Relatório publicado por grupo de estudos do Sínodo indica “pistas operativas” para rever formação atual dos futuros padres, explica assessor da CNBB
Kelen Galvan
Da redação

Foto: Bruno Marques – Arquivo Canção Nova
“O padre não se forma atrás dos muros do seminário, mas ele se forma no coração do povo de Deus, como discípulo, relacional e missionário”. A afirmação é do assessor da Comissão Episcopal para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Padre Guilherme Maia Junior. Em entrevista ao noticias.cancaonova.com, ele comentou sobre o relatório publicado pela Secretaria Geral do Sínodo no início deste mês.
O relatório do grupo de estudos n.4 traz sugestões para aplicar o documento Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis (sobre a formação de presbíteros) numa perspectiva sinodal missionária. Entre as sugestões estão a maior proximidade com o povo e a presença de mulheres competentes na formação dos futuros sacerdotes.

Padre Guilherme Maia Junior / Foto: Arquivo Pessoal
Padre Guilherme destaca que a grande novidade do relatório é a ênfase na “identidade relacional do padre”, porque o texto fala que o presbítero é formado “no” e “a partir do” povo de Deus, não separado dele. “O relatório insiste numa formação integral, comunitária e profundamente enraizada na vida cotidiana das comunidades. Trata-se de formar padres, discípulos, missionários capazes de escuta, de diálogo, de corresponsabilidade e de discernimento eclesial a serviço da comunhão e da missão da igreja”.
Mudanças concretas
O assessor da comissão explica que, em linhas gerais, o relatório indica “pistas operativas” para rever a forma como os futuros padres são formados atualmente.
Em primeiro lugar, o texto pede que a formação presbiteral aconteça em “estreito contato” com o povo de Deus, alternando tempos de residência no seminário e nas paróquias e comunidades. Padre Guilherme explica que, aqui no Brasil, a formação já prevê esse contato dos seminaristas com as paróquias, em experiências missionárias e pastorais de fim de semana (quando eles passam o fim de semana nas comunidades).
“Digamos que nós temos a forma, mas talvez ainda nos falte compreender que nessas comunidades, que recebem os seminaristas, os padres e os agentes de pastorais devem também ser considerados como formadores, como pessoas ligadas à formação. E esse período não pode ser considerado como uma pausa na formação, mas uma continuidade integrante do processo formativo”, explica o assessor.
Outro aspecto sublinhado pelo relatório são as experiências formativas compartilhadas com leigos, consagrados e pessoas de outros ministérios, desde o início do processo formativo.
“Isso exige rever os currículos de estudo bíblico, teológico, filosófico, das ciências humanas, voltados para uma visão mais relacional da pessoa, uma eclesiologia do povo de Deus e uma prática real de sinodalidade. Então, o relatório pede que a própria condução da formação seja sinodal. Precisamos de equipes formativas bem preparadas, com a participação de leigos e leigas, onde o processo de discernimento escute as comunidades e esses outros agentes da formação”, esclarece.
Mulheres na equipe formativa
Uma das propostas apresentadas no relatório é a inclusão de mulheres competentes no caminho de formação sacerdotal. “O texto afirma que não basta convidar mulheres apenas para alguma aula, mas pede, de modo claro, que as mulheres bem preparadas e competentes sejam corresponsáveis em todos os níveis da formação, inclusive integrando as equipes formativas”, explica padre Guilherme.
Segundo o sacerdote, esse é um processo coerente com aquilo que aponta o Concílio Vaticano II e o próprio processo sinodal vivido pela Igreja, que reafirma a igual dignidade batismal e a corresponsabilidade de todas as pessoas na missão.
“A presença qualificada de mulheres ajuda a formar padres mais equilibrados, capazes de relações maduras, de trabalho em equipe e de verdadeira escuta, de reconhecer de maneira mais consequente a contribuição feminina já presente na vida da igreja”, afirma.
Ele acredita que, em termos pastorais, essa é uma resposta concreta ao apelo por superar atitudes clericais e autorreferenciais. “Um presbítero que foi acompanhado, avaliado e ajudado também por mulheres durante a sua formação, tende a ser um pastor mais próximo das realidades das famílias, mais atento às feridas e às potencialidades da vida concreta do nosso povo”.
Implementar as pistas sinodais
O assessor conclui afirmando que o relatório não é apenas um texto teórico, mas convida a pôr em prática um itinerário sinodal e missionário, dentro do processo formativo.
“Dentro da conferência episcopal, a Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada conta atualmente com um grupo de trabalho que verifica a aplicabilidade do documento 110 (as diretrizes para a formação de presbíteros da Igreja no Brasil). E esse grupo também prepara a atualização deste documento. Certamente, as indicações desse relatório final apontam caminhos concretos para esse processo, ajudando-nos a implementar as pistas sinodais nesse contexto”, indica.




