Papa caminhou todo o percurso das 14 estações da Via Sacra; as meditações foram escritas por Frei Francesco Patton, que foi Custódio da Terra Santa por nove anos
Da redação, com Vatican News

Foto: REUTERS/Vincenzo Livieri
A tradicional Via Sacra no Coliseu, em Roma, realizada na noite desta Sexta-feira Santa, 3, reuniu cerca de vinte mil fiéis. O Papa Leão XIV carregou a cruz ao longo das 14 estações, entre o Anfiteatro Flávio até o Monte Palatino.
As meditações deste ano foram escritas pelo padre franciscano, Frei Francesco Patton, que foi Custódio da Terra Santa entre os anos de 2016 a 2025. As reflexões trouxeram trechos dos escritos de São Francisco de Assis, em memória do oitavo centenário de sua morte, que se comemora este ano, e foi inspirada em realidades contemporâneas.
Na Primeira Estação, onde Jesus, em diálogo com Pilatos, desmascara “toda presunção humana de poder”. Frei Patton destaca que ainda hoje há quem acredite ter recebido uma autoridade sem limites e pense poder usá-la e abusar dela à vontade, entretanto, “toda autoridade terá de responder perante Deus” pela forma como exerce o poder recebido: “o poder de educar para a violência ou para a paz, o poder de alimentar o desejo de vingança ou o de reconciliação, o poder de usar a economia para oprimir os povos ou para os libertar da miséria, o poder de espezinhar a dignidade humana ou de a proteger, o poder de promover e defender a vida ou de a rejeitar e sufocar”.
Falta de respeito pela dignidade humana
O abuso de poder é um tema recorrente na Décima Estação, “Jesus é despojado de suas vestes”. Para o franciscano, essa tentativa dos soldados de humilhar e despojar Cristo de sua dignidade humana “se repete continuamente”, mesmo em nossos dias: quando “regimes autoritários” obrigam “prisioneiros a permanecerem seminus”, quando há tortura, ou quando há quem autorize e utilize formas de investigação e controle que não respeitam “o ser humano”.
“É praticada pelos estupradores e abusadores, que tratam as vítimas como objetos. É praticada pela indústria do espetáculo, quando ostenta a nudez para ganhar mais alguns espectadores. É praticada pelo mundo da informação, quando expõe as pessoas perante a opinião pública. E, por vezes, também nós a fazemos, com a nossa curiosidade que não respeita nem o pudor, nem a intimidade, nem a privacidade dos outros”.
Na 13ª Estação há o exemplo de José de Arimateia e Nicodemos, que fazem um sepultamento digno para Jesus. Frei Patton recorda que hoje, porém, existem “cadáveres não devolvidos e sem sepultura”.
“O corpo de um morto também conserva a dignidade da pessoa e não pode ser vilipendiado, ocultado, destruído, não devolvido ou privado de uma regular sepultura. Não apenas o corpo de uma pessoa honesta, mas mesmo o corpo de um criminoso merece respeito”, destacou.
Poder autêntico
O poder autêntico, no entanto, nos é mostrado por Jesus pregado na Cruz, na 11ª Estação. É o poder “de quem pode vencer a morte dando vida” e anula o mal com o “amor” através do perdão.
“Vós manifestais que o poder autêntico não é o de quem usa a força e a violência para se impor, mas o de quem é capaz de tomar sobre si o mal da humanidade, o nosso, o meu, e anulá-lo com a potência do amor que se manifesta no perdão”, refletiu o frade franciscano.
O caminho da humildade
No percurso para o Gólgota, Jesus, que “abraçando a cruz e carregando-a sobre os ombros” (segunda Estação), assume “nossa humanidade”, assumindo “nossa escravidão” e “nossos crimes”, ensina-nos a não ter medo da cruz.
“Dai-nos a graça de vos seguir pelo vosso caminho e de não termos outra glória senão a vossa cruz”, reza o frei Patton, dirigindo-se a Deus, para que Ele nos liberte “do desejo de glória humana”, “da tentação de ignorar quem sofre” e do egoísmo.
Assim, as outras quedas de Cristo tornam-se um convite “para aprender o caminho da humildade”, mesmo a partir da experiência de tropeços e “humilhações” (Terceira Estação), para começar de baixo. Portanto, humilhar-se, curvar-se (Sétima Estação), como Jesus fez quando lavou “os pés de seus discípulos na Última Ceia” e deu “o exemplo de serviço, o ensinamento do amor fraterno e a profecia de dar a própria vida”.
Os cireneus de hoje
Ainda vislumbrando o presente ao longo do caminho para o Calvário, Frei Patton identifica em Simão de Cirene (5ª Estação), os muitos que “escolhem fazer algo de bom para os outros em todas as partes do mundo”, os “milhares de voluntários” que ajudam “quem precisa de comida, educação, cuidados médicos, justiça”, arriscando a própria vida.
Muitos deles não creem e, sem saber, ajudam Cristo a “continuar carregando a cruz” ao cuidar dos outros, observa o franciscano, que pede a Deus para que todos aprendam a ser empáticos e compassivos “com obras e em verdade”, atentos “aos que sofrem e aos descartados” e “a quem está sozinho e sem cuidado”.
As mulheres no caminho da cruz
As mulheres presentes nas horas da Paixão também falam ao homem contemporâneo. Verônica, que “sabe reconhecer” Jesus em sua “beleza desfigurada” (sexta estação), nos exorta a ver Cristo “em cada pessoa condenada pelo preconceito”, “nos pobres privados de sua dignidade”, “nas mulheres vítimas do tráfico humano e da escravidão”, “nas crianças cuja infância foi roubada”.
As mulheres de Jerusalém (oitava estação) recordam todas essas presenças femininas “onde quer que haja sofrimento ou necessidade”. Mas nelas também podemos identificar aqueles que choram por seus filhos, “levados e presos durante uma manifestação, deportados por políticas desprovidas de compaixão, naufragados em viagens desesperadas de esperança, dizimados em zonas de guerra, aniquilados em campos de extermínio”. As lágrimas delas são necessárias hoje “para chorar pelos desastres da guerra”, “pelos massacres e genocídios”, “pelo cinismo dos prepotentes”.
Depois, há a mãe de Jesus, Maria (nona estação), aquela a quem, aos pés da cruz, Jesus pede “que continue a gerar e a continuar a ser mãe” de todos. O frade franciscano pede que ela volte seu olhar para “as muitas, muitas mães” que “veem seus filhos presos, torturados, condenados, mortos”, aquelas “acordadas no meio da noite por notícias devastadoras” e aquelas “que velam no hospital por um filho que está morrendo”. Ele implora consolo para “órfãos, especialmente aqueles que ficaram órfãos por causa da guerra”, “migrantes, deslocados internos e refugiados”, aqueles que sofrem tortura e punições injustas, aqueles que “perderam o sentido da vida” e aqueles que morrem sozinhos.
Percorrer o caminho de Jesus no mundo real
Com suas meditações, o frei Patton nos convida a “percorrer o caminho das pegadas de Jesus”, não “meramente ritualístico ou intelectual”, mas de uma forma que “envolve toda a nossa pessoa e toda a nossa vida”, como indica São Francisco de Assis em seu Ofício da Paixão do Senhor: “Levem seus corpos como oferta, tomem a sua santa cruz e sigam os seus santíssimos mandamentos até o fim”.
“A Via-Sacra não é o caminho de quem vive num mundo de devoção estéril e recolhimento abstrato”, explica o franciscano, mas sim “o exercício de quem sabe que a fé, a esperança e a caridade devem ser encarnadas no mundo real”. É aqui que o fiel, continuamente desafiado, “deve fazer do caminho de Jesus o seu próprio”.




