Dom Visvaldas Kulbokas faz um balanço dos quatro anos de conflito e destaca gratidão por toda ajuda; “Deus age mesmo quando as pessoas não constroem a paz”
Da redação, com Vatican News

Regisão de Kharkiv sofre ataques em meio ao inverno / Foto: Reprodução Reuters
“Antes, conseguíamos montar postos de primeiros socorros em porões”, mas agora “isso não é mais possível, porque todos os prédios estão sob ataque”. Quanto mais perto da linha de frente, mais somos obrigados a “cavar cinco ou seis metros abaixo da superfície para evitar sermos atingidos pelos constantes ataques de drones”. Essa descrição mostra a fragilidade da Ucrânia, que, após quatro anos de guerra, procura resistir a cada dia e a cada metro, para conseguir um pouco de segurança em meio à precariedade.
O Núncio Apostólico no país, Dom Visvaldas Kulbokas, comentou, em entrevista, sobre os quatro anos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, nesta terça-feira, 24, e afirmou que as pessoas estão em sintonia com o apelo do Papa Leão XIV, a “não parar em meio às cinzas, mas se levantar e reconstruir”.
Leia a entrevista na íntegra:
Excelência, quatro anos se passaram desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia…
Dom Visvaldas Kulbokas: Quatro anos de uma guerra de tamanha escala é muito tempo. E a intensidade dessa guerra continua crescendo. Também examinei as estatísticas: em comparação com quatro anos atrás, as forças militares russas em solo ucraniano aumentaram aproximadamente quatro vezes. Os ataques com mísseis e drones também triplicaram ou quadruplicaram nos últimos anos. Relatórios das Nações Unidas e de outras organizações especificam que o número de vítimas civis também está aumentando. No início da guerra, a maioria das mortes ou ferimentos de civis ocorria em territórios ocupados ou perto da linha de frente. Agora, o número de civis mortos ou feridos longe da frente de batalha está crescendo. A ONU especifica que 35% das mortes e ferimentos de civis ocorrem em todo território ucraniano.
Então, os ataques também ocorrem longe da linha de frente…
Dom Visvaldas Kulbokas: Sim. O maior número de vítimas ocorreu em um único bombardeio no ano passado em Ternopil, uma cidade distante da frente de batalha. No ano passado, houve muitas vítimas civis na capital, Kiev. Mais de vinte embaixadas sofreram danos mais ou menos graves. A Nunciatura Apostólica sofreu danos menores em julho do ano passado. Mas, por exemplo, quase nada restou da embaixada do Azerbaijão, porque houve três ataques, apesar de o presidente Aliyev ter informado precisamente às autoridades russas onde a embaixada está localizada.
O que os profissionais de saúde conseguem fazer diante de tantos bombardeios?
Dom Visvaldas Kulbokas: Conversei, há alguns dias, com um médico que dedica sua vida a tratar feridos perto da linha de frente. Ele me contou que, no início da guerra, em 2022-2023, conseguiu montar postos de primeiros socorros em porões e nos andares inferiores de casas e edifícios. Agora, segundo ele, isso não é mais possível, porque todos os prédios estão sob ataque. Quando se aproximam da linha de frente, são obrigados a cavar cerca de cinco ou seis metros abaixo da superfície para evitar serem atingidos pelos constantes ataques de drones. Além disso, a evacuação dos feridos é muito difícil. Ele me disse que, às vezes, precisam esperar até sete dias para conseguir evacuar um ferido. E faz muito frio: as temperaturas caíram para vinte graus negativos, com consequências muito graves.
É possível entregar ajuda humanitária nessas condições?
Dom Visvaldas Kulbokas: Perguntei a um responsável da Cruz Vermelha Internacional se ainda conseguem entregar ajuda humanitária perto da linha de frente, e ele me disse que, infelizmente, foram obrigados a reduzir significativamente a distribuição, pois todos estão sendo atingidos indistintamente: civis, militares, trabalhadores humanitários, médicos e sacerdotes. Portanto, é muito difícil entregar água, comida, remédios e outros itens de primeira necessidade. Essa é a realidade.
O que pode ser feito?
Dom Visvaldas Kulbokas: Repito que precisamos de muita oração. Mas não nos esqueçamos de que a Rússia é membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e tem a responsabilidade de promover a paz e a justiça. Lembremo-nos também do Memorando de Budapeste, assinado em 1994: Rússia, Estados Unidos e Reino Unido prometeram à Ucrânia garantias para a sua soberania e integridade territorial. Há também o Tratado de 2003 entre Rússia e Ucrânia, com o reconhecimento mútuo das suas respectivas fronteiras, sem mencionar os Acordos de Minsk. Portanto, existe esta dificuldade, inclusive minha, de compreender como sair desta violência que só dá a impressão de crescer e se intensificar. Precisamente por esta razão, confio muito na oração.
Há muitos exemplos de resiliência nesta situação dramática…
Dom Visvaldas Kulbokas: Sim. Por exemplo, há algumas semanas, um grupo de mulheres de uma associação inter-religiosa que promove a oração e a assistência humanitária participou da audiência geral do Santo Padre. Encontrei essas mulheres ao retornar de Roma e fiquei impressionado com a reflexão delas. Elas disseram: “Nós nos concentramos no que podemos fazer. Quando há uma garota ferida, procuramos uma prótese se ela perdeu um braço. Da mesma forma, procuramos próteses para um soldado ferido ou para crianças. E tentamos tirá-los do país para que possam descansar um pouco. Pelo menos conseguirão dormir à noite.” E acrescentaram uma reflexão: “É inútil acusar todos os russos agora, porque não sabemos o que faríamos se vivêssemos naquela mesma realidade política, com aquela propaganda.” Elas não estão focadas num julgamento condenatório, mas nas coisas positivas que podem fazer.
Percebe em outras pessoas esse modo de reagir a tanta devastação?
Dom Visvaldas Kulbokas: Eu também notei isso entre os civis. Um embaixador me contou que, depois de bombardeios em Kiev na noite passada, cancelou todos os seus compromissos da manhã. Ataques com mísseis e drones geralmente ocorrem à noite porque são mais difíceis de interceptar, e assim quem ataca espera atingir o alvo e causar um efeito mais devastador. No entanto, o embaixador, olhando pela janela pela manhã, viu que as pessoas estavam já a caminho do trabalho, algumas de carro, outras a pé. E ele disse que essa foi uma grande lição para ele. As pessoas tentam não se concentrar no sofrimento. Em vez disso, agradecem a Deus pelo que conseguem ter.
Que apelo gostaria de fazer?
Dom Visvaldas Kulbokas: Gostaria de encorajar a todos a apoiar a Ucrânia, especialmente no sentido espiritual. Isso significa oração, presença humanitária, solidariedade e proximidade sincera. Há alguns dias, li a carta do Santo Padre aos presbíteros da Arquidiocese de Madri. Diante de situações complexas, o Papa Leão XIV exortou a aprender a ler profundamente o momento que se vive, reconhecendo à luz da fé os desafios e as possibilidades que o Senhor nos apresenta. Devemos praticar o discernimento, disse ele, “para que possamos ver com mais clareza o que Deus já está fazendo, muitas vezes silenciosa e discretamente”. Deus age mesmo quando as pessoas não constroem a paz.
O Papa Leão XIV também disse, na Quarta-feira de Cinzas, que podemos “sentir nas cinzas que nos são impostas o peso de um mundo em chamas, de cidades inteiras desintegradas pela guerra”, podemos sentir “as cinzas do direito internacional e da justiça entre os povos”, como se os alicerces da vida em comum não mais existissem. Mas as cinzas são humanas. Em vez disso, a esperança sempre vem de Deus, porque quando as pessoas deixam de agir, Ele, Deus, toma a iniciativa. Assim – disse o Papa – podemos “não parar em meio às cinzas, mas sim nos levantar e reconstruir”.
Quais são as perspectivas hoje, quatro anos após a invasão russa em grande escala da Ucrânia?
Dom Visvaldas Kulbokas: Nossa tarefa é discernir, mesmo agora, sementes de esperança nas negociações que ocorrem entre a Ucrânia e a Rússia, com a ajuda dos Estados Unidos e de outros países, ainda que essas negociações sejam muito limitadas devido às enormes dificuldades. Quando nos entregamos mais ao Senhor, tornamo-nos capazes de perceber esses sinais de esperança com olhos espirituais, mesmo em meio a toda essa cinza e crueldade humana, desrespeito e falta de confiança.
Nesse sentido, acredito que a maior ajuda que a Igreja pode oferecer ao povo ucraniano é, sobretudo, espiritual: ajudar a todos, inclusive a mim mesmo, a abrir os olhos para não nos concentrarmos apenas no mal que vemos e vivenciamos todos os dias, mas manter um olhar cheio de esperança. Quanto mais a esperança é transmitida pela oração, pela proximidade, pelo aconselhamento, pela presença, isso é muito importante, mais ela se torna um dom.
Trata-se de carregar uma esperança cultivada no coração. Como também dizem os capelães militares: “Nossa tarefa é levar esperança aos militares, porque muitas vezes resta muito pouca dela no campo de batalha. Nossa tarefa é oferecer essa esperança divina que transcende as limitações humanas.” Portanto, repito, podemos oferecer, acima de tudo, essas duas coisas: oração e esperança espiritual.




