NÃO À VIOLÊNCIA

Sem ameaça, é discutível atacar país soberano, diz bispo de Chicago

Arcebispo de Chicago convida à moderação para evitar uma escalada militar inútil e impedir que a situação se deteriore rapidamente

Da redação, com Vatican News

Cardeal Blase Joseph Cupich / Foto: Reprodução Youtube ABC 7 Chicago

Em uma entrevista concedida aos meios de comunicação do Vaticano, o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, faz um alerta ao refletir sobre as tensões tanto no exterior quanto nos Estados Unidos. Após os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel que, no sábado, 28, atingiram Teerã e diversas cidades iranianas, o Irã iniciou uma retaliação atacando aeroportos, portos e estruturas civis em várias áreas da região do Golfo, especialmente em cidades como Doha, Manama e Kuwait City.

No Angelus de domingo, 1°, o Papa Leão XIV havia feito um apelo comovente às partes envolvidas para que, “diante da possibilidade de uma tragédia de proporções enormes”, assumissem “a responsabilidade moral de interromper a espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável”.

“O que o Santo Padre está fazendo é simplesmente recordar os princípios com base nos quais as nações concordaram, desde a Segunda Guerra Mundial, em enfrentar tensões, conflitos e controvérsias”, disse o prelado. “O Papa tenta nos chamar de volta a isso, para que não percamos tudo — o que é, de fato, um risco sério. Ele está desempenhando um papel importante ao falar em nome de todas aquelas pessoas que estão preocupadas com o que poderá acontecer”.

O uso da violência

Com os recentes ataques ao Oriente Médio, o mundo vive um momento de grande tensão e medo. Para o arcebispo de Chicago, é lamentável o uso de armas para que a situação seja resolvida. “Quase mil pessoas foram mortas nessa última intervenção com o Irã. Também estamos vendo o uso das armas como um modo de resolver dificuldades. Quando se começa a adotar esse tipo de abordagem, entra-se em um caminho do qual é muito difícil voltar atrás. E isso está cada vez mais evidente neste momento específico”.

Dom Cupich recorda como a Primeira Guerra Mundial foi um exemplo lamentável que mostrou a humanidade se digladiando num conflito sem fim. “Seguiram-se anos de um terrível conflito, no qual milhões de pessoas foram mortas. Portanto, uma vez que essa porta é aberta, é muito difícil fechá-la”, alerta o religioso.

O Papa e a Santa Sé refutam de maneira veemente todos os conflitos que ainda seguem ativos. O cardeal afirma que os corpos diplomáticos da Igreja espalhados mundo estão neste momento lutando para que haja menos armas e mais comprometimento com a paz. “Isso é de fundamental importância não apenas para unir as pessoas, mas também para obter informações de primeira mão, essenciais neste momento. O Santo Padre mencionou isso em seu discurso ao Corpo Diplomático de 9 de janeiro, no qual afirmou que estamos entrando em um período de relativismo, em que a verdade passa a ser uma questão de opinião. Ela é reduzida a mera opinião. Se não nos comprometemos a dizer aquilo que é verdadeiramente verdadeiro, então penso que viveremos em um mundo de ilusões”, disse.

Força de unidade e não de divisão

A sociedade americana — e até mesmo a Igreja — têm passado por um processo de polarização. Para o arcebispo de Chicago, é necessário oferecer uma linguagem de compreensão relacionado a tudo o que está acontecendo. “Acredito que é isso que o Papa também está fazendo, porque, uma vez que se começa a atacar personalidades ou indivíduos, perde-se terreno. O que podemos fazer para servir às pessoas é ajudá-las a entender o que está acontecendo, fornecer-lhes a linguagem com a qual enxergar e enquadrar esses problemas e compreender o que está em jogo sempre que ignoramos os princípios de convivência neste mundo em vista do bem comum”, ponderou.

O respeito à dignidade humana

O governo estadunidense, nos últimos meses, tem colocado em prática ações que vão de contra as políticas migratórias. Para o prelado, é necessário que o respeito à dignidade humana não seja deixado de lado. “Esse é o princípio fundamental”, exaltou Dom Cupich. “A dignidade humana deve ser respeitada não apenas na maneira como as pessoas são detidas, mas também quando as famílias são separadas, quando não se reconhece que pessoas que vivem nos Estados Unidos há muitos anos sem documentos contribuíram de diversas maneiras para o sustento não apenas de suas famílias, mas também da sociedade — e que são humilhadas por uma linguagem desumanizante”, acrescentou.

O bispo ainda afirmou que é possível que católicos se engajem na política sem deixar o Evangelho de lado. “Penso que devemos garantir que ninguém comprometa o Evangelho em favor de uma visão política partidária”, disse. “O que trazemos são as verdades do Evangelho. E, como eu disse antes, o que nós, como líderes da Igreja, devemos fazer é ajudar nossos fiéis a compreender qual é a linguagem adequada para discutir essas questões. Se usarem a linguagem da política partidária — ou mesmo de um governo que queira garantir determinada política — estaremos perdidos. Creio que precisamos olhar para essas questões através da lente daquilo que o Evangelho nos diz”, finalizou.

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