Celebrado neste sábado

Santo Antão ensina que sem conversão, não há vida cristã, diz franciscano

Pai do monaquismo, santo celebrado neste sábado, 17, ensina que a conversão interior é condição essencial para uma vida cristã autêntica e fecunda

Julia Beck
Da Redação

Pintura em estilo barroco retratando Santo Antão, vestido com hábito marrom, sentado entre rochas no deserto e lendo a bíblia, com um cajado apoiado ao lado e uma paisagem com igreja ao fundo.

Santo Antão /Foto: Domínio Público

Um santo que respondeu com radicalidade e concretude à Palavra de Deus. Assim o religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, frei Augusto Luiz Gabriel, define Santo Antão, celebrado neste sábado, 17.

Conhecido como o “pai do monaquismo cristão”, Santo Antão nasceu no Egito em 251 e, ainda jovem, ficou órfão e herdeiro de muitos bens. Após ouvir o chamado de Cristo a deixar tudo e segui-Lo, decidiu abandonar suas riquezas: vendeu suas posses, garantiu o futuro da irmã e passou a buscar radicalmente a vontade de Deus, vivendo como eremita na oração, na penitência e na contemplação.

Frei Augusto recorda Santo Atanásio, que afirmava que Antão não apenas ouviu o Evangelho, mas o acolheu como palavra dirigida pessoalmente a ele. Isso fez, segundo o franciscano, “com que ele se confiasse totalmente à Providência”.

Vida eremita e deserto

Frei Augusto Luiz Gabriel /Foto: Arquivo Pessoal

Antão aprendeu com outros homens santos e retirou-se para lugares desertos e até abandonados, onde se tornou referência espiritual, acolhendo e aconselhando aqueles que o procuravam. A vida eremita, explica frei Augusto, é marcada pela solidão, pelo jejum e pelo trabalho manual, práticas que não têm “fim em si mesmas”, mas servem como meios para a unificação interior.

No deserto, Antão aprendeu a dominar a si mesmo, a ordenar seus desejos e a colocar Deus no centro de tudo. “Esse caminho ascético o conduz à verdadeira liberdade interior, condição essencial para a santidade”, complementa o religioso.

Segundo o franciscano, a vida do santo deixa claro que o deserto não é um espaço de evasão, mas de confronto: com Deus, consigo mesmo e com o mal. Por isso, o silêncio vivido por Antão é um silêncio “habitado”, repleto de escuta, oração e vigilância.

“Ele se afasta do barulho do mundo para discernir a voz de Deus e purificar o coração. Na espiritualidade cristã, esse silêncio revela uma verdade profunda: só quem se deixa encontrar por Deus no interior pode depois voltar ao mundo com mais amor e clareza. Por isso, mesmo isolado, Antão nunca deixou de servir à Igreja”, enfatiza.

Tradição espiritual cristã

De acordo com frei Augusto, a tradição espiritual cristã foi profundamente marcada pelo testemunho de Antão, sobretudo em três aspectos.

“Primeiro, a oração contínua, entendida não apenas como palavras, mas como um estado permanente de vigilância diante de Deus. Segundo, a ascese equilibrada: Atanásio mostra que Antão não buscava excessos, mas constância e discernimento. E terceiro, o combate espiritual, apresentado como realidade cotidiana da vida cristã. A luta contra o demônio, descrita na vida de Antão, tornou-se um paradigma para compreender a batalha interior contra o pecado, sempre sustentada pela graça e nunca pela autossuficiência”, sublinha.

Referência viva

A vida de profunda alegria, simplicidade e fidelidade de Santo Antão atraiu muitos seguidores, dando origem às primeiras comunidades monásticas. Esse testemunho pessoal é definido por frei Augusto como “um ponto muito bonito” da vida do santo.

O franciscano destaca que Antão não fundou mosteiros nem escreveu regras, mas sua própria vida tornou-se uma referência viva. “Quando sai da fortaleza após anos de isolamento, Atanásio diz que ele aparece equilibrado, sereno e plenamente humano. Isso atrai as pessoas. Muitos desejam viver como ele”, observa.

“Assim, da experiência eremítica nasce uma verdadeira paternidade espiritual”, prossegue o religioso. Antão ensina pelo exemplo, e essa transmissão de vida dá origem às primeiras comunidades monásticas, que mais tarde serão organizadas por outros, como São Pacômio, mas sempre bebendo da fonte antoniana.

Atualidade

Já idoso, Santo Antão combateu o arianismo — heresia que negava a divindade plena de Jesus Cristo, afirmando que Ele era uma criatura criada por Deus Pai — ao lado de Santo Atanásio. Tornou-se, assim, modelo de santidade, pobreza, obediência e castidade, falecendo em 356, após uma vida longa e inteiramente dedicada a Deus.

Ainda hoje, afirma frei Augusto, a espiritualidade de Santo Antão atravessa toda a história da vida consagrada. “Os monges do Oriente, especialmente os Padres do Deserto, bebem diretamente dessa fonte. No Ocidente, o ideal antoniano chega até São Bento e, mais tarde, inspira expressões eremíticas como os cartuxos, camaldulenses e também dimensões contemplativas presentes em várias ordens, inclusive na tradição franciscana”, explica.

Para os cristãos de hoje, o franciscano acredita que Santo Antão deixa uma mensagem profundamente atual: a necessidade de criar desertos interiores, espaços de silêncio, oração e discernimento, mesmo em meio às exigências do mundo. “Seu testemunho nos recorda que, sem conversão interior, sem combate espiritual e sem confiança na graça, não há verdadeira vida cristã”, conclui.

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