Psicóloga, especialista em família e sacerdote apontam impactos da exposição precoce e orientam pais sobre prevenção, diálogo e proteção no ambiente digital
Julia Beck
Da Redação

Perigos da internet para crianças e adolescentes /Foto: Canva
Considerada um pecado grave pela Igreja, a pornografia é um antigo desafio enfrentado pelas famílias. O acesso cada vez mais fácil, a crescente normalização e a expansão do mercado em torno desse conteúdo mostram que o problema está longe de ser superado.
No número 2354 do Catecismo da Igreja Católica, o posicionamento é claro: “as autoridades civis devem impedir a produção e a distribuição de material pornográfico”. São João Paulo II também dedicou especial atenção ao tema. Na Carta às Famílias, questionou se a pornografia é um “bom serviço à verdade do homem” e, em 1994, alertou para os efeitos da pornografia veiculada pela televisão, até então o principal meio de comunicação, por difundir valores e modelos de comportamento falseados ou degradantes, e prejudicar a vida familiar.
Em 1992, ao falar aos membros da Aliança Religiosa contra a pornografia, o Pontífice classificou sua disseminação como um grave problema social e expressão de uma crise mais ampla dos valores morais. Para ele, a pornografia distorce o verdadeiro significado da sexualidade humana, reduz o corpo a instrumento de gratificação, prejudica o amadurecimento moral e favorece relações marcadas pela exploração, atingindo de modo particular os mais vulneráveis.
Diante desse cenário, São João Paulo II reforçou o papel da Igreja no combate a esse “flagelo” e na ajuda às famílias em sua missão de formar a consciência dos jovens, promovendo o respeito pela sexualidade e uma compreensão madura das virtudes da modéstia e da castidade.
O Papa Francisco também denunciou os impactos da pornografia e a necessidade de uma resposta coletiva ao problema. Em 2022, ele afirmou que a pornografia difundida pela internet deve ser denunciada como “um ataque permanente à dignidade do homem e da mulher” e defendeu que ela seja reconhecida como uma ameaça à saúde pública. Para Francisco, proteger as crianças é uma tarefa urgente das autoridades e de toda a sociedade, mas também é necessário enfrentar o consumo de pornografia entre adultos, criando redes de famílias, escolas e comunidades capazes de prevenir o problema e ajudar aqueles que sofrem com o vício. Em outra ocasião, o Pontífice chamou atenção ainda para os grupos que produzem pornografia infantil, comparando sua atuação à de “máfias que se escondem e se defendem” e cobrando dos governos medidas para combater o fenômeno o quanto antes.
Exposição cada vez mais precoce

Diretor executivo e cofundador do Family Talks, Rodolfo Canônico /Foto: Divulgação – site Family Talks
Nesta que é a Semana Nacional da Família, o acesso cada vez mais precoce de crianças e adolescentes aos dispositivos digitais e a conteúdos impróprios reascende o alerta. Para o diretor executivo e cofundador do Family Talks (organização não governamental que tem como objetivo propor ações para a defesa dos direitos e o fortalecimento das famílias junto a lideranças nas esferas civis e governamentais), Rodolfo Canônico, a proteção de crianças e adolescentes não pode ser atribuída somente às famílias. Segundo ele, empresas de pornografia e plataformas digitais também precisam assumir responsabilidade pela segurança dos menores. “É necessário, sim, que haja legislação que obrigue o mercado a assumir o seu papel, já que voluntariamente ele não assumiu de forma adequada”, afirma.
A preocupação é ainda maior diante da exposição involuntária. Rodolfo afirma que “mais da metade dos primeiros acessos à pornografia é sem querer”. A grande disponibilidade do conteúdo, prossegue, faz com que crianças e adolescentes possam chegar a ele mesmo sem procurá-lo. “Não pode ser que um conteúdo de pornografia chegue para uma criança que não esteja procurando por ele”, alerta.
Para o diretor executivo do Family Talks, esse cenário revela duas necessidades urgentes: tornar o ambiente digital mais seguro e capacitar as famílias para estabelecer mecanismos de proteção.
Redes sociais e jogos
A psicóloga Aline Leite Nunes também chama atenção para as diferentes formas pelas quais esse contato pode acontecer. Além do acesso direto a conteúdos pornográficos, crianças e adolescentes podem ser expostos por meio de redes sociais, jogos on-line e até mesmo por outras crianças que compartilham imagens recebidas. Segundo ela, adultos podem utilizar perfis falsos para conquistar a confiança de menores e, posteriormente, solicitar imagens íntimas, utilizando o material para ameaçá-los e induzi-los a novos atos de exposição sexual.
Aline relata que esse tipo de abordagem pode começar de maneira aparentemente inocente, inclusive em ambientes de jogos virtuais. “Começa uma conversa despretensiosa e vai ganhando a confiança, a amizade, e aquilo vai crescendo até que é pedido uma foto”, explica. Ela também alerta para conteúdos sexualizados que circulam nas redes sociais de forma menos explícita, mas que podem ultrapassar os limites adequados à idade. Para a psicóloga, a própria convivência digital sem supervisão pode facilitar o contato de crianças com adultos que se apresentam como se fossem da mesma faixa etária.
Efeitos no desenvolvimento emocional e psicológico

A psicóloga Aline /Foto: Arquivo Pessoal
Os impactos dessa exposição podem variar. De acordo com Aline, algumas crianças podem ficar mais retraídas, tristes, sensíveis ou isoladas, enquanto outras podem apresentar comportamento erotizado e tentar reproduzir aquilo que viram. “Se em alguns casos a pornografia pode assustar e traumatizar crianças e jovens, em outros pode aguçar a curiosidade e o interesse”, explica. Segundo ela, os efeitos também podem não aparecer imediatamente e se manifestar posteriormente, inclusive por meio de agressividade ou de uma compreensão distorcida sobre sexualidade e relacionamentos.
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A psicóloga destaca ainda que estudos associam o consumo de pornografia a alterações em mecanismos ligados ao sistema de recompensa cerebral, além de possíveis impactos no controle inibitório, na tomada de decisões e na regulação emocional. Também são observadas associações com sintomas de ansiedade, depressão e comportamentos compulsivos. Na infância e na adolescência, período marcado pelo desenvolvimento neurológico e emocional, ela reitera que a exposição recorrente pode contribuir para uma compreensão distorcida do amor, do corpo e da sexualidade.
Responsabilidade compartilhada
Diante desse cenário, Rodolfo defende políticas públicas de educação digital, mecanismos eficazes de verificação de idade e iniciativas que orientem os pais sobre como proteger os filhos. Ele destaca o ECA Digital como exemplo de legislação que busca criar novas barreiras de proteção ao exigir mecanismos mais efetivos de controle etário nos sites de pornografia. “Isso é uma barreira de proteção a mais para as famílias”, explica.
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A responsabilidade, porém, também começa dentro de casa. Rodolfo recomenda que o acesso à internet aconteça preferencialmente em espaços comuns da residência, com horários definidos e supervisão dos responsáveis, além da utilização de filtros nos dispositivos e na própria rede doméstica. Para ele, um dos principais obstáculos é justamente o desconhecimento dos pais sobre a facilidade de acesso à pornografia. “As famílias não sabem o quão fácil é para uma criança acessar pornografia e, portanto, não colocam as proteções adequadas. É preciso virar esse cenário”, afirma.
Presença dos pais é fundamental
Aline também recomenda o uso de ferramentas de controle parental como uma primeira barreira de proteção. Ela orienta que os responsáveis instalem esses recursos em celulares, computadores e smart TVs e acompanhem regularmente o histórico de buscas e as atividades on-line dos filhos. Para ela, porém, a tecnologia não substitui a presença dos pais. “Mais do que restringir o uso da ferramenta digital, é preciso estar perto, aumentar a percepção, aumentar o vínculo de confiança”, explica.
Ela recomenda também que os pais fortaleçam o canal de comunicação com os filhos, criando um ambiente em que eles se sintam seguros para relatar situações de violência, aliciamento ou contato com conteúdos inadequados.
Educação, diálogo e confiança

Inspetor salesiano, padre Alexandre Luís de Oliveira / Foto: Reprodução TV Canção Nova
Além das barreiras tecnológicas, a formação e o diálogo são fundamentais. Para o inspetor na Inspetoria Salesiana Nossa Senhora Auxiliadora, em São Paulo, padre Alexandre Luís de Oliveira, a família possui uma missão essencial na educação dos filhos, especialmente diante dos desafios relacionados à sexualidade. “A família tem a missão fundamental de educar as novas gerações à luz dos valores do Evangelho, da doutrina da Igreja, da moral católica e da moral sexual”, afirma.
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Assim como recomenda Aline, diante de uma eventual exposição à pornografia, o sacerdote reforça que o caminho não deve ser apenas a repreensão, mas o diálogo e a proximidade. “Creio que o melhor caminho seja sempre o do diálogo aberto e, quando necessário, o auxílio da ciência, de um acompanhamento psicoterapêutico.” Para ele, confiança e uma rede de apoio são fundamentais no processo educativo e evangelizador. “Continuem a crer na educação! Não terceirizem o tempo com os seus filhos”, orienta, recordando o ensinamento de São João Bosco: amor, razão e religião.
Diante de um cenário em que a pornografia se torna cada vez mais acessível e sua exposição ocorre de maneira cada vez mais precoce, a proteção passa, portanto, por diferentes frentes: responsabilização das plataformas e do poder público, educação digital, mecanismos de segurança e presença ativa das famílias. Para a Igreja, esse cuidado também está ligado à formação integral da pessoa, ao respeito pela dignidade humana e à compreensão da sexualidade como um dom que não pode ser reduzido à exploração ou à busca de gratificação.




