Assessor na Diocese de São José dos Campos (SP), padre Gustavo Munhoz, reflete sobre o significado litúrgico do período vivido nestes dias pela Igreja
Gabriel Fontana
Da Redação

Foto: Lennon Caranzo via Unsplash
Depois de um final de ano intenso, cheio de eventos e festividades, a vida parece desacelerar um pouco. Tudo fica um tanto comum, às vezes um pouco arrastado, e a rotina parece adiar a decisão de retornar de vez ou aguardar até o Carnaval, quando dizem de fato começar o ano no Brasil. No âmbito eclesial, passado o tempo do Natal e até chegar a Quaresma, a Igreja vive o Tempo Comum, dias ordinários, mas que também carregam seu significado.
Desde a Festa do Batismo do Senhor, no dia 11 de janeiro, a Igreja se encontra nas primeiras semanas deste que é o maior tempo litúrgico. Tanto que é dividido em duas partes: uma anterior à Quaresma e outra após o Tempo Pascal. Trata-se de um período em que os fiéis são convidados a destinar maior atenção aos gestos e ensinamentos de Jesus em sua vida cotidiana.
Assessor para a Pastoral Litúrgica, Cantores e Músicos e MECs da Diocese de São José dos Campos (SP), padre Gustavo Munhoz frisa que este não é um tempo sem sentido. “Jesus é o sentido desse tempo onde nos percebemos como seus discípulos de uma maneira mais íntima e atenta, caminhando com ele, escutando-o”, expressa.
Caminho rumo à verdade plena

Padre Gustavo Munhoz / Foto: Arquivo pessoal
Segundo o sacerdote, o objetivo da Igreja, ao celebrar o Tempo Comum, é o anúncio do Evangelho, levando os fiéis para a verdade plena. Não há um “tema” específico para cada domingo do ano: o sacerdote ou o diácono que profere a homilia tem liberdade para expor o Mistério de Cristo sobre vários aspectos, desde o início da vida pública de Jesus, seus eventos e ensinamentos, até o anúncio escatológico da vinda do Reino de Deus.
A cor verde que toma conta do altar durante este período, associada à esperança, reflete a proposta deste tempo: “acender sempre esta luz da esperança através do encontro pessoal com Cristo, Mestre e Senhor da vida, através da transmissão de sua Palavra e dos sacramentos, a fim de que transbordemos de sua graça e apliquemos o que aprendemos dele nos gestos concretos fora do ambiente litúrgico, onde se dá o culto existencial”, define o assessor.
Após algumas semanas, o Tempo Comum é “interrompido” e dá-se início à Quaresma. “Gosto de entender este acontecimento como uma espécie de ‘transfiguração’”, expressa padre Gustavo. “O Senhor interrompe o nosso cotidiano e nos chama para ir com ele para o deserto, para o monte, para a realidade das pessoas, para Jerusalém, para o calvário e, finalmente, para Ele mesmo, na sua ressurreição”, complementa.
Na visão do sacerdote, observado o momento em que isso acontece dentro do Ano Litúrgico, percebe-se que o Tempo Pascal fundamenta, dá sentido e impulsiona a vivência do restante do Tempo Comum. “Quando retomamos o tempo comum, temos mais condições de compreender os eventos e ensinamentos da vida de Cristo à luz do Mistério Pascal a ponto de confessar com toda a Igreja, no último Domingo do Tempo Comum, que Ele é Rei e Senhor do Universo”, sinaliza.
A santidade no ordinário da vida
Na caminhada da Igreja rumo à pátria celeste, padre Gustavo recorda que a santidade é algo que acontece no ordinário. Como exemplo, cita São Carlo Acutis, testemunho de alegria no relacionamento com Deus, alicerçado nos sacramentos, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que descobriu que o fato de ser uma flor no jardim de Deus não era motivo de rebaixamento, mas oportunidade de encontro com o Senhor e com os irmãos.
“Deus é constante e sempre presente. Os santos percebem tudo isso e reagem. Não são indiferentes, embora tivessem de lutar muito para não perder de vista tamanho tesouro. Todos eles viveram esse encontro com o mistério no ordinário de suas vidas”, destaca padre Gustavo.
Ele cita ainda o exemplo do Venerável Franz de Castro, cujo processo de beatificação segue em aberto. Fiel leigo e advogado que faleceu em 1981, viveu com este brilho no coração. “Seus escritos revelavam a profundidade do seu desejo de estar com Deus e com os irmãos, até os menos queridos. Um exemplo próximo de nós que nos inspira e ensina que viver com Deus aqui não é perda de tempo, mas um verdadeiro investimento na eternidade”, conclui.
“Deus me espera não fora da rotina, mas dentro dela”
Outro santo associado à vida ordinária é São Josemaria Escrivá, sacerdote espanhol que fundou o Opus Dei. Supernumerária desde 2024, Mariane Azevedo partilha que o ensinamento do “santo do cotidiano” de que o dia a dia pode ser caminho de santidade foi o que mais a marcou.
“Não é preciso fazer coisas extraordinárias, mas viver com amor e retidão aquilo que Deus me confiou todos os dias”, afirma Mariane. Ela recorda que São Josemaria Escrivá dizia: a vocação do leigo consiste em três coisas – santificar o trabalho, santificar-se no trabalho e santificar os outros com o trabalho.
“Hoje, entendo que cada tarefa, por mais simples que pareça, pode ser oferecida a Deus e se tornar oração. É assim que busco viver a santidade no ordinário, com alegria e fidelidade”, expressa a supernumerária. “São Josemaria entendeu que o encontro com Deus acontece no dia a dia, no trabalho, nos deslocamentos, nas pequenas tarefas, na paciência que a gente precisa exercitar, no esforço de fazer o bem mesmo quando ninguém vê”, complementa.
Tudo isso Mariane busca por em prática, dia após dia, em sua vida: durante o deslocamento ao trabalho, faz suas orações e leituras espirituais; em seu emprego, procura viver tudo em espírito de serviço; na hora do almoço, sempre que pode participa da Missa. “Ali também Deus me espera. Não fora da rotina, mas dentro dela”, finaliza.




