Assessor da Comissão para a Vida e a Família da CNBB e casal coordenador nacional da Pastoral Familiar comentam exortação apostólica que completa 10 anos
Gabriel Fontana
Da Redação

Foto: Canva
Há 10 anos, o Papa Francisco publicou a exortação apostólica Amoris Laetitia. O documento sobre o amor na família é fruto do Sínodo sobre as Famílias, realizado em duas etapas, entre 2014 e 2015.
Assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Rodolfo Chagas Pinho, recorda que o Papa Francisco convocou o Sínodo para ouvir a realidade concreta das famílias e responder pastoralmente a uma crise de vínculos, de condições sociais e de transmissão da fé.
Entre os fatores que marcaram o cenário social da época, o sacerdote cita o desemprego e a precarização do trabalho; a dificuldade de acesso à moradia; o adiamento do casamento; o aumento da convivência sem matrimônio; a “cultura do provisório”; o fechamento à vida; a violência doméstica e o abuso; a migração que separa pais e filhos entre outros.
“A Igreja quis ouvir a realidade mundial das famílias sem esquemas abstratos, renovar o anúncio positivo da beleza da vocação familiar e responder pastoralmente às famílias feridas e às situações complexas com mais realismo e misericórdia”, destaca padre Rodolfo.
Vocação ao amor

Padre Rodolfo Chagas Pinho / Foto: Arquivo pessoal
A Amoris Laetitia, contudo, não é um texto sobre problemas familiares. O assessor destaca que o documento se trata de uma retomada positiva da vocação ao amor, da beleza do matrimônio e da necessidade de uma pastoral mais realista, misericordiosa e integradora.
Mesmo diante de um cenário social em que continuam fortes a fragilidade dos vínculos, a tendência a adiar casamento e filhos e a pressão econômica sobre os jovens, a exortação apostólica aponta a alegria como horizonte — e por isso seu nome significa “alegria do amor na família”.
“O casamento não aparece apenas como instituição, norma ou dever, mas como caminho de crescimento, comunhão, amizade, ternura, fecundidade e santificação”, aponta padre Rodolfo. “Francisco insiste que é preciso ajudar as pessoas a formar a consciência e a responder da melhor maneira possível a Deus em sua situação concreta”, acrescenta.
Motivação aos jovens

Alisson e Solange Schila / Foto: Arquivo pessoal
O casal coordenador nacional da Pastoral Familiar, Alisson e Solange Schila, reiteram as palavras do padre Rodolfo. Eles citam que um dos um dos maiores desafios que as famílias enfrentam hoje é a dificuldade nos relacionamentos, o que torna o cotidiano conturbado e intenso e potencializa o distanciamento.
“Diante disso, a Amoris Laetitia vem sugerir que seja priorizada a família e que se façam esforços para fortalecer esses laços familiares no cotidiano, em tudo aquilo que a família se propõe a viver, através de um diálogo aberto e honesto entre os membros, cultivando respeito, compreensão, perdão e apoio mútuo, tanto nas relações conjugais como nas relações com os filhos e na família alargada”, pontua Solange.
O documento assinala a importância do amor, mostrando que a família é um lugar onde se aprende a amar e ser amado. “Quando compreendemos esse chamado que a Amoris Laetitia veio reforçar”, pontua Solange, “nos abrimos a viver com maior empenho essa dinâmica do amor, da ternura e da misericórdia, e isso transforma qualquer realidade”.
“Assim, também os jovens se sentem motivados — através do testemunho das famílias que os cercam de uma espiritualidade encarnada no Evangelho, que é essencialmente conduzido pelo amor — e focam nos valores e nas coisas que realmente importam”, complementa Alisson, frisando a ajuda dada no processo de discernimento vocacional.
Orientações pastorais
Padre Rodolfo destaca que a Amoris Laetitia continua atual porque oferece não apenas ideias sobre a família, mas um modo de formar, acompanhar e sustentar vocações concretas. Em meio ao medo do compromisso, da instabilidade econômica e da fragilidade relacional, o sacerdote sublinha a necessidade de seguir mostrando o matrimônio como vocação bela e possível.
“Em vez de reduzir o amor a emoção instantânea, a Amoris Laetitia ensina que amar é aprender hábitos, linguagens, renúncias e gestos concretos. Ela forma para um amor mais robusto que o simples entusiasmo inicial”, expressa padre Rodolfo.
Ainda sobre as orientações pastorais dadas pelo documento, o sacerdote também cita aquelas relacionadas aos casais em segunda união — um dos tópicos mais repercutidos após a publicação do documento em 19 de abril de 2016. Ele enfatiza que a Amoris Laetitia não mudou a Doutrina católica sobre o matrimônio, mas introduziu um desenvolvimento importante na abordagem pastoral, disciplinar e no modo de fazer o discernimento moral em relação aos divorciados em nova união.
Segundo o Papa Francisco, esses casais não formam um bloco homogêneo. Por isso, a exortação rejeita julgamentos padronizados e exige diferenciação real entre situações objetivamente parecidas, mas subjetivamente distintas.
“A Amoris Laetitia não diz que a nova união passou a ser equivalente ao matrimônio sacramental, nem que a norma deixou de valer; ela diz que a aplicação pastoral da norma não pode ignorar a história concreta da pessoa, os atenuantes e o caminho possível de integração eclesial”, conclui padre Rodolfo.




