SITUAÇÃO POLÍTICA

Cardeal Bo: Mianmar esquecida pelo mundo, mas não por Deus

O cardeal lança luz sobre a situação no país asiático, assolado por uma guerra civil sem fim e marcado por uma crise econômica, social, de saúde e educacional

Cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Yangon e presidente da FABC / Foto: Reprodução Youtube

Da redação, com Vatican News

O cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Yangon, alertou repetidamente que “Mianmar atravessa uma ‘policrise’: uma crise econômica, com o aumento dos preços; uma crise devido à perda de oportunidades de emprego; uma crise social, com mais de 3,5 milhões de deslocados internos e jovens fugindo para o exterior; uma crise na saúde básica; e uma crise na educação, com uma geração que perdeu cinco anos de escolaridade”.

Em entrevista concedida periódico Vatican Media sobre a situação crítica enfrentada pelo país, o cardeal descreveu Mianmar, cinco anos após o golpe militar, como uma nação marcada pelo medo, exaustão e profunda incerteza, especialmente entre os jovens. Contudo, observou ele, embora a esperança “não esteja morta”, está “crucificada”.

Impacto sobre os jovens

O Cardeal Bo reconheceu que o estado de espírito geral da população é complexo e varia de acordo com a experiência pessoal, a localização geográfica e a proximidade da violência.

Entre os jovens, em particular, observou o Cardeal, o cotidiano é cada vez mais definido pela insegurança, pela tensão psicológica e pela perda de confiança no futuro.

“Os jovens vivem com medo quase constante pela sua segurança pessoal”, explicou o cardeal Bo, apontando para os conflitos em curso, a violência generalizada, a instabilidade econômica e a ameaça do recrutamento forçado. Essa insegurança prolongada, disse ele, levou ao aumento da ansiedade, do estresse e da pressão psicológica entre os jovens em muitas regiões do país.

Perda da educação, do trabalho e da vida normal

O cardeal Bo também lamentou um profundo sentimento de perda, observando como anos de ruptura corroeram a educação, as perspectivas de emprego e a vida social normal.

Muitos jovens, disse ele, expressam frustração, tristeza e impotência, com pesquisas mostrando aumentos acentuados na raiva e no sofrimento emocional em comparação com os anos anteriores ao golpe. “Muito poucos ainda experimentam qualquer sensação de normalidade”, observou, acrescentando que um número crescente de jovens está considerando deixar Mianmar, ou já o fez.

Ao mesmo tempo, o religioso alertou para que não se reduza a juventude de Mianmar apenas a vítimas. Mesmo em meio às dificuldades, ele observou sinais de resiliência e determinação. Alguns jovens continuam a acreditar na possibilidade de um futuro melhor, investindo em educação e novas habilidades, incluindo tecnologias digitais, em um esforço para criar oportunidades apesar das enormes dificuldades.

Pressões digitais e desafios políticos

A vida digital, sugeriu o Cardeal, tem seus prós e contras. As plataformas online oferecem conexão, aprendizado e solidariedade, mas também expõem os jovens a discursos de ódio, abusos e desinformação, prejudicando ainda mais o bem-estar mental e a coesão social.

A participação nas eleições recentes, observou também o Cardeal, foi baixa entre os eleitores mais jovens, muitos dos quais politicamente desiludidos.

“Esperança crucificada”

Nesse contexto, o cardeal Bo insistiu que a esperança ainda é possível. “Não se trata de otimismo ingênuo”, disse ele. “É uma esperança cristã que nasce da Cruz e da Ressurreição.”

Essa esperança, explicou o cardeal, não se baseia em circunstâncias ou cálculos políticos.

“O povo de Mianmar perdeu muitas seguranças — paz, meios de subsistência, estabilidade, até mesmo a atenção internacional — mas”, observou ele, “não perdeu a presença de Deus.”

Essa presença, disse ele, é visível nas aldeias de pessoas deslocadas, nos campos para deslocados internos e na resistência silenciosa de famílias, mães, catequistas e religiosos que continuam a servir em meio ao sofrimento.

Famílias compartilham o pouco que têm

“As famílias continuam a compartilhar o pouco que têm. Continuam a rezar juntas”, disse o cardeal.

O arcebispoo observou que os jovens ainda fazem trabalho voluntário e servem às suas comunidades, recusando-se a abandonar seus sonhos de um futuro diferente. Esses atos, acrescentou, podem parecer pequenos, mas são “sinais do Evangelho”, como o grão de mostarda.

Enfatizou que, ao rejeitar o ódio, a violência e ao continuar a falar a linguagem da reconciliação e da dignidade humana, a Igreja busca agir como “um sacramento de esperança”.

Mesmo quando o mundo parece indiferente, disse ele, “continuamos a acreditar que a violência não terá a última palavra”.

Sentindo-se esquecidos, mas não abandonados

Ao mesmo tempo, o cardeal reconheceu que muitas pessoas em Mianmar se sentem esquecidas.

“Anos de sofrimento se passaram com poucas mudanças visíveis”, disse ele, e a atenção internacional muitas vezes se esvai, exceto em momentos de extrema violência.

O cardeal sugeriu que o silêncio ou a cautela de atores globais poderosos, combinados com o isolamento causado por sanções e menor engajamento, fizeram com que muitos cidadãos comuns se sentissem abandonados.

No entanto, o Cardeal esclareceu que sentir-se esquecido pelo mundo não é o mesmo que ser abandonado por Deus.

“Mianmar pode se sentir negligenciado”, disse ele, “mas não está esquecido nos planos de Deus”.

Trabalhando pela reconciliação

O cardeal Bo descreveu o papel pastoral e prático da Igreja em Mianmar. Líderes católicos, lembrou ele, clamam constantemente pelo fim da violência e pela reconciliação enraizada na justiça, no perdão e na compaixão, insistindo que a paz é mais do que a ausência de combates. Iniciativas inter-religiosas, acrescentou, reúnem cristãos, budistas, muçulmanos e hindus em orações conjuntas pela paz, oferecendo modelos concretos de coexistência em meio à divisão.

Observou que as mensagens pastorais enfatizam a empatia e a escuta, em vez da busca pela vitória; organismos ecumênicos como o Conselho de Igrejas de Mianmar, apoiados por parceiros internacionais, promovem a unidade, a dignidade humana e o diálogo; e iniciativas populares se concentram na proteção dos deslocados e dos mais vulneráveis.

“Deus é fiel”

O Cardeal de Mianmar também sublinhou que o país não foi esquecido pela Santa Sé. O Papa, disse ele, está “profundamente preocupado”, uma preocupação expressa por meio de repetidos apelos à paz, ao diálogo, à proteção dos civis e ao acesso humanitário. Embora as soluções políticas continuem lentas e complexas, o Cardeal insistiu que há orações e atenção genuínas por parte de Roma.

Por fim, apelou à perseverança na esperança e na fé. “Perder a esperança seria entregar o futuro à violência e ao desespero”, disse ele, acrescentando que Myanmar tem esperança “não porque a situação seja fácil, mas porque Deus é fiel”.

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