Passados 40 anos desde que foi abusado, David Ryan encontrou-se com Leão XIV e ressaltou acolhimento e empatia do Pontífice ao escutá-lo
Da Redação, com Vatican News

Foto: Vatican Media/IPA/Sipa USA via Reuters
“Não foi culpa minha, mas culpa dos outros.” As palavras de David Ryan traduzem uma consciência que ele levou 40 anos para adquirir: a de que os abusos sofridos por ele e por seu irmão Mark quando eram crianças no Blackrock College, administrado pelos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos) em Dublin, na Irlanda, não eram responsabilidade deles.
Quatro décadas depois, David encontrou-se com o Papa Leão XIV nesta segunda-feira, 2, no Vaticano (Mark não teve a oportunidade, pois faleceu em 2023). O encontro foi marcado por palavras de empatia, de proximidade e de pedido de desculpas para ele, para o irmão e para todas as vítimas da Igreja Católica na Irlanda.
Ao relatar à imprensa como foi o encontro, David não conteve a emoção. “Que experiência! Nunca vou esquecer, nunca, nunca, nunca”, expressou o irlandês, que definiu Leão XIV como um homem adorável, sincero e empático. “Ele entendeu a minha dor; mesmo não a tendo vivido, sabe quanta dor eu e minha família vivemos”, afirmou.
Segundo David, o Papa disse esperar que outras pessoas se manifestem sobre os abusos sofridos. “É isso que eu quero: que outras pessoas se manifestem”, exprimiu o irlandês, que junto ao irmão travou durante anos uma batalha em nome de todos os sobreviventes do Blackrock College e da escola primária Willow Park.
Denúncias na Irlanda
Cerca de 350 pessoas denunciaram abusos ocorridos dentro dessas instituições e em outras escolas também administradas pelos espiritanos, cometidos por religiosos e por funcionários leigos. Os fatos estão sendo investigados por uma comissão formal de inquérito, instituída pelo governo irlandês em setembro de 2024.
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“Levei 40 anos para entender que não era culpa minha, mas culpa deles. Lutamos muito”, explicou David à imprensa. Ao Papa, contou tudo isso: “falei com ele sobre os abusos… Perguntei por que esses padres ainda fazem isso”. E garante ter percebido de Leão XIV a empatia pelos sobreviventes, pela família e pelos amigos mais próximos.
“Ele ficou triste”, relatou David. “Sei que foi sincero, foi gentil e respirou fundo várias vezes antes de responder a uma pergunta… Mas foi bom, muito bom. Estou muito feliz”, expressou.
Acolhida às vítimas de abusos
Não é a primeira vez que Leão XIV recebe vítimas de abusos. Em outubro de 2025, o Pontífice concedeu audiência no Vaticano a seis membros do conselho diretor da ECA Global, uma associação internacional de direitos humanos que luta por maior apoio e por indenizações às pessoas que sofreram abusos e pede maior empenho e colaboração da Igreja Católica.
Em novembro, o Santo Padre reuniu-se com 15 pessoas provenientes da Bélgica, vítimas de abusos quando eram menores por parte de membros do clero. Ambos os encontros foram momentos para devolver proximidade e consolação a essas pessoas. Porque, como o próprio Pontífice afirmou no recente Consistório extraordinário, é “um escândalo” quando aqueles que sofreram abusos não se sentem acolhidos e acompanhados na Igreja.




