Padre Rodolfo Chagas propõe leitura teológico-pastoral da violência contra a mulher e aponta caminhos de prevenção a partir da família, da educação e da ação pastoral
Da Redação, com Portal Vida e Família

Foto: Arquivo Canção Nova
O feminicídio, uma das expressões mais graves da violência no Brasil, é tema de um artigo do assessor da Comissão para a Vida e a Família da CNBB, padre Rodolfo Chagas, divulgado nesta sexta-feira, 2, pelo Portal Vida e Família. Em seu texto, o sacerdote destaca que o assassinato de mulheres em razão de sua condição feminina, frequentemente no contexto familiar, apresenta dados oficiais alarmantes: ao menos 11.859 mulheres foram vítimas desse crime nos últimos dez anos, com uma média atual de quase quatro mortes por dia. A violência atinge de forma desproporcional mulheres negras e moradoras das periferias, revelando um problema de caráter estrutural.
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Padre Rodolfo aponta que o fenômeno ultrapassa o âmbito jurídico e social e interpela diretamente a fé cristã. “Do ponto de vista da fé cristã, o feminicídio não é apenas um problema jurídico ou sociológico: é uma ferida espiritual e moral”, afirma no artigo. Amparado no magistério da Igreja, ele recorda que o Papa Francisco define a violência contra a mulher como “uma ‘covardia’ e uma ‘degradação para toda a humanidade’”, ressaltando que a forma como as mulheres são tratadas revela o grau de humanidade de uma sociedade.
A reflexão teológica apresentada pelo presbítero classifica o feminicídio como negação radical da dignidade humana e como pecado estrutural, enraizado em culturas de machismo, dominação e banalização da violência. À luz do Concílio Vaticano II, o autor destaca que toda forma de violência “envenena a civilização humana” e contradiz o desígnio de Deus, pois rompe a lógica do dom de si e da reciprocidade que fundamenta as relações humanas.
O artigo aponta a educação como eixo central da prevenção, especialmente no ambiente familiar. A ausência de uma educação afetivo-sexual integral, a normalização de comportamentos abusivos e a reprodução de modelos de masculinidade baseados no controle e na posse são identificadas como fatores decisivos na escalada da violência. “Devemos começar pela educação dos jovens, pois todo ser humano merece respeito e dignidade”, recorda o texto, citando o Papa Leão XIV.
Nesse contexto, o sacerdote convoca a Pastoral Familiar a assumir um papel estratégico no enfrentamento do feminicídio, atuando na formação de casais, no acompanhamento de famílias, na criação de espaços de escuta e no trabalho com homens, mulheres, crianças e adolescentes. Para o padre Rodolfo Chagas, somente uma conversão pessoal, familiar e estrutural permitirá transformar a realidade atual: “Somente assim poderemos, progressivamente, deixar de contar feminicídios e começar a contar histórias de libertação e de reconciliação”.




