Para a assessora da Comunicação Social da CNBB, a evangelização nas redes sociais transcende a postagem de conteúdos religiosos e se consolida como espaço de autêntico encontro
Kelen Galvan
Da redação

Bastidores da gravação de um clipe do Padre Adriano Zandoná / Foto: Arquivo Canção Nova
As redes sociais têm se tornado uma nova “terra de missão” para os evangelizadores católicos. Em meio ao crescimento de conteúdos religiosos no Instagram, TikTok e YouTube, torna-se imprescindível que o evangelizador tenha clareza de sua missão, para evitar os seus riscos: como da autopromoção, da superficialidade, do pautar-se pelo algoritmo ou ainda realizar um anúncio moralista.
Sobre esse aspecto, recentemente, no dia 19 de janeiro, em audiência com o Caminho Neocatecumenal, o Papa Leão XIV pediu um anúncio do Evangelho “livre de constrangimentos, rigidez e moralismo, para que não suscitem sentimentos de culpa e medo em vez de libertação interior”.
Para a assessora da Comissão para a Comunicação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Osnilda Lima, o evangelizador deve habitar o digital com uma linguagem de misericórdia, que reconhece o ambiente não como um espaço de disputa ideológica, mas como um “hospital de campanha”.
“A clareza surge quando o foco da comunicação deixa de ser um julgamento moral do outro e passa a ser o compartilhamento da alegria que nasce do encontro com Cristo. Assim, ao apresentar o Evangelho como um horizonte de sentido e esperança, a rede deixa de ser um lugar de constrangimento e rigidez para se tornar um espaço de liberdade, onde a verdade é proposta com mansidão e a doutrina serve para curar, não para excluir”.
Utilizar os meios digitais com responsabilidade

Padre Adriano Zandoná / Foto: Arquivo Canção Nova
A cada dia, surgem novos conteúdos e missionários que buscam levar o anúncio do Evangelho, de forma especial aos mais jovens presentes nesta realidade virtual.
Padre Adriano Zandoná, missionário da Comunidade Canção Nova, começou a usar as redes sociais em 2006, com o Orkut, pois percebeu um apelo de Deus para evangelizar por esses instrumentos. “As redes sociais são uma oportunidade de ampliar o anúncio do Evangelho (…) Os jovens estão lá, então precisamos utilizar esses meios e utilizá-lo com responsabilidade”, afirmou.
Um missionário digital não é um mero influenciador. “A distinção fundamental entre ambos reside tanto no objetivo quanto na forma de ‘habitar’ o ambiente digital”, ressalta Osnilda Lima.
Ela afirma que essa premissa tornou-se evidente no projeto “A Igreja te escuta”, vinculado ao Sínodo da Sinodalidade. “A ação consolidou a escuta sinodal no ambiente digital, tratando-o como um autêntico lugar de missão”, recorda. Osnilda destaca que o engajamento dos missionários digitais gerou dados fundamentais para compor o instrumento de trabalho do Sínodo, no que diz respeito à ação missionária no “continente digital”.
Diferença do influenciador e do missionário digital

Osnilda Lima / Foto: Arquivo Pessoal
Osnilda explica que, com base nessa experiência e nas diretrizes de implementação do documento final do Sínodo, foi possível definir alguns eixos de diferenciação entre o influenciador e o missionário digital:
1- Do conteúdo ao encontro: A distinção fundamental entre essas duas figuras reside na motivação e no propósito de sua presença no ambiente digital.
“Enquanto o influenciador é compreendido como um agente transcultural (cuja popularidade e capacidade de engajamento voltam-se, muitas vezes, à consolidação de sua própria imagem), o missionário digital define-se pelo horizonte da evangelização (o foco desloca-se da marca pessoal para o serviço à Igreja)”, explica.
2- Das métricas para a gratuidade: O influenciador pauta sua atuação pelo alcance e número de seguidores. Em contrapartida, o missionário é movido pelo intercâmbio gratuito e pelo desapego aos volumes de audiência.
“Suas métricas fundamentais concentram-se na cura da solidão e do individualismo, bem como na vivência de uma amizade cristã autêntica. Esse caminho busca promover um encontro pessoal com Jesus Cristo (…) que culmina em um compromisso concreto com a vida comunitária eclesial”, destaca Osnilda.
3- Da técnica para a humanidade: “A atuação do influenciador se centraliza na própria imagem e na manutenção da ‘bolha’ que sustenta sua influência e autoridade digital. No sentido oposto, o missionário digital atua em nome de uma comunidade eclesial (…) e busca transformar as redes em espaços que priorizem o outro em detrimento de si, promovendo uma autêntica abertura ao próximo”, aponta.
Espaço de autêntico encontro humano
Padre Adriano Zandoná foi um dos representantes do Brasil no primeiro Jubileu dos Missionários e Influenciadores Digitais, realizado no Vaticano em julho de 2025. Ele lembra que, nesta ocasião, falou-se muito da importância de usar esses meios com a consciência de não ser conduzido pelo algoritmo, que, muitas vezes, é movido por polêmicas ou sensualidade, mas sim pelos princípios do Evangelho.
“Nós temos que estar lá [nas redes sociais]. Os jovens estão lá. Mas sempre com essa ética cristã, com pureza, com pudor, evitando essas polêmicas infrutíferas, evitando qualquer apelo à sensualidade e pregando a integralidade do Evangelho com espontaneidade. Eu acho que as redes sociais são o lugar da espontaneidade, de colocar nossa identidade. As pessoas querem ver verdade lá”, afirma o sacerdote.
O evangelizador digital deve ser um ouvinte capaz de reconhecer ‘o território de missão’ em que está inserido
– Osnilda Lima
A assessora da Comissão para a Comunicação Social da CNBB defende que a evangelização nas redes sociais transcende a postagem de conteúdos religiosos, e se consolida em um espaço de autêntico encontro humano. “Esse movimento pede a transição da produção e compartilhamento de informações para uma presença marcada pela hospitalidade e pelo diálogo (…) que conduzam a pessoa da conexão ‘onlife’ à uma convivência da comunhão eclesial também física”, indica Osnilda.
Ela destaca que, antes de ser um emissor de mensagens, o evangelizador digital deve ser um ouvinte, capaz de reconhecer ‘o território de missão’ em que está inserido. “Evangelizar pressupõe a disposição de ouvir as dores, as dúvidas e as buscas daqueles que habitam as ‘periferias digitais’, transformando a presença cristã em uma resposta acolhedora às perguntas existenciais contemporâneas”.
Integridade entre a identidade real e a digital
Somado a isso, Osnilda afirma que o testemunho de vida emerge como a linguagem principal e mais eficaz para evitar que o anúncio do Evangelho se perca no ruído informativo das redes.
“A integridade entre a identidade real e a digital é indispensável; não se pode sustentar uma ‘persona virtual’ que contradiga os valores evangélicos. Essa presença deve ser mansa e promotora da paz, evitando alimentar polarizações ou divisões”, enfatiza.
Estar imune ao risco da superficialidade
Para estar “imune” aos riscos da superficialidade e à busca desenfreada por engajamento, Osnilda afirma que o missionário digital deve fundamentar sua presença na unidade entre vida espiritual e técnica comunicativa, a fim de evitar que a ferramenta se torne um fim em si mesma.
Ao priorizar o testemunho e o serviço em vez da marca pessoal, o foco desloca-se da vaidade do ‘clique’ para o compromisso com a verdade
– Osnilda Lima
“Essa imunidade contra a simplificação excessiva e a tentação do algoritmo encontra seu alicerce na teologia da Encarnação: à luz do Verbo que se fez carne para dialogar com a humanidade, a missão digital exige manter a integridade do conteúdo aliada a uma linguagem próxima. Assim como nas parábolas de Jesus, a síntese não deve significar a perda da profundidade teológica, mas sim a transparência necessária para que a Verdade se torne compreensível, acessível e transformadora para todos”, explica.
Segundo ela, o antídoto contra o modernismo e a autorreferencialidade é a eclesialidade. “O evangelizador não deve habitar o digital como um agente isolado em busca de métricas, mas como um membro do corpo da Igreja que comunica a partir de uma comunidade real”.
“Ao priorizar o testemunho e o serviço em vez da marca pessoal, o foco desloca-se da vaidade do ‘clique’ para o compromisso com a verdade. Assim, a vigilância constante e o cultivo da vida interior garantem que a presença nas redes seja uma extensão da missão de Cristo, e não uma concessão às lógicas puramente mercadológicas do ambiente digital”.




