas regiões anglófonas. Afirmam ainda que pelo menos 334.098 pessoas foram deslocadas internamente pela violência nas duas regiões, enquanto mais de 76.493 fugiram para a Nigéria.
A visita do Papa
Leão XIV chegará a Camarões em 15 de abril, dia em que se encontrará, no Palácio Presidencial, com o presidente Paul Biya. O Pontífice visitará três cidades do país – Yaoundé, Bamenda e Douala – até o dia 18 de abril. Em Bamenda, um momento significativo será o encontro pela paz com a comunidade local na Catedral de São José.
Em entrevista à mídia vaticana, o arcebispo André Fuanya Nkéa, pastor de Bamenda e presidente da Conferência Episcopal de Camarões, disse que a visita do Sucessor de Pedro é há muito esperada. “Esperamos muito desta visita”, declarou. “Ele não vem como um político ou simplesmente como um chefe de Estado, mas antes de tudo como um pastor, um homem de Deus”, acrescentou.
Dom André destacou ainda a gratidão pela escolha do Pontífice em visitar o país mesmo diante destas realidades atuais. “É uma grande coisa que o Santo Padre não tenha ficado em casa esperando a situação se acalmar; ele decidiu vir mesmo que a situação ainda esteja instável. É por isso que estamos tão felizes.”




